14 julho 2010
13 julho 2010
Virar costas
Meter-me no carro... auto-estrada... vidros abertos... vento na cara.
The Reason
Hoobastank
The Reason
Hoobastank
12 julho 2010
Oscar, em fundo azul celeste.
E quem foi que disse que espreguiçar é feio?
Uma espreguiçadela matinal, sentados num banco de jardim, dobrando as costas para trás na madeira empoeirada e levantando os olhos para um céu azul celeste onde farrapos de algodão branco passam céleres, ao compasso acelerado de uma manhã de segunda-feira, fintando os galhos de um damasqueiro pejado de fruta madura e folhas de verde viçoso.
Lembrei-me de uma frase de Oscar Wilde, transcrita num postal que uma amiga me trouxe de Londres, depois de uma visita à National Portrait Gallery.
- Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós estão a olhar para as estrelas.
Hoje terminei mais um curso livre - Filosofia para Crianças.
Um homem entre catorze mulheres, um velho bardo entre belas corujas de Athena, mas todos crianças.
A Filosofia é magnífica quando abordada numa perspectiva de questionamento constante, de desafio dos nossos limites conceptuais. Damos por nós maravilhados com a novidade, com o descobrir e redescobrir do nosso pensar, sentir... ser.
Filosofia para Crianças podia muito bem ser Filosofia para Todos.
Mas o que sei eu? Sou apenas águas de Março.
Águas de Março (dedicado a todas as corujas de Athena)
Elis Regina
[Tom Jobim]
Uma espreguiçadela matinal, sentados num banco de jardim, dobrando as costas para trás na madeira empoeirada e levantando os olhos para um céu azul celeste onde farrapos de algodão branco passam céleres, ao compasso acelerado de uma manhã de segunda-feira, fintando os galhos de um damasqueiro pejado de fruta madura e folhas de verde viçoso.
Lembrei-me de uma frase de Oscar Wilde, transcrita num postal que uma amiga me trouxe de Londres, depois de uma visita à National Portrait Gallery.
- Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós estão a olhar para as estrelas.
Hoje terminei mais um curso livre - Filosofia para Crianças.
Um homem entre catorze mulheres, um velho bardo entre belas corujas de Athena, mas todos crianças.
A Filosofia é magnífica quando abordada numa perspectiva de questionamento constante, de desafio dos nossos limites conceptuais. Damos por nós maravilhados com a novidade, com o descobrir e redescobrir do nosso pensar, sentir... ser.
Filosofia para Crianças podia muito bem ser Filosofia para Todos.
Mas o que sei eu? Sou apenas águas de Março.
Águas de Março (dedicado a todas as corujas de Athena)
Elis Regina
[Tom Jobim]
03 julho 2010
26 junho 2010
21 junho 2010
Uma última dança lenta
Por entre o luar e as sombras, procuraram-se.
Rosmaninho, alecrim e alfazema reclamavam os odores da noite.
Ao longe alguém levantou o volume de um rádio e o silêncio do momento encheu-se de uma das mais belas canções alguma vez escritas: It's all over now, Baby Blue.
O estertor provocado pelo tom ameaçadoramente premonitório das palavras urgiu o enlace entre ambos.
Deram-se as mãos, deram-se os lábios... deram-se os corpos. Não se trocaram garantias de presente nem promessas de futuro.
Junto ao ouvido dela, ele não abriu a boca para uma única das muitas palavras de amor que ela ouviu naquele instante. Assim era sem necessário ser. Assim se falava sem dizer.
Um corrupio de carícias percorreu ambos os corpos, prazeres e sevícias aplicados reciprocamente até onde a latitude de cada um o permitiu.
Encurralados entre o instante fugaz e a possibilidade de serem observados, amaram-se em silêncio.
Suspiro sobre suspiro, arrepio sobre arrepio, construiram um momento de êxtase comum. Dedos cravados na alma entre-puxaram os corpos, a cadência aumentou e cabeças penderam para trás.
Tudo parou: o movimento aparente das estrelas cessou e o céu, cumprindo a canção, dobrou-se sobre ambos, naquilo que foi, tanto e tão pouco, um princípio e um fim.
It's all over now, baby blue
Bella Wagner
(Original de Bob Dylan)
Rosmaninho, alecrim e alfazema reclamavam os odores da noite.
Ao longe alguém levantou o volume de um rádio e o silêncio do momento encheu-se de uma das mais belas canções alguma vez escritas: It's all over now, Baby Blue.
O estertor provocado pelo tom ameaçadoramente premonitório das palavras urgiu o enlace entre ambos.
Deram-se as mãos, deram-se os lábios... deram-se os corpos. Não se trocaram garantias de presente nem promessas de futuro.
Junto ao ouvido dela, ele não abriu a boca para uma única das muitas palavras de amor que ela ouviu naquele instante. Assim era sem necessário ser. Assim se falava sem dizer.
Um corrupio de carícias percorreu ambos os corpos, prazeres e sevícias aplicados reciprocamente até onde a latitude de cada um o permitiu.
Encurralados entre o instante fugaz e a possibilidade de serem observados, amaram-se em silêncio.
Suspiro sobre suspiro, arrepio sobre arrepio, construiram um momento de êxtase comum. Dedos cravados na alma entre-puxaram os corpos, a cadência aumentou e cabeças penderam para trás.
Tudo parou: o movimento aparente das estrelas cessou e o céu, cumprindo a canção, dobrou-se sobre ambos, naquilo que foi, tanto e tão pouco, um princípio e um fim.
It's all over now, baby blue
Bella Wagner
(Original de Bob Dylan)
19 junho 2010
17 junho 2010
Final de ano lectivo / Final de ciclo
O meu David terminou a 4ª Classe ou, como agora se diz, o 1º Ciclo do Ensino Básico.
Hoje houve festa de despedida do ano lectivo na escola. Fez-se um pequeno lanche de confraternização e a miudagem preparou uma peça de teatro para nos oferecer.
Uns mais dados às artes do palco, outros menos, mas todos cheios de um empenhamento a perder de vista, desenrolaram a história do Palácio de Queluz e das suas figuras e figurões. Houve de tudo, personagens históricos e personagens inventados. Lá andavam D. Maria, D. João VI, D. Carlota Joaquina, as filhas todas, um rol de personagens imaginados pelos próprios alunos, todos com direito a cognome. Só faltou um Marquês de Marialva para perseguir a Rainha pelos jardins do Palácio (se bem que eu ache que a coisa era mais o inverso. Mas adiante...).
O meu pirralho apresentou-se ao público como sendo D. David, o Risotas. O cognome, escolhido por ele próprio, terá de certeza razão de ser pois quando se apresentou, o remanescente da Corte disparou numa gargalhada generalizada. E lá continuou D. David afirmando que vivera no Palácio de Queluz durante o séc. XIX, morrendo sem deixar amigos nem descendência.
Sem deixar amigos nem descendência??? Mas quem raio terá sugerido isto ao miúdo? - pensei eu imediatamente.
Apresentada toda a Corte e terminada a peça, os pequenotes ofereceram aos pais uma versão muito bem ensaiada do tema que abaixo vos deixo.
Findas as formalidades, chamei D. David, o Risotas, à parte e perguntei-lhe de quem fora a ideia do sem deixar amigos nem descendência, ao que me respondeu:
- Foi minha! Foi para dar a ideia de que nem tudo são risotas.
Não há nada que valha mais do que o amor incondicional de uma criança nem algo de tão admirável quanto qualquer um dos seus raciocínios cristalinos.
Meu filho: não consigo adivinhar o quanto gostas de mim, embora tenhas cantado que "é desde aqui até à Lua". O meu amor por ti não cabe na minha capacidade de expressão, mas monta a galope cada batida do meu coração.
Adivinha quanto gosto de ti
André Sardet
Hoje houve festa de despedida do ano lectivo na escola. Fez-se um pequeno lanche de confraternização e a miudagem preparou uma peça de teatro para nos oferecer.
Uns mais dados às artes do palco, outros menos, mas todos cheios de um empenhamento a perder de vista, desenrolaram a história do Palácio de Queluz e das suas figuras e figurões. Houve de tudo, personagens históricos e personagens inventados. Lá andavam D. Maria, D. João VI, D. Carlota Joaquina, as filhas todas, um rol de personagens imaginados pelos próprios alunos, todos com direito a cognome. Só faltou um Marquês de Marialva para perseguir a Rainha pelos jardins do Palácio (se bem que eu ache que a coisa era mais o inverso. Mas adiante...).
O meu pirralho apresentou-se ao público como sendo D. David, o Risotas. O cognome, escolhido por ele próprio, terá de certeza razão de ser pois quando se apresentou, o remanescente da Corte disparou numa gargalhada generalizada. E lá continuou D. David afirmando que vivera no Palácio de Queluz durante o séc. XIX, morrendo sem deixar amigos nem descendência.
Sem deixar amigos nem descendência??? Mas quem raio terá sugerido isto ao miúdo? - pensei eu imediatamente.
Apresentada toda a Corte e terminada a peça, os pequenotes ofereceram aos pais uma versão muito bem ensaiada do tema que abaixo vos deixo.
Findas as formalidades, chamei D. David, o Risotas, à parte e perguntei-lhe de quem fora a ideia do sem deixar amigos nem descendência, ao que me respondeu:
- Foi minha! Foi para dar a ideia de que nem tudo são risotas.
Não há nada que valha mais do que o amor incondicional de uma criança nem algo de tão admirável quanto qualquer um dos seus raciocínios cristalinos.
Meu filho: não consigo adivinhar o quanto gostas de mim, embora tenhas cantado que "é desde aqui até à Lua". O meu amor por ti não cabe na minha capacidade de expressão, mas monta a galope cada batida do meu coração.
Adivinha quanto gosto de ti
André Sardet
15 junho 2010
O dia em que S. Lourenço chorou.
Como não sabia sobre o que escrever fui aconselhado ao telefone (bj grande, Ré) a escrever sobre essa mesma ausência de vontade. Achei que este meu repositório de memórias merecia algo menos estéril. Mas onde procurar inspiração quando as musas não nos acodem?
Em processo retrospectivo fui rebobinando estas minhas últimas horas e não é que?...
Estive ao fogão a fazer a janta. Um bife do acém, modesto - desemprego oblige - e um panelão cheio de legumes cozidos. Cenoura, feijão verde, bróculos e uma courgete.
Enquanto fui depositando os legumes no tacho consoante os diversos tempos de cozedura, (gosto de tudo al dente), mantive uma acesa conversa com o meu São Lourenço que reside sobre a aba do extractor de fumos.
São Lourenço era Espanhol (das poucas coisas boas oriundas de Espanha - entre o presunto, as espanholas e... não me consigo lembrar de mais nada). Viveu no século III e foi um dos primeiros diáconos da Igreja Católica. Era o responsável pelo tesouro e pela distribuição das esmolas. Em 257 o Imperador Valeriano, com Roma tão tesa quanto o Portugal de hoje, decretou a apreensão dos bens da Igreja. O Papa Sisto II recusou e, em consequência, foi decapitado. A caminho do cadafalso, Lourenço ter-se-á aproximado do Papa e dito:
- Onde vai meu pai sem seu diácono?
Ao que Sisto II terá respondido:
- Não penses que te abandono, meu filho. Dentro de três dias voltarei a estar na tua presença!
Valeriano ordenou a Lourenço que, no prazo de três dias, procedesse à entrega de todas riquezas da Igreja. Durante esse período Lourenço distribuiu todo o dinheiro existente pelos pobres de Roma. No dia indicado compareceu perante o Imperador e, acompanhado por todos estes pobres, proferiu a seguinte a frase:
- Eis Senhor, a riqueza da Igreja!
Valeriano condenou-o a ser morto pelo fogo, mais exactamente sobre uma grelha. Consta que, durante o suplício, Lourenço terá dito aos seus carrascos:
- Podem virar-me para o outro lado porque deste já estou bem passado!
E por que carga de água tenho eu um São Lourenço sobre o fogão?
Porque devido ao episódio da grelha, São Lourenço foi, desde então, adoptado como Santo padroeiro dos cozinheiros.
Pensavam o quê? Que a conversa não ia dar em nada? Que era só um devaneio motivado pelo rum? Hein?
Trocávamos nós alegres impressões sobre o facto de a carne já não ser o que era, de os legumes terem perdido grande parte do seu sabor característico, quando lhe perguntei;
- Lourenço... sabes do que é que eu não gosto mesmo? É de fazer comer só para mim.
Tenho saudades de fazer comer para muitos, de tentar satisfazer todos os gostos, de me zangar quando os desafios culinários dão mal resultado...
Gostaste de repartir as riquezas pelos indigentes? Gostaste de servir aqueles que amavas? Também eu gostava de poder fazer o mesmo.
Não sei se foi do rum mas juro-vos que São Lourenço chorou... E eu chorei com ele...
Em processo retrospectivo fui rebobinando estas minhas últimas horas e não é que?...
Estive ao fogão a fazer a janta. Um bife do acém, modesto - desemprego oblige - e um panelão cheio de legumes cozidos. Cenoura, feijão verde, bróculos e uma courgete.
Enquanto fui depositando os legumes no tacho consoante os diversos tempos de cozedura, (gosto de tudo al dente), mantive uma acesa conversa com o meu São Lourenço que reside sobre a aba do extractor de fumos.
São Lourenço era Espanhol (das poucas coisas boas oriundas de Espanha - entre o presunto, as espanholas e... não me consigo lembrar de mais nada). Viveu no século III e foi um dos primeiros diáconos da Igreja Católica. Era o responsável pelo tesouro e pela distribuição das esmolas. Em 257 o Imperador Valeriano, com Roma tão tesa quanto o Portugal de hoje, decretou a apreensão dos bens da Igreja. O Papa Sisto II recusou e, em consequência, foi decapitado. A caminho do cadafalso, Lourenço ter-se-á aproximado do Papa e dito:
- Onde vai meu pai sem seu diácono?
Ao que Sisto II terá respondido:
- Não penses que te abandono, meu filho. Dentro de três dias voltarei a estar na tua presença!
Valeriano ordenou a Lourenço que, no prazo de três dias, procedesse à entrega de todas riquezas da Igreja. Durante esse período Lourenço distribuiu todo o dinheiro existente pelos pobres de Roma. No dia indicado compareceu perante o Imperador e, acompanhado por todos estes pobres, proferiu a seguinte a frase:
- Eis Senhor, a riqueza da Igreja!
Valeriano condenou-o a ser morto pelo fogo, mais exactamente sobre uma grelha. Consta que, durante o suplício, Lourenço terá dito aos seus carrascos:
- Podem virar-me para o outro lado porque deste já estou bem passado!
E por que carga de água tenho eu um São Lourenço sobre o fogão?
Porque devido ao episódio da grelha, São Lourenço foi, desde então, adoptado como Santo padroeiro dos cozinheiros.
Pensavam o quê? Que a conversa não ia dar em nada? Que era só um devaneio motivado pelo rum? Hein?
Trocávamos nós alegres impressões sobre o facto de a carne já não ser o que era, de os legumes terem perdido grande parte do seu sabor característico, quando lhe perguntei;
- Lourenço... sabes do que é que eu não gosto mesmo? É de fazer comer só para mim.
Tenho saudades de fazer comer para muitos, de tentar satisfazer todos os gostos, de me zangar quando os desafios culinários dão mal resultado...
Gostaste de repartir as riquezas pelos indigentes? Gostaste de servir aqueles que amavas? Também eu gostava de poder fazer o mesmo.
Não sei se foi do rum mas juro-vos que São Lourenço chorou... E eu chorei com ele...
Parece mal...
Parece mal mas sabe tão bem...
Tal como o acto de espreguiçar...
Hoje a nossa apetência bloguística encontra-se algo perturbada por uma quantidade absurda de rum, lima, açúcar, hortelã e gelo. Ou seja: foi, é e será dia de Mojitos.
Não até que a morte nos separe mas, pelo menos, até já não ser capaz de fazer o próximo.
Só um momento... vou fazer outro!
Vão-se entretendo com este som...
Partilhem este meu estado de alma... ou não.
Away From the Sun
3 Doors Down
Volto já!...
Tal como o acto de espreguiçar...
Hoje a nossa apetência bloguística encontra-se algo perturbada por uma quantidade absurda de rum, lima, açúcar, hortelã e gelo. Ou seja: foi, é e será dia de Mojitos.
Não até que a morte nos separe mas, pelo menos, até já não ser capaz de fazer o próximo.
Só um momento... vou fazer outro!
Vão-se entretendo com este som...
Partilhem este meu estado de alma... ou não.
Away From the Sun
3 Doors Down
Volto já!...
14 junho 2010
Krishnamurti
I maintain that Truth is a pathless land, and you cannot approach it by any path whatsoever, by any religion, by any sect. That is my point of view, and I adhere to that absolutely and unconditionally. Truth, being limitless, unconditioned, unapproachable by any path whatsoever, cannot be organized; nor should any organization be formed to lead or to coerce people along any particular path. If you first understand that, then you will see how impossible it is to organize a belief. A belief is purely an individual matter, and you cannot and must not organize it. If you do, it becomes dead, crystallized; it becomes a creed, a sect, a religion, to be imposed on others. This is what everyone throughout the world is attempting to do. Truth is narrowed down and made a plaything for those who are weak, for those who are only momentarily discontented. Truth cannot be brought down, rather the individual must make the effort to ascend to it. You cannot bring the mountain-top to the valley. If you would attain to the mountain-top you must pass through the valley, climb the steeps, unafraid of the dangerous precipices.
AQUI
AQUI
12 junho 2010
Desabafo
Como reza uma certa canção: I'm sick and tired of always being sick and tired!
Não há paciência nem entusiasmo para o que quer que seja. Estou farto desta merda toda!
O que querem mais de mim? Já não chega? É preciso chegar a que ponto?
(Agradeço que não comentem!!!)
Não há paciência nem entusiasmo para o que quer que seja. Estou farto desta merda toda!
O que querem mais de mim? Já não chega? É preciso chegar a que ponto?
(Agradeço que não comentem!!!)
BSO I
Forbidden Colours
David Sylvian / Ryuichi Sakamoto
"Merry Christmas Mr. Lawrence" / "Feliz Natal Mr. Lawrence" - 1983
11 junho 2010
10 junho 2010
A mulher da geração Pandora
A minha amiga Estela afirma a pés juntos que existe uma mulher Pandora.
Segundo ela, esta criatura tem entre trinta e quarenta anos. Na infância e adolescência foi sendo formatada pela mãezinha para um determinado percurso optimizado de vida: estudar até rebentar e tirar um curso superior à força (nem que fosse uma coisa de difícil aplicação profissional, tipo Línguas e Literaturas ou Engenharia Alimentar); desencantar urgentemente um emprego (nem que não tivesse nada a ver com o curso superior recém-concluído); arranjar sem demora um namorado com futuro (nem que não fosse exactamente o príncipe encantado com que sempre sonhara); comprar casa e casar ao fim de um ano; engravidar imediatamente e ter um primeiro filho; ter um segundo filho, um ano depois do primeiro; entrar em velocidade de cruzeiro e aguentar sem tugir nem mugir as vicissitudes de ter que tratar da casa e dos filhos; aturar um patrão irascível; e estar sempre disponível para os apetites sexuais do marido que, entretanto, se tornou cada vez distante.
Almejando ultrapassar o arrepio que esta descrição me causou, fui tentando aplicar a fórmula a algumas mulheres que conheço e que, de algum modo, se poderiam encaixar no padrão.
Hmmmmmm!
Mas o que tem isso a ver com Pandora? perguntei.
Foi então que me explicou, tim-tim por tim-tim, o carácter etno-antropológico que subjaz à pulseira Pandora e a toda a panóplia de pequenas peças compradas separadamente, com as quais se vai compondo gradualmente a dita pulseira. Cada uma dessas peças, designadas charms, pretende simbolizar um momento marcante ou uma ocasião especial na vida da sua detentora. Assim, o sucesso de uma mulher Pandora mede-se pela quantidade e qualidade dos charms que a sua pulseira ostenta.
Tremi ao pensar que esta peça de joalharia feita vitrina de troféus é a versão feminina e contemporânea equivalente aos colares feitos com as orelhas de inimigos que os homens de algumas tribos da Nova-Guiné traziam orgulhosamente ao pescoço...
E de repente voltei a tremer. Lembrei-me de que algumas das mulheres minhas conhecidas nas quais tinha pensado anteriormente exibem, realmente, as famigeradas pulseiras.
Meu Deus... será possível?
Segundo ela, esta criatura tem entre trinta e quarenta anos. Na infância e adolescência foi sendo formatada pela mãezinha para um determinado percurso optimizado de vida: estudar até rebentar e tirar um curso superior à força (nem que fosse uma coisa de difícil aplicação profissional, tipo Línguas e Literaturas ou Engenharia Alimentar); desencantar urgentemente um emprego (nem que não tivesse nada a ver com o curso superior recém-concluído); arranjar sem demora um namorado com futuro (nem que não fosse exactamente o príncipe encantado com que sempre sonhara); comprar casa e casar ao fim de um ano; engravidar imediatamente e ter um primeiro filho; ter um segundo filho, um ano depois do primeiro; entrar em velocidade de cruzeiro e aguentar sem tugir nem mugir as vicissitudes de ter que tratar da casa e dos filhos; aturar um patrão irascível; e estar sempre disponível para os apetites sexuais do marido que, entretanto, se tornou cada vez distante.
Almejando ultrapassar o arrepio que esta descrição me causou, fui tentando aplicar a fórmula a algumas mulheres que conheço e que, de algum modo, se poderiam encaixar no padrão.
Hmmmmmm!
Mas o que tem isso a ver com Pandora? perguntei.
Foi então que me explicou, tim-tim por tim-tim, o carácter etno-antropológico que subjaz à pulseira Pandora e a toda a panóplia de pequenas peças compradas separadamente, com as quais se vai compondo gradualmente a dita pulseira. Cada uma dessas peças, designadas charms, pretende simbolizar um momento marcante ou uma ocasião especial na vida da sua detentora. Assim, o sucesso de uma mulher Pandora mede-se pela quantidade e qualidade dos charms que a sua pulseira ostenta.
Tremi ao pensar que esta peça de joalharia feita vitrina de troféus é a versão feminina e contemporânea equivalente aos colares feitos com as orelhas de inimigos que os homens de algumas tribos da Nova-Guiné traziam orgulhosamente ao pescoço...
E de repente voltei a tremer. Lembrei-me de que algumas das mulheres minhas conhecidas nas quais tinha pensado anteriormente exibem, realmente, as famigeradas pulseiras.
Meu Deus... será possível?
09 junho 2010
Nova rubrica?
Como já devem ter reparado, os meus gostos musicais são bastante ecléticos.
Gosto imenso de estar a ler com música de fundo. Foi por isso que resolvi polvilhar os meus posts com sons de diversos tons (perdoem-me o trocadilho).
Estou a pensar em criar uma rubrica muito simples que consistirá em editar temas provenientes de bandas sonoras do cinema. O que acham?
Já agora contribuam com a vossa opinião para o título da rubrica.
OST (de Original Soundtrack)?
ou
BSO (de Banda Sonora Original)?
Conto convosco!
Gosto imenso de estar a ler com música de fundo. Foi por isso que resolvi polvilhar os meus posts com sons de diversos tons (perdoem-me o trocadilho).
Estou a pensar em criar uma rubrica muito simples que consistirá em editar temas provenientes de bandas sonoras do cinema. O que acham?
Já agora contribuam com a vossa opinião para o título da rubrica.
OST (de Original Soundtrack)?
ou
BSO (de Banda Sonora Original)?
Conto convosco!
Como uma folha no vento
Um pequeno rectângulo de dezoito por treze centímetros. Duas calhas cromadas aplicadas nas extremidades superior e inferior comprimiam a base e o vidro. Aconchegada entre ambos morava uma fotografia. Não uma fotografia qualquer. O teu retrato.
Contemplei-te, a medo. Há muito que o não fazia. Mais exactamente desde que foras, num arrufo de dor, exilada para trás da generosa lombada do Triunfo do Barroco.
Estranhamente, o teu sorriso revelou-se menos conversador. A sensação que sempre retirei daquela foto era a de que bem se podia tratar de uma menina irreverente, trocista, de dentes brancos como a espuma do mar e cabelos revoltos como o seu próprio espírito. E conversavas comigo...
Mas não hoje, não desta feita.
A densidade das sensações deu lugar à frieza da uma impressão a preto e branco reduzida à pobreza da sua bidimensionalidade.
Levantei-me da cadeira, indeciso. Abri uma cerveja e passei o vidro gelado pelas frontes. Sorri. Pudesse eu arrancar do peito o meu coração e aí sim, teriamos gelo polar.
Voltei a sentar-me.
Com uma solenidade que eu próprio não compreendi, retirei uma calha, depois a outra. Separei a base do vidro e o teu retrato precipitou-se no vazio, em espiral, como uma folha tocada a vento.
Caíste-me no chão mas não no esquecimento.
Tudo no ciclo da vida tem o seu tempo e esse dia chegará, se assim tiver que ser.
Contemplei-te, a medo. Há muito que o não fazia. Mais exactamente desde que foras, num arrufo de dor, exilada para trás da generosa lombada do Triunfo do Barroco.
Estranhamente, o teu sorriso revelou-se menos conversador. A sensação que sempre retirei daquela foto era a de que bem se podia tratar de uma menina irreverente, trocista, de dentes brancos como a espuma do mar e cabelos revoltos como o seu próprio espírito. E conversavas comigo...
Mas não hoje, não desta feita.
A densidade das sensações deu lugar à frieza da uma impressão a preto e branco reduzida à pobreza da sua bidimensionalidade.
Levantei-me da cadeira, indeciso. Abri uma cerveja e passei o vidro gelado pelas frontes. Sorri. Pudesse eu arrancar do peito o meu coração e aí sim, teriamos gelo polar.
Voltei a sentar-me.
Com uma solenidade que eu próprio não compreendi, retirei uma calha, depois a outra. Separei a base do vidro e o teu retrato precipitou-se no vazio, em espiral, como uma folha tocada a vento.
Caíste-me no chão mas não no esquecimento.
Tudo no ciclo da vida tem o seu tempo e esse dia chegará, se assim tiver que ser.
08 junho 2010
Inevitabilidades
Por vezes bons, outras vezes maus, os meus pensamentos tocam-te.
Entre o deve e o haver, não sei se prevalece o bem se o mal. Sei que para mim... para mim é sempre a perder.
Escrevo, rasuro, apago e volto a escrever.
Já não sei se o faço para ti, para mim ou por mim. Como lavrou Rainer Maria Rilke todas as minhas palavras concorrem para ti e nenhuma consente que as outras lhe passem à frente.
Que importa que não me leias? Ainda bem que assim é!
Tudo quanto extravaso, tudo quanto deixo fluir é puro desperdício, um louvor à inutilidade.
Elegias constantes, estertores de ressentimento e incompreensão eivados de fel.
Palavras órfãs de culpa, pairando hesitantes entre dois corações outrora cúmplices mas hoje irremediavelmente apartados.
Estou cansado! Cansado de apontar o dedo; cansado de me desculpar; de te desculpar. Estou exausto de tanto correr em redor de algo que não vale a pena e que, porventura, sem que eu disso desconfiasse, nunca a terá valido.
A ironia maior reside em que aquilo que mais procuro é uma forma de te fazer sair impoluta de tudo isto.
Pois sabes que mais? Não o consigo fazer! A solução passará eventualmente por aí.
Amor vincit omnia não é só para quem pode... é também para quem o merece!
Sleeping satellite
Tasmin Archer
Entre o deve e o haver, não sei se prevalece o bem se o mal. Sei que para mim... para mim é sempre a perder.
Escrevo, rasuro, apago e volto a escrever.
Já não sei se o faço para ti, para mim ou por mim. Como lavrou Rainer Maria Rilke todas as minhas palavras concorrem para ti e nenhuma consente que as outras lhe passem à frente.
Que importa que não me leias? Ainda bem que assim é!
Tudo quanto extravaso, tudo quanto deixo fluir é puro desperdício, um louvor à inutilidade.
Elegias constantes, estertores de ressentimento e incompreensão eivados de fel.
Palavras órfãs de culpa, pairando hesitantes entre dois corações outrora cúmplices mas hoje irremediavelmente apartados.
Estou cansado! Cansado de apontar o dedo; cansado de me desculpar; de te desculpar. Estou exausto de tanto correr em redor de algo que não vale a pena e que, porventura, sem que eu disso desconfiasse, nunca a terá valido.
A ironia maior reside em que aquilo que mais procuro é uma forma de te fazer sair impoluta de tudo isto.
Pois sabes que mais? Não o consigo fazer! A solução passará eventualmente por aí.
Amor vincit omnia não é só para quem pode... é também para quem o merece!
Sleeping satellite
Tasmin Archer
Gastronomias, Lda.
Estou a fazer uma jardineira de lulas que nem vos digo nem vos conto...
Um copo de Versátil na bancada e a Tina Turner na tv...
What's love got to do with it... what's love but a second hand emotion... who needs a heart when a heart can be broken...
Bela pinga, este Versátil...
Um copo de Versátil na bancada e a Tina Turner na tv...
What's love got to do with it... what's love but a second hand emotion... who needs a heart when a heart can be broken...
Bela pinga, este Versátil...
Ao virar da esquina
Ontem foi noite de meditação quinzenal. É sempre uma oportunidade soberana para aliviar esta náusea constante.
Tem que deitar fora toda essa tristeza, dizem-me. Tudo a seu tempo, respondo eu tentando esconder o óbvio.
Ao chegar a casa e não tendo lugar para estacionar o carro no sítio do costume, acabei por deixá-lo nas traseiras. E lá vinha eu, contando as pedras da calçada e pontapeando a má-disposição, quando, ao virar da esquina, dei de caras com um velhote sentado no chão, cabelo desgrenhado e barba farta, ambos grisalhos.
- Sabes quem eu sou? - lançou-me de chofre por entre um sorriso rasgado mas sem dentes.
- Não! - respondi.
- Eu sou Deus!
- E eu sou Napoleão Bonaparte, muito prazer.
Franziu o sobrolho e retorquiu:
- Ó palhaço… estás a gozar-me ou quê? És muito alto para Napoleão, trazes as duas mãos nos bolsos e népias de besta cavalar.
Esquadrinhei melhor aquela figura que agora se empertigava, brandindo perigosamente uma garrafa vazia.
Deus vestia uns jeans completamente esfarrapados, uma T-shirt branca e um blusão de napa preta. À lapela dois pins: God rocks e Guns N’ Roses.
Sorri e perguntei-lhe:
- Então e o que foi que Deus fez hoje digno de registo?
- Arhhh… arrumei uns carritos e regateei umas moedas. Sempre dá p’ós cacilhos. Mas a traça não dá tréguas…
De repente, do nada, um barulho enorme de descarrilamento ferroviário. Era o dono do café a fechar as grades de segurança.
Aproveitando o ensejo ensaiei:
- Pedro… não sobrou nenhum bolito? Deus está com fome!
Enquanto o homem voltou a entrar no café dei por mim a esgrimir a ironia. Jesus repartiu o pão pelos apóstolos mas desta feita seria Pedro a dar de comer a Deus…
Sinal do tempo, resquícios de um mundo que já ninguém compreende e onde quase nada faz sentido.
Hoje à noite Deus terá a companhia de um queque e de uma bola de Berlim. Para beber terá que ir ao chafariz mas, ainda assim, God rocks.
Welcome to the jungle
Guns N' Roses
Tem que deitar fora toda essa tristeza, dizem-me. Tudo a seu tempo, respondo eu tentando esconder o óbvio.
Ao chegar a casa e não tendo lugar para estacionar o carro no sítio do costume, acabei por deixá-lo nas traseiras. E lá vinha eu, contando as pedras da calçada e pontapeando a má-disposição, quando, ao virar da esquina, dei de caras com um velhote sentado no chão, cabelo desgrenhado e barba farta, ambos grisalhos.
- Sabes quem eu sou? - lançou-me de chofre por entre um sorriso rasgado mas sem dentes.
- Não! - respondi.
- Eu sou Deus!
- E eu sou Napoleão Bonaparte, muito prazer.
Franziu o sobrolho e retorquiu:
- Ó palhaço… estás a gozar-me ou quê? És muito alto para Napoleão, trazes as duas mãos nos bolsos e népias de besta cavalar.
Esquadrinhei melhor aquela figura que agora se empertigava, brandindo perigosamente uma garrafa vazia.
Deus vestia uns jeans completamente esfarrapados, uma T-shirt branca e um blusão de napa preta. À lapela dois pins: God rocks e Guns N’ Roses.
Sorri e perguntei-lhe:
- Então e o que foi que Deus fez hoje digno de registo?
- Arhhh… arrumei uns carritos e regateei umas moedas. Sempre dá p’ós cacilhos. Mas a traça não dá tréguas…
De repente, do nada, um barulho enorme de descarrilamento ferroviário. Era o dono do café a fechar as grades de segurança.
Aproveitando o ensejo ensaiei:
- Pedro… não sobrou nenhum bolito? Deus está com fome!
Enquanto o homem voltou a entrar no café dei por mim a esgrimir a ironia. Jesus repartiu o pão pelos apóstolos mas desta feita seria Pedro a dar de comer a Deus…
Sinal do tempo, resquícios de um mundo que já ninguém compreende e onde quase nada faz sentido.
Hoje à noite Deus terá a companhia de um queque e de uma bola de Berlim. Para beber terá que ir ao chafariz mas, ainda assim, God rocks.
Welcome to the jungle
Guns N' Roses
07 junho 2010
"Um pouco mais de alma animal" ou "Comentando os vossos comentários"
Não!...
Não me envergonho de mim perante os outros. Por vezes envergonho-me de mim perante mim.
Gostava de conseguir ser menos emocional sem, para isso, precisar de ser mais racional.
Ser racional é um exercício de auto-controlo muito mais fácil do que aquilo que se imagina. Mas é uma tremenda limonada.
Eu sei que é bonito almejar ao desprendimento em relação aos sentimentos, esse caminho que, como dizia Chesterton, vai dos olhos ao coração sem passar pelo intelecto, essas ilusões que toldam a mente humana e impedem a caminhada rumo a estádios de evolução espiritual mais desenvolvidos.
Deixem-me repetir: É uma monumental seca!!!
E mais - aqui fica formalizada a minha reclamação - trata-se de uma tremenda injustiça o facto de assim ter que ser se quisermos evoluir.
Gostava de conseguir ser mais selvagem.
Louco? Um pouco. Mas eu explico melhor. Gostava de conseguir ser mais selvagem como forma de poder ser (ainda) mais inconsciente e, logo, inocente, desprendido e autónomo relativamente às emoções.
Assim me veria livre destas marés de auto-comiseração em que por vezes pairo à deriva.
Como escreveu D. H. Lawrence no seu poema "Self-Pity":
I never saw a wild thing sorry for itself.
A small bird will drop frozen from a bough
without ever having felt sorry for itself.
Não me envergonho de mim perante os outros. Por vezes envergonho-me de mim perante mim.
Gostava de conseguir ser menos emocional sem, para isso, precisar de ser mais racional.
Ser racional é um exercício de auto-controlo muito mais fácil do que aquilo que se imagina. Mas é uma tremenda limonada.
Eu sei que é bonito almejar ao desprendimento em relação aos sentimentos, esse caminho que, como dizia Chesterton, vai dos olhos ao coração sem passar pelo intelecto, essas ilusões que toldam a mente humana e impedem a caminhada rumo a estádios de evolução espiritual mais desenvolvidos.
Deixem-me repetir: É uma monumental seca!!!
E mais - aqui fica formalizada a minha reclamação - trata-se de uma tremenda injustiça o facto de assim ter que ser se quisermos evoluir.
Gostava de conseguir ser mais selvagem.
Louco? Um pouco. Mas eu explico melhor. Gostava de conseguir ser mais selvagem como forma de poder ser (ainda) mais inconsciente e, logo, inocente, desprendido e autónomo relativamente às emoções.
Assim me veria livre destas marés de auto-comiseração em que por vezes pairo à deriva.
Como escreveu D. H. Lawrence no seu poema "Self-Pity":
I never saw a wild thing sorry for itself.
A small bird will drop frozen from a bough
without ever having felt sorry for itself.
06 junho 2010
Este é para ti... compadre.
Foram quantos anos? 10? Mais? Fossem 10 semanas e teria sido demasiado tempo sem nos botarmos os olhos em cima ou sem nos falarmos.
Não vale a pena chorar sobre o leite derramado. Há é que recuperar o tempo perdido e, como dizia Platão, não deixar crescer erva no caminho da amizade.
As recordações que temos para partilhar são mais importantes do que, à partida, o possamos julgar. O que é importante não é nem o que ficou para trás nem o que nos aguarda, mas sim aquilo que trazemos dentro de nós. E o que trazemos dentro de nós resultante dessas memórias? Um sentimento de irmandade elevado a uma potência apenas decifrável por quem fez vida no mar.
Lembras-te das fainas entre as cinco da tarde e as cinco da manhã? De como ainda miúdos saltámos para dentro do barco e reclamámos o nosso lugar ao remo? E por que raio haviam os Caparicanos de ser mais do que a seita de Almada?
Sabes amigo, penso muitas vezes nas famosas sandes de dez fatias de fiambre dentro de um pão de Mafra; o safa-pão que na ida carregava as latas de meio-litro de cerveja e na volta trazia o esforçado quinhão de peixe que entregávamos em casa com orgulho.
Recordo como as nossas mãos passaram de bolha a calo sem qualquer queixume ou indício de fraqueza; os temporais em que, com respeito pelo mar mas sem qualquer consideração pelas nossas vidas, saíamos irresponsavelmente para uma tormenta desfeita, sem ajuda de motores fora-de-borda, remando para além do limite do razoável e de como, na arribada, o "velho" Venceslau, arrais da Arte, passava a corda à malagueta para que um qualquer andaço de água mais traiçoeiro não virasse o saveiro meia-lua sobre nós.
Tenho dias, durante as minhas caminhadas pela praia, em que julgo ouvir o rezingão Venceslau a zurzir na companha, sobretudo quando era preciso encalhar o barco no cimo das dunas e havia uma barreira imensa de areia para vencer. No final da faina já nenhum de nós podia com uma gata pelo rabo e todos fugiam ao derradeiro esforço que era carregar em ombros aquele adamastor de madeira. Ainda tenho as marcas psicológicas das recoveiras de eucalipto cravadas nos ombros. E era então que o velho "Lau" vociferava tonitroante: Andarem cá ao barco seus langões! Se eu tivesse a vossa idade comia isto tudo à dentada.
E quando a pesca era fraca e sobravam apenas umas cavalas para o quinhão? A companha mostrava o seu ar de desagrado e o velho respondia: O que foi? Estão agoniados de tanto peixe? Amanhã damos dois lanços pelas Terras da Costa. Pode ser que se apanhe alguma vaca e assim já podem levar bifinhos do lombo para casa.
Sabes do que sinto mais saudade? Das noites de Lua Nova em que saíamos para o mar a aguardar hora para dar o lanço. Largava-se o ferro e ficávamos deitados sobre os bancos ou sobre a rede, mãos cruzadas sob a cabeça, contemplando um céu negro absolutamente pejado de estrelas. Ninguém abria a boca para dizer o que fosse. Eram horas em que homens, barco, mar e céu se fundiam num todo em que qualquer outro som que não o das vagas acariciando o casco seria conspurcar uma sagrada comunhão.
Tenho também, confesso-te, uma vaidade tremenda ao lembrar de quando, já na Faculdade, os banhistas se chegavam ao barco enquanto nos preparávamos para mais um lanço e o arrais dizia inchado para as pessoas: Estão a ver este que está aqui a aparelhar a rede? É quase Doutor mas anda aqui ao mar comigo. E mais tarde, já na Armada, quando a Bertina me disse em segredo que o Venceslau saía para o mar com uma fotografia minha, de uniforme, dentro do bolso da camisa de flanela, para ele poder dizer, no caso de lhe aparecer a Polícia Marítima, que tinha um afilhado que era Oficial de Marinha.
É assim a vida... Fomos marcados e marcámos. Aprendemos partilhas e silêncios. Crescemos...
Um grande abraço, compadre.
Não vou mais sentir saudades tuas porque não te vou perder outra vez sob a linha do horizonte.
Não vale a pena chorar sobre o leite derramado. Há é que recuperar o tempo perdido e, como dizia Platão, não deixar crescer erva no caminho da amizade.
As recordações que temos para partilhar são mais importantes do que, à partida, o possamos julgar. O que é importante não é nem o que ficou para trás nem o que nos aguarda, mas sim aquilo que trazemos dentro de nós. E o que trazemos dentro de nós resultante dessas memórias? Um sentimento de irmandade elevado a uma potência apenas decifrável por quem fez vida no mar.
Lembras-te das fainas entre as cinco da tarde e as cinco da manhã? De como ainda miúdos saltámos para dentro do barco e reclamámos o nosso lugar ao remo? E por que raio haviam os Caparicanos de ser mais do que a seita de Almada?
Sabes amigo, penso muitas vezes nas famosas sandes de dez fatias de fiambre dentro de um pão de Mafra; o safa-pão que na ida carregava as latas de meio-litro de cerveja e na volta trazia o esforçado quinhão de peixe que entregávamos em casa com orgulho.
Recordo como as nossas mãos passaram de bolha a calo sem qualquer queixume ou indício de fraqueza; os temporais em que, com respeito pelo mar mas sem qualquer consideração pelas nossas vidas, saíamos irresponsavelmente para uma tormenta desfeita, sem ajuda de motores fora-de-borda, remando para além do limite do razoável e de como, na arribada, o "velho" Venceslau, arrais da Arte, passava a corda à malagueta para que um qualquer andaço de água mais traiçoeiro não virasse o saveiro meia-lua sobre nós.
Tenho dias, durante as minhas caminhadas pela praia, em que julgo ouvir o rezingão Venceslau a zurzir na companha, sobretudo quando era preciso encalhar o barco no cimo das dunas e havia uma barreira imensa de areia para vencer. No final da faina já nenhum de nós podia com uma gata pelo rabo e todos fugiam ao derradeiro esforço que era carregar em ombros aquele adamastor de madeira. Ainda tenho as marcas psicológicas das recoveiras de eucalipto cravadas nos ombros. E era então que o velho "Lau" vociferava tonitroante: Andarem cá ao barco seus langões! Se eu tivesse a vossa idade comia isto tudo à dentada.
E quando a pesca era fraca e sobravam apenas umas cavalas para o quinhão? A companha mostrava o seu ar de desagrado e o velho respondia: O que foi? Estão agoniados de tanto peixe? Amanhã damos dois lanços pelas Terras da Costa. Pode ser que se apanhe alguma vaca e assim já podem levar bifinhos do lombo para casa.
Sabes do que sinto mais saudade? Das noites de Lua Nova em que saíamos para o mar a aguardar hora para dar o lanço. Largava-se o ferro e ficávamos deitados sobre os bancos ou sobre a rede, mãos cruzadas sob a cabeça, contemplando um céu negro absolutamente pejado de estrelas. Ninguém abria a boca para dizer o que fosse. Eram horas em que homens, barco, mar e céu se fundiam num todo em que qualquer outro som que não o das vagas acariciando o casco seria conspurcar uma sagrada comunhão.
Tenho também, confesso-te, uma vaidade tremenda ao lembrar de quando, já na Faculdade, os banhistas se chegavam ao barco enquanto nos preparávamos para mais um lanço e o arrais dizia inchado para as pessoas: Estão a ver este que está aqui a aparelhar a rede? É quase Doutor mas anda aqui ao mar comigo. E mais tarde, já na Armada, quando a Bertina me disse em segredo que o Venceslau saía para o mar com uma fotografia minha, de uniforme, dentro do bolso da camisa de flanela, para ele poder dizer, no caso de lhe aparecer a Polícia Marítima, que tinha um afilhado que era Oficial de Marinha.
É assim a vida... Fomos marcados e marcámos. Aprendemos partilhas e silêncios. Crescemos...
Um grande abraço, compadre.
Não vou mais sentir saudades tuas porque não te vou perder outra vez sob a linha do horizonte.
04 junho 2010
03 junho 2010
Desabafo
Por vezes venho ao blog e ponho-me a reler os posts.
Dou por mim a pensar: mas que merda de lamechice!!!
Dá-me vontade de não voltar cá mais.
Dou por mim a pensar: mas que merda de lamechice!!!
Dá-me vontade de não voltar cá mais.
A uma criança que dança ao vento
Dança aí, junto ao mar;
Que te importa o rugido da água, o rugido do vento?
Sacode a tua cabeleira
Que as gotas de sal molharam;
Sendo tão jovem ignoras
O triunfo do néscio, nem sabes
Que o amor mal se ganha e logo se perde,
Nem viste morrer o melhor operário
E todos os feixes por atar.
Por que hás tu de temer
O choro monstruoso do vento?
To a child dancing in the wind
W. B. Yeats
Que te importa o rugido da água, o rugido do vento?
Sacode a tua cabeleira
Que as gotas de sal molharam;
Sendo tão jovem ignoras
O triunfo do néscio, nem sabes
Que o amor mal se ganha e logo se perde,
Nem viste morrer o melhor operário
E todos os feixes por atar.
Por que hás tu de temer
O choro monstruoso do vento?
To a child dancing in the wind
W. B. Yeats
02 junho 2010
Se eu pudesse...
Queria ser o sangue que te corre nas veias e fluir por ti alegremente.
Queria ser o ar que respiras e preencher-te a cada inspiração.
Pudesse eu ser o vento e sussurar-te-ia aos ouvidos, uma e outra vez, nunca sem ti.
Se eu pudesse, apenas, poder...
Change the world
Eric Clapton
Queria ser o ar que respiras e preencher-te a cada inspiração.
Pudesse eu ser o vento e sussurar-te-ia aos ouvidos, uma e outra vez, nunca sem ti.
Se eu pudesse, apenas, poder...
Change the world
Eric Clapton
Cinco minutos
Deitaram-se nas espreguiçadeiras.
Descanso...
No ar o aroma dominante da akadama húmida dos bonsais acabados de regar.
Gotas de água resultantes de um zelo excessivo precipitavam-se inapelavelmente no vazio, esmagando-se na tijoleira encarnada e ecoando na noite escura.
Lua nova... estrelas velhas. Companheiras universais... mas não eternas.
A possibilidade de cada um destes pequenos pontos se poder extinguir a qualquer momento lembrou os amantes da perenidade dos afectos. A lembrança de que existem coisas na vida que, pura e simplesmente, não estão destinadas a ser como ambos quereriam que fossem. A eternidade dos sentimentos que se quer mas se receia. Essa quimera feita khímaira, monstro lendário.
O amor, sabem-no bem, é entre dois seres a sua pequena Shambhala. Mas precisamente porque assim é, a visão que cada um deles tem desse paraíso feito seu estará sempre limitada pela sua própria condição espiritual. Esse bem comum, património partilhado, assenta em fundações porventura diferentes.
Talvez por isso a incógnita. Talvez daí a dúvida.
Espirais de fumo exaladas depois de mais uma passa no cigarro pairaram no ar, dançando, provocantes, voluptuosas.
As estrelas perderam-se momentaneamente por detrás de uma nuvem de algodão feito cinzento pela noite.
Mais uma espiral de fumo... mais uma espiral de incertezas.
Por que razão terá tudo que ser tão negociado? Se não há coincidências, se tudo acontece porque assim tem que o ser, será necessário investir tanto para tanto voltar a perder, uma e outra vez. O que se aprende? A sofrer?
Olharam-se de forma cúmplice e duas mãos encontraram-se no vazio. Entrelaçaram os dedos e os seus olhos disseram, a um tempo, Amo-te! Até quando, não o sei. Mas neste lugar, neste instante... Amo-te!
Why
Annie Lennox
Descanso...
No ar o aroma dominante da akadama húmida dos bonsais acabados de regar.
Gotas de água resultantes de um zelo excessivo precipitavam-se inapelavelmente no vazio, esmagando-se na tijoleira encarnada e ecoando na noite escura.
Lua nova... estrelas velhas. Companheiras universais... mas não eternas.
A possibilidade de cada um destes pequenos pontos se poder extinguir a qualquer momento lembrou os amantes da perenidade dos afectos. A lembrança de que existem coisas na vida que, pura e simplesmente, não estão destinadas a ser como ambos quereriam que fossem. A eternidade dos sentimentos que se quer mas se receia. Essa quimera feita khímaira, monstro lendário.
O amor, sabem-no bem, é entre dois seres a sua pequena Shambhala. Mas precisamente porque assim é, a visão que cada um deles tem desse paraíso feito seu estará sempre limitada pela sua própria condição espiritual. Esse bem comum, património partilhado, assenta em fundações porventura diferentes.
Talvez por isso a incógnita. Talvez daí a dúvida.
Espirais de fumo exaladas depois de mais uma passa no cigarro pairaram no ar, dançando, provocantes, voluptuosas.
As estrelas perderam-se momentaneamente por detrás de uma nuvem de algodão feito cinzento pela noite.
Mais uma espiral de fumo... mais uma espiral de incertezas.
Por que razão terá tudo que ser tão negociado? Se não há coincidências, se tudo acontece porque assim tem que o ser, será necessário investir tanto para tanto voltar a perder, uma e outra vez. O que se aprende? A sofrer?
Olharam-se de forma cúmplice e duas mãos encontraram-se no vazio. Entrelaçaram os dedos e os seus olhos disseram, a um tempo, Amo-te! Até quando, não o sei. Mas neste lugar, neste instante... Amo-te!
Why
Annie Lennox
31 maio 2010
Leituras
O bobo não gostava do seu país. Achava a tranquilidade do povo uma espécie de sonífero que anestesiava pela calada as suas potencialidades. Para sublinhar a sua reprovação, costumava passear à hora de ponta atrás de Heloísa, a sua tartaruga. Dirigia-se para o maior cruzamento da cidade e, assim que lá chegava, demorava por vezes mais de vinte minutos a atravessá-lo, no meio de um concerto de buzinas. "Estão sempre em movimento", gritava o bobo, "mas ninguém muda! Partem em todas as direcções, mas ninguém sabe para onde vai. Circulam cada vez mais depressa, mas nenhum avança. Comparada convosco, a minha Heloísa é o Carl Lewis em pessoa!". Apesar dos gritos de indignação e de raiva dos condutores, o bobo seguia lentamente Heloísa até ao outro lado da rua. E, tranquilamente, meditava sobre o valor da calma num mundo demasiado agitado.
O Rei, o Sábio e o Bobo
Shafique Keshavjee
O Rei, o Sábio e o Bobo
Shafique Keshavjee
27 maio 2010
A rúbrica "Sons"
Mas porquê a rúbrica Sons entremeada entre os posts (vulgo) normais?
A razão é simples: para que possam ir ouvindo alguma música enquanto vasculham o blog, tornando (espero eu) a navegação mais agradável.
A razão é simples: para que possam ir ouvindo alguma música enquanto vasculham o blog, tornando (espero eu) a navegação mais agradável.
Agora a sério
Ontem à noite, a convite de uma das actrizes, fui assistir a este espectáculo que se encontra em cena na sala azul do Teatro Aberto.
Henry, um dramaturgo dividido entre duas actrizes, Charlotte e Annie, é o protagonista desta tragicomédia que usa o teatro dentro do teatro e põe em causa as ideias feitas de fidelidade, realidade e talento. Quando é que podemos dizer que «agora é a sério»?O texto de Tom Stoppard não é fácil mas colocou-me uma boa meia-dúzia de vezes em perfeita sintonia/identificação com alguns dos estados de alma e interpretações (se tal é possível) do que é o amor. Em suma: dei por mim a rever-me em determinados momentos da acção e a pensar "que pena não ter sido capaz de me expressar de modo tão eloquente quando a situação o pediu"...
Ajudou a compreender-me melhor e a concluir que, no final do dia, não sou nenhuma excentricidade.
Parece-me não ser coisa pouca que se possa dizer de uma peça de teatro.
Aconselho vivamente!
Em cena até dia 13 de Junho.
Mais info aqui.
26 maio 2010
Santana
Foto DN
"Nunca toco sozinho", disse Carlos Santana, a propósito do concerto de hoje à noite no Pavilhão Atlântico (Lisboa). O guitarrista não se referia, no entanto, aos dez músicos que o vão acompanhar em palco, se bem que esses também serão parte integrante do espectáculo, que começará às 21.00 e terá a duração de cerca de duas horas e meia.
"Há muitas presenças do outro lado (sim, do além) que nos acompanham em palco. Vai haver muitos intangíveis esta noite."
Se é algo desconcertante a naturalidade com que Santana fala do "mundo dos espíritos", então é preciso não esquecer que, durante quase 30 anos (entre 1972, quando gravou Love Devotion Surrender ,e o lançamento de Supernatural, em 1999), o mexicano absteve-se de quaisquer aproximações ao sucesso comercial em termos "convencionais", aproximando-se do free jazz influenciado pelo misticismo indiano.
Nesta digressão, Santana regressa, depois da excursão pop de Supernatural, Shaman (2002) e All That I Am (2005), ao seu terreno clássico de expressão artística, com uma digressão que baptizou Universal Tone.
"Durante toda a vida me perguntaram se acreditava no 'tom universal'. Claro que acredito, toda gente o tem, mas nem todos o encontram", declara, referindo-se a si próprio em particular. "O Bob Marley encontrou-o", diz, apontando para a camisa, "O [John] Coltrane também. Eu também o encontrei. Quando se reconhece um músico à primeira nota, é isso o tom universal."
"O som, a ressonância e a vibração são as minhas ferramentas", diz, acerca do seu ethos musical: "Quando se toca um solo, há três coisas que têm de ser tidas em conta: onde estou, para onde vou e o que quero dizer. E depois sair dali para fora. [Tocar guitarra] não é sobre mostrar que se é bom, não é sobre dizer 'vejam quantas notas toco', isso é exibicionismo."
Para o seu quarto concerto em terras lusas, Santana promete, para além de uma recomendável dose de subtileza, um espectáculo de "música para amantes".
"Deus também está na atracção entre um homem e uma mulher. Ele não estava na sala ao lado a aquecer o jantar enquanto Adão e Eva se divertiam com a cobra."
Texto (horrivelmente) escrito por Alexandre Elias
DN Artes
25.05.10
Pois fiquem sabendo que o concerto foi tudo isto e muito mais.
Carlos Santana é, de facto, um arauto da luz, do amor e da liberdade.
E podem ter a certeza: pela vibração de harmonia que se instalou... o homem não toca sozinho!...
Namastê meu irmão.
24 maio 2010
O meu filho
Começo por escrever que o meu filho tem 10 anos e frequenta o 4º ano do 1º Ciclo do EB.
Há já algum tempo que, por força de um repetido menosprezo pela feitura dos trabalhos-de-casa (quase) diários que acabavam por ser feitos sempre tarde e a más horas, combinei com ele o seguinte:
- Chegando a casa depois da escola e depois de lanchar e trocar de roupa, a primeiríssima coisa a fazer passariam a ser os deveres (como se dizia nos idos de 60). Nada de TV, DVD, PSP, Nintendo nem o diabo-a-quatro.
Foi um compromisso assumido com base na confiança mútua porque eu não estou lá para controlar. Limito-me a perguntar.
Ontem, estando com ele e convencido de que seria um mero pró-forma, perguntei-lhe pelos trabalhos. Respondeu-me que ainda não estavam feitos mas que consistiam apenas em dois desenhos e numa biografia que deveria ser pesquisada na internet, recortada e colada juntamente com outros elementos de interesse numa folha de cartolina azul.
Azul... fiquei eu!!!
Ror de impropérios e de chamadas de atenção de toda a espécie. Falámos de irresponsabilidade, de quebras de confiança e dos facilitismos que ele aproveita ao virar de cada esquina.
A mãe, que é quem o cria em permanência, ao ouvir falar de facilitismos veio logo a correr meter o bedelho. Não houve sequer conversa. A minha irritação estava no seu zénite.
Entrei em descompressão e fiquei a pensar no modo completamente desproporcionado como tinha acabado de me comportar, medindo a validade e a pertinência de tentar argumentar com uma criança de 10 anos com base em conceitos como irresponsabilidade, confiança e facilitismo, sabendo perfeitamente que o ser-se criança também é passar ao lado, senão por cima, destas coisas de adulto.
Passados alguns instantes o meu filho dirigiu-se a mim e disse:
- Pai... não tinhas necessidade nenhuma de falar assim com a mãe. A culpa é minha... não é dela!
As minhas dúvidas foram diluídas no modo e no conteúdo salomónicos da afirmação.
Ajudei-o a fazer as pesquisas, os recortes e as colagens.
Levantei-me e saí, envergonhado e com lágrimas nos olhos...
Há já algum tempo que, por força de um repetido menosprezo pela feitura dos trabalhos-de-casa (quase) diários que acabavam por ser feitos sempre tarde e a más horas, combinei com ele o seguinte:
- Chegando a casa depois da escola e depois de lanchar e trocar de roupa, a primeiríssima coisa a fazer passariam a ser os deveres (como se dizia nos idos de 60). Nada de TV, DVD, PSP, Nintendo nem o diabo-a-quatro.
Foi um compromisso assumido com base na confiança mútua porque eu não estou lá para controlar. Limito-me a perguntar.
Ontem, estando com ele e convencido de que seria um mero pró-forma, perguntei-lhe pelos trabalhos. Respondeu-me que ainda não estavam feitos mas que consistiam apenas em dois desenhos e numa biografia que deveria ser pesquisada na internet, recortada e colada juntamente com outros elementos de interesse numa folha de cartolina azul.
Azul... fiquei eu!!!
Ror de impropérios e de chamadas de atenção de toda a espécie. Falámos de irresponsabilidade, de quebras de confiança e dos facilitismos que ele aproveita ao virar de cada esquina.
A mãe, que é quem o cria em permanência, ao ouvir falar de facilitismos veio logo a correr meter o bedelho. Não houve sequer conversa. A minha irritação estava no seu zénite.
Entrei em descompressão e fiquei a pensar no modo completamente desproporcionado como tinha acabado de me comportar, medindo a validade e a pertinência de tentar argumentar com uma criança de 10 anos com base em conceitos como irresponsabilidade, confiança e facilitismo, sabendo perfeitamente que o ser-se criança também é passar ao lado, senão por cima, destas coisas de adulto.
Passados alguns instantes o meu filho dirigiu-se a mim e disse:
- Pai... não tinhas necessidade nenhuma de falar assim com a mãe. A culpa é minha... não é dela!
As minhas dúvidas foram diluídas no modo e no conteúdo salomónicos da afirmação.
Ajudei-o a fazer as pesquisas, os recortes e as colagens.
Levantei-me e saí, envergonhado e com lágrimas nos olhos...
19 maio 2010
(Re)Leituras
O longo beijo mergulhou-os numa calma imensa. Fusako não se esquecia da separação do dia seguinte. Mordendo o queixo de Ryuji, tocando as superfícies escaldantes, polidas, onde ele tinha feito a barba, respirando-lhe o cheiro da carne que subia do peito agitado, sentia todos os nervos do corpo dele dizerem-lhe adeus. O abraço forte, furioso, de Ryuji dizia-lhe com quanto desespero ele queria afirmar que ela era real e estava realmente com ele. Para Ryuji este beijo era a morte, a morte por amor com que sempre sonhara. A macieza do lábios dela, a sua boca tão carmesim, ele podia vê-la no escuro, com os olhos fechados, tão infinitamente húmida, um mar tépido de coral, a língua que se agitava como uma alga marinha... neste êxtase negro havia algo directamente ligado à morte. Estava perfeitamente consciente que a deixaria dentro de um dia, mas no entanto estava pronto a morrer por ela, feliz.
(...) Então a chama alumiou-lhe a face e ele viu o fio das lágrims. Fusako apagou o isqueiro ao ver que ele tinha reparado. Ryuji voltou a abraçá-la e, aliviado pela certeza daquelas lágrimas, chorou também.
O marinheiro que perdeu as graças do mar
Yukio Mishima
(...) Então a chama alumiou-lhe a face e ele viu o fio das lágrims. Fusako apagou o isqueiro ao ver que ele tinha reparado. Ryuji voltou a abraçá-la e, aliviado pela certeza daquelas lágrimas, chorou também.
O marinheiro que perdeu as graças do mar
Yukio Mishima
Janelas Verdes
Hoje; 07,30; Janelas Verdes; Museu Nacional de Arte Antiga.
Quem me conhece sabe que quando necessito estar em Lisboa às 9 horas da manhã saio de casa, no máximo, às 06,30. Chamem-me louco se quiserem (e estarão na mouche). Uma coisa é certa: nos engarrafamentos matinais da via rápida da Costa de Caparica é que ninguém me apanha. Já não tenho saúde mental para tamanha odisseia.
Mas ele há males...
Cheguei às 07,30 onde só tinha que chegar às 09,30.
Decidi sentar-me a ler no Jardim 9 de Abril,também conhecido por Albertas ou Jardim da Rocha do Conde de Óbidos (situa-se na antiga Cerca do Convento das Albertas - Freiras Carmelitas - de onde advém o primeiro nome, estando assente sobre a Rocha do Conde de Óbidos, de onde deriva a segunda designação).
Escolhi um dos três bancos de primeira linha no miradouro que integra o jardim. O que me impressionou, mais do que a soberba vista que se estende até à margem sul, foi o festival de sons que, do local, nos é dado fruir: A campainha da passagem pedestre da linha de combóio, pintassilgos, o sopro metálico dos eléctricos da Carris, melros, carros, motas, autocarros, toutinegras, a sirene de um paquete que anuncia o acto de zarpar...
O fervilhar das pessoas na Avª 24 de Julho correndo para os transportes; turistas, num ritmo mais pausado,tentando localizar-se num mapa a que dão voltas e mais voltas...
O pulsar da cidade em toda a sua plenitude.
Lá permaneci embrenhado intermitentemente, ora nisto, ora n'O marinheiro que perdeu as graças do mar, de Yukio Mishima.
Já vou, seguramente, na 4ª ou 5ª leitura desta novela. Mas esta será, por força da beleza que me tem inspirado, seguramente a última. Não a quero lembrar de outro modo!
Já repararam como múltiplas leituras de um mesmo livro são capazes de nos proporcionar estados de alma tão diferentes a cada uma das vezes?
Aproximando-se a hora em que tinha que me apresentar no Museu Nacional de Arte Antiga, desloquei-me para a sua entrada.
No topo do Largo Dr. José de Figueiredo existem dois prédios esguios, a lembrar os edifícios da Isle-de-France, em Paris, ou da Grand Place, em Bruxelas, não fosse a parca arquitectura dos mesmos e os azulejos azuis que forram as suas fachadas.
Num deles, à janela, no terceiro andar, uma senhora idosa envergando nada mais do que o soutien e um chapéu de palha, estendia um rol de cuecas à moda antiga, intervalando a rotina com breves pausas para expor, por instantes, as suas costas ao sol.
No piso térreo a fachada avisa e direcciona: Cerâmica Constância.
Lisboa ao seu melhor estilo, no muito que ainda tem para nos oferecer.
Abençoadas horas que fiquei a dever à cama!
Quem me conhece sabe que quando necessito estar em Lisboa às 9 horas da manhã saio de casa, no máximo, às 06,30. Chamem-me louco se quiserem (e estarão na mouche). Uma coisa é certa: nos engarrafamentos matinais da via rápida da Costa de Caparica é que ninguém me apanha. Já não tenho saúde mental para tamanha odisseia.
Mas ele há males...
Cheguei às 07,30 onde só tinha que chegar às 09,30.
Decidi sentar-me a ler no Jardim 9 de Abril,também conhecido por Albertas ou Jardim da Rocha do Conde de Óbidos (situa-se na antiga Cerca do Convento das Albertas - Freiras Carmelitas - de onde advém o primeiro nome, estando assente sobre a Rocha do Conde de Óbidos, de onde deriva a segunda designação).
Escolhi um dos três bancos de primeira linha no miradouro que integra o jardim. O que me impressionou, mais do que a soberba vista que se estende até à margem sul, foi o festival de sons que, do local, nos é dado fruir: A campainha da passagem pedestre da linha de combóio, pintassilgos, o sopro metálico dos eléctricos da Carris, melros, carros, motas, autocarros, toutinegras, a sirene de um paquete que anuncia o acto de zarpar...
O fervilhar das pessoas na Avª 24 de Julho correndo para os transportes; turistas, num ritmo mais pausado,tentando localizar-se num mapa a que dão voltas e mais voltas...
O pulsar da cidade em toda a sua plenitude.
Lá permaneci embrenhado intermitentemente, ora nisto, ora n'O marinheiro que perdeu as graças do mar, de Yukio Mishima.
Já vou, seguramente, na 4ª ou 5ª leitura desta novela. Mas esta será, por força da beleza que me tem inspirado, seguramente a última. Não a quero lembrar de outro modo!
Já repararam como múltiplas leituras de um mesmo livro são capazes de nos proporcionar estados de alma tão diferentes a cada uma das vezes?
Aproximando-se a hora em que tinha que me apresentar no Museu Nacional de Arte Antiga, desloquei-me para a sua entrada.
No topo do Largo Dr. José de Figueiredo existem dois prédios esguios, a lembrar os edifícios da Isle-de-France, em Paris, ou da Grand Place, em Bruxelas, não fosse a parca arquitectura dos mesmos e os azulejos azuis que forram as suas fachadas.
Num deles, à janela, no terceiro andar, uma senhora idosa envergando nada mais do que o soutien e um chapéu de palha, estendia um rol de cuecas à moda antiga, intervalando a rotina com breves pausas para expor, por instantes, as suas costas ao sol.
No piso térreo a fachada avisa e direcciona: Cerâmica Constância.
Lisboa ao seu melhor estilo, no muito que ainda tem para nos oferecer.
Abençoadas horas que fiquei a dever à cama!
18 maio 2010
O saber não ocupa lugar
Ontem entreguei o trabalho final de mais uma pós-graduação, desta feita em Direito (para fugir à História e à Museologia).
E assim poderei continuar a dizer aos amigos, com toda a propriedade: As coisas que eu sei e que não me servem para nada!
(Brincadeira!...)
Parabéns a mim!
E assim poderei continuar a dizer aos amigos, com toda a propriedade: As coisas que eu sei e que não me servem para nada!
(Brincadeira!...)
Parabéns a mim!
Onde vou?
Vou caminhar na praia.
Para onde vou?
Não sei!
Vou sorver o sol sofregamente, regenerar a minha energia, mergulhar na água salgada, expurgar más-vibrações.
Vou mergulhar uma vez... e outra... e outra. Vou deixar que a espuma branca me envolva, me enrole, me possua. E nadar, sem fim... ao sabor da corrente, sulcando o azul profundo.
Exausto, náufrago desta vida de derivas muitas, irei espreguiçar-me na areia húmida, encher as mãos com milhões de grãos dourados e deixá-los escorrer entre os dedos, lembrando o carácter éfemero da nossa existência e remendando, ainda que por um breve instante, o erro tantas vezes repetido de não gozar cada momento como sendo único, irrepetível.
Por vezes, poucas, muito poucas, dou por mim a apreciar quão maravilhosa é a vida. Se levar comigo estes fotogramas, estes momentos cristalizados, já não terei perdido tudo e a vida terá feito, a custo, algum sentido.
Para onde vou?
Não sei!
Vou sorver o sol sofregamente, regenerar a minha energia, mergulhar na água salgada, expurgar más-vibrações.
Vou mergulhar uma vez... e outra... e outra. Vou deixar que a espuma branca me envolva, me enrole, me possua. E nadar, sem fim... ao sabor da corrente, sulcando o azul profundo.
Exausto, náufrago desta vida de derivas muitas, irei espreguiçar-me na areia húmida, encher as mãos com milhões de grãos dourados e deixá-los escorrer entre os dedos, lembrando o carácter éfemero da nossa existência e remendando, ainda que por um breve instante, o erro tantas vezes repetido de não gozar cada momento como sendo único, irrepetível.
Por vezes, poucas, muito poucas, dou por mim a apreciar quão maravilhosa é a vida. Se levar comigo estes fotogramas, estes momentos cristalizados, já não terei perdido tudo e a vida terá feito, a custo, algum sentido.
14 maio 2010
09 maio 2010
Tal como o ar que respiro...
Há já algum tempo que tenho saudades tuas
Mais exactamente desde o dia em que seguimos rumos diferentes
Lembro o que não devia lembrar
Lembro quando não devia sequer lembrar
A vida segue caminhos sinuosos
A dúvida persiste
As interrogações perseguem-me e acumulam-se
Tenazes, ácidas, corroem-me a alma e a esperança.
A nossa história acabou no dia em que começou
Vil o destino que nos condena apenas depois de conhecer a felicidade
Quero ser lagarta, casulo, borboleta
Mas não ter que morrer para o ser
Crueldade tamanha
Tristeza sem fim
Uma promessa de eternidade
Arrastando-se sequiosa para um final que não o foi
Amo-te existencialmente
porque assim tem que ser
não porque o queira
mas porque me é vital fazê-lo
Tal como o ar que respiro...
Far away
Nickelback
Mais exactamente desde o dia em que seguimos rumos diferentes
Lembro o que não devia lembrar
Lembro quando não devia sequer lembrar
A vida segue caminhos sinuosos
A dúvida persiste
As interrogações perseguem-me e acumulam-se
Tenazes, ácidas, corroem-me a alma e a esperança.
A nossa história acabou no dia em que começou
Vil o destino que nos condena apenas depois de conhecer a felicidade
Quero ser lagarta, casulo, borboleta
Mas não ter que morrer para o ser
Crueldade tamanha
Tristeza sem fim
Uma promessa de eternidade
Arrastando-se sequiosa para um final que não o foi
Amo-te existencialmente
porque assim tem que ser
não porque o queira
mas porque me é vital fazê-lo
Tal como o ar que respiro...
Far away
Nickelback
08 maio 2010
Crepes e gatas.
Quase meia-noite. Um daqueles serões em que - vá-se lá descobrir os engenhosos mecanismos da gula - damos por nós sobressaltados a julgar-nos capazes de comer este mundo e o outro.
- Queres mais um crepe?
- Sim... mas este com com mel e canela. Estou atulhado com tanto gelado e chocolate derretido.
- Eu vou comer outro com geleia de frutos silvestres.
- Fazes bem!
Estendi o olhar por sobre o tampo de vidro martelado da mesa da copa. Empenhada em manter o prestígio deste seu dote culinário, lá estava ela, ao fogão, porte altivo e empertigado. Uma mão na cintura, outra na asa da frigideira. O pé direito pousava sobre o esquerdo e as suas pernas ensaiavam, por isso mesmo, uma geometria curiosa. De quando em vez inspecionava mais detalhadamente o andamento daquela finíssima camada de massa, resultado de uma porção calculada ao infinésimo para evitar que o resultado passasse de crepe a panqueca em menos de nada.
- Tenho que me deixar disto!... fico gorda.
- Estás um naco, é o que é.
- Pois sim...
- Queres ajuda? Seguras na frigideira e eu seguro-te a ti...
- Não inventes!
Deitada numa das cadeiras, a gata castanha lambeu os bigodes, como se também ela tivesse provado um pedaço de crepe, ou, quiçá, adivinhasse os pensamentos libidinosos que me cruzavam a mente.
- Toma! Come e cala-te. Não me dês ideias...
- Eu? Seria lá capaz de tamanha maldade?
- Disso e de muito mais...
- Espero por ti...
- Olha que arrefece...
- O meu amor por ti? Nunca!
- Parvo! O crepe, homem... o crepe.
- Ah!... nesse caso... vem comer o teu crepe sentada no meu colo.
- Tá doido!
- Dá-me um beijo!
- Ó sarna!!!
Trocaram-se beijos... trocaram-se sabores de canela, mel e frutos silvestres.
Lá fora os cães ladraram. Cá dentro a gata castanha bocejou e enroscou-se para o lado contrário.
- Queres mais um crepe?
- Sim... mas este com com mel e canela. Estou atulhado com tanto gelado e chocolate derretido.
- Eu vou comer outro com geleia de frutos silvestres.
- Fazes bem!
Estendi o olhar por sobre o tampo de vidro martelado da mesa da copa. Empenhada em manter o prestígio deste seu dote culinário, lá estava ela, ao fogão, porte altivo e empertigado. Uma mão na cintura, outra na asa da frigideira. O pé direito pousava sobre o esquerdo e as suas pernas ensaiavam, por isso mesmo, uma geometria curiosa. De quando em vez inspecionava mais detalhadamente o andamento daquela finíssima camada de massa, resultado de uma porção calculada ao infinésimo para evitar que o resultado passasse de crepe a panqueca em menos de nada.
- Tenho que me deixar disto!... fico gorda.
- Estás um naco, é o que é.
- Pois sim...
- Queres ajuda? Seguras na frigideira e eu seguro-te a ti...
- Não inventes!
Deitada numa das cadeiras, a gata castanha lambeu os bigodes, como se também ela tivesse provado um pedaço de crepe, ou, quiçá, adivinhasse os pensamentos libidinosos que me cruzavam a mente.
- Toma! Come e cala-te. Não me dês ideias...
- Eu? Seria lá capaz de tamanha maldade?
- Disso e de muito mais...
- Espero por ti...
- Olha que arrefece...
- O meu amor por ti? Nunca!
- Parvo! O crepe, homem... o crepe.
- Ah!... nesse caso... vem comer o teu crepe sentada no meu colo.
- Tá doido!
- Dá-me um beijo!
- Ó sarna!!!
Trocaram-se beijos... trocaram-se sabores de canela, mel e frutos silvestres.
Lá fora os cães ladraram. Cá dentro a gata castanha bocejou e enroscou-se para o lado contrário.
Pedir não custa
Foto@EPA/Ettore Ferrari
Santo Padre, concedei-me duas graças:
1ª A de me conseguir reerguer desta vénia. Acho que o cóccix se me cristalizou algures entre a próstata e a cabeça do fémur esquerdo. Como se não bastasse fiquei com um testículo preso sob o calcanhar direito e não sei se me baixe se me levante;
2ª A de ter fôlego para realizar mais cento e vinte e quatro longas-metragens.
Já agora, deixe que lhe diga que Vª Eminência ostenta um lindíssimo par de sapatos.
07 maio 2010
Disseram-me hoje...
Disseram-me hoje:
- O vizinho deve ser fresco... deve ser sempre a aviar...
Já não é a primeira vez que ouço coisa parecida.
Lamento ter que dizer (ou, neste caso, escrever) que a realidade é bem menos interessante. Mas aplaudo a imaginação de quem profere tais afirmações.
Umas vezes dizem-no como se eu fosse capaz de grandes proezas quixotescas. Outras, fazem-no de semblante carregado e ar desaprovador.
Confesso que nunca prestei grande atenção ao assunto. Eu não ando cá para constituir exemplo. Ando cá, apenas e só, para ser fiel a mim próprio.
Por vezes - muitas - sigo o caminho certo. Outras há em que... não o consigo evitar.
Estarei perdido?
Diz-se que navio que navega sem destino navega sem rumo. Mas o que posso eu fazer? As minhas grandes expectativas de vida foram já alcançadas. Tenho dois filhos maravilhosos e já experimentei o que é sentir um grande amor.
Ando órfão de objectivos.
Neste momento a escolha mais difícil é o que comer ao almoço.E como diria o magnânime Denny Crane: Há uma coisa de que às vezes nos esquecemos. Por muito difícil que seja o nosso dia ou as nossas escolhas, por muito complexas que sejam as decisões éticas, podemos sempre escolher o que comer ao almoço.
- O vizinho deve ser fresco... deve ser sempre a aviar...
Já não é a primeira vez que ouço coisa parecida.
Lamento ter que dizer (ou, neste caso, escrever) que a realidade é bem menos interessante. Mas aplaudo a imaginação de quem profere tais afirmações.
Umas vezes dizem-no como se eu fosse capaz de grandes proezas quixotescas. Outras, fazem-no de semblante carregado e ar desaprovador.
Confesso que nunca prestei grande atenção ao assunto. Eu não ando cá para constituir exemplo. Ando cá, apenas e só, para ser fiel a mim próprio.
Por vezes - muitas - sigo o caminho certo. Outras há em que... não o consigo evitar.
Estarei perdido?
Diz-se que navio que navega sem destino navega sem rumo. Mas o que posso eu fazer? As minhas grandes expectativas de vida foram já alcançadas. Tenho dois filhos maravilhosos e já experimentei o que é sentir um grande amor.
Ando órfão de objectivos.
Neste momento a escolha mais difícil é o que comer ao almoço.E como diria o magnânime Denny Crane: Há uma coisa de que às vezes nos esquecemos. Por muito difícil que seja o nosso dia ou as nossas escolhas, por muito complexas que sejam as decisões éticas, podemos sempre escolher o que comer ao almoço.
Valha-nos Nossa Senhora!
Vejam bem a peça que a Atlantis decidiu criar para comemorar a vinda do Papa ao nosso país.
A Atlantis diz que esta peça de cristal é uma representação da Nossa Senhora de Fátima.
Tem tudo para ser um Susexo. Ou quase tudo... faltam as pilhas.
Enviado por uma leitora da Ala.
A Atlantis diz que esta peça de cristal é uma representação da Nossa Senhora de Fátima.
Tem tudo para ser um Susexo. Ou quase tudo... faltam as pilhas.
Enviado por uma leitora da Ala.
06 maio 2010
05 maio 2010
Estes animais...
Um elefante vê uma cobra pela primeira vez.
Muito intrigado pergunta:
- Como é que fazes para te deslocar? Não tens patas!
- É muito simples - responde a cobra - rastejo, o que me permite avançar.
- Ah... E como é que fazes para te reproduzires? Não tens tomates!
- É muito simples - responde a cobra já irritada - não preciso de tomates, ponho ovos.
- Ah... E como é que fazes para comer? Não tens mãos nem tromba para levar a comida à boca!
- Não preciso! Abro a boca assim, muito grande, e com esta enorme garganta engulo a minha presa directamente.
- Ah... Ok! Ok! Mas então, resumindo.... rastejas, não tens tomates, só tens é garganta... És Chefe de quem?????!!!!!!!!
Muito intrigado pergunta:
- Como é que fazes para te deslocar? Não tens patas!
- É muito simples - responde a cobra - rastejo, o que me permite avançar.
- Ah... E como é que fazes para te reproduzires? Não tens tomates!
- É muito simples - responde a cobra já irritada - não preciso de tomates, ponho ovos.
- Ah... E como é que fazes para comer? Não tens mãos nem tromba para levar a comida à boca!
- Não preciso! Abro a boca assim, muito grande, e com esta enorme garganta engulo a minha presa directamente.
- Ah... Ok! Ok! Mas então, resumindo.... rastejas, não tens tomates, só tens é garganta... És Chefe de quem?????!!!!!!!!
03 maio 2010
30 abril 2010
28 abril 2010
27 abril 2010
Questão religiosa ou horológica?
Homem: Deus?
Deus: Sim?
Homem: Eu posso fazer-lhe uma pergunta?
Deus: Claro!
Homem: O que é um milhão de anos para si?
Deus: Um segundo.
Homem: E um milhão de dólares?
Deus: Um centavo.
Homem: Deus, será possivel dar-me um centavo?
Deus: Espere só um segundo!
Deus: Sim?
Homem: Eu posso fazer-lhe uma pergunta?
Deus: Claro!
Homem: O que é um milhão de anos para si?
Deus: Um segundo.
Homem: E um milhão de dólares?
Deus: Um centavo.
Homem: Deus, será possivel dar-me um centavo?
Deus: Espere só um segundo!
Volta, Salazar. Estás perdoado!
Não sei quem escreveu isto mas a História é o que é.
Corria o ano de 1960 quando foi publicada no "Diário do Governo" de 6 de Junho a Lei 2105, com a assinatura de Américo Tomaz, Presidente da República, e do Presidente do Conselho de Ministros, Oliveira Salazar. Conforme nos descreve Pedro Jorge de Castro no seu livro "Salazar e os milionários", publicado pela Quetzal em 2009, essa lei destinou-se a disciplinar e moralizar as remunerações recebidas pelos gestores do Estado, fosse em que tipo de estabelecimentos fosse. Eram abrangidos os organismos estatais, as empresas concessionárias de serviços públicos onde o Estado tivesse participação accionista, ou ainda aquelas que usufruíssem de financiamentos públicos ou "que explorassem actividades em regime de exclusivo". Não escapava nada onde houvesse investimento do dinheiro dos contribuintes. E que dizia, em resumo, a Lei 2105? Dizia que ninguém que ocupasse esses lugares de responsabilidade pública podia ganhar mais do que um Ministro. Claro que muitos empresários andaram logo a espiolhar as falhas e os buraquinhos por onde a 2105 pudesse ser torneada, o que terão de certo modo conseguido devido à redacção do diploma, que permitia aos administradores, segundo transcreve o autor do livro, "receber ainda importâncias até ao limite estabelecido, se aos empregados e trabalhadores da empresa for atribuída participação nos lucros". A publicação desta lei altamente moralizadora ocorreu no Estado Novo de Salazar, vai dentro de 2 meses fazer 50 anos. Catorze anos depois desta lei "fascista", em 13 de Setembro de 1974 (e seguindo sempre o que nos explica o livro de Pedro Castro), o Governo de Vasco Gonçalves, recém-saído do 25 de Abril, pegou na ambiguidade da Lei 2105 e, através do Decreto Lei 446/74, limitou os vencimentos dos gestores públicos e semi-públicos ao salário máximo de 1,5 vezes o vencimento de um Secretário de Estado. Vendo bem, Vasco Gonçalves, Silva Lopes e Rui Vilar, quando assinaram o 446/74, passaram simplesmente os vencimentos dos gestores do Estado do dobro do que ganhava um Ministro para uma vez e meia do que ganhava um Secretário de Estado. O Decreto- Lei justificava a correcção pelo facto da redacção pouco precisa da 2105 permitir "interpretações abusivas" permitindo "elevados vencimentos e não menos excessivas pensões de reforma". Ao lermos esta legislação hoje, dá a impressão que se mudou, não de país, mas de planeta, porque isto era no tempo do "fascismo" (Lei 2105) ou do "comunismo" (Dec. Lei 446/74). Agora, é tudo muito melhor, sobretudo para os reis da fartazana que são os gestores do Estado dos nossos dias. Não admira, porque mudando-se os tempos, mudam-se as vontades, e onde o sector do Estado pesava 17% do PIB no auge da guerra colonial, com todas as suas brutais despesas, pesa agora 50%. E, como todos sabemos, é preciso gente muito competente e soberanamente bem paga para gerir os nossos dinheirinhos. Tão bem paga é essa gente que o homem que preside aos destinos da TAP, Fernando Pinto, que é o campeão dos salários de empresas públicas em Portugal (se fosse no Brasil, de onde veio, o problema não era nosso) ganha a monstruosidade de 420000 euros por mês, um "pouco" mais que Henrique Granadeiro, o presidente da PT, o qual aufere a módica quantia de 365000 mensais. Aliás, estes dois são apenas o topo de uma imensa corte de gente que come e dorme à sombra do orçamento e do sacrifício dos contribuintes, como se pode ver pela lista divulgada recentemente por um jornal semanário, onde vêm nomes sonantes da nossa praça, dignos representantes do despautério e da pouca vergonha a que chegou a vida pública portuguesa. Assim - e seguindo sempre a linha do que foi publicado - conhecem-se 14 gestores públicos que ganham mais de 100000 euros por mês, dos quais 10 vencem mais de 200000. O ex-governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, o mesmo que estima à centésima o valor do défice português, embora nunca tenha acertado no seu valor real, ganhava 250000 euros/mês, antes de ir para o exílio dourado de Vice-Presidente do Banco Central Europeu. Não averiguei quanto irá vencer pela Europa, mas quase aposto que não será tanto como ganhava aqui na santa terra lusitana. Entretanto, para poupar uns 400 milhões nas deficitárias contas do Estado, o governo não hesita em cortar benefícios fiscais a pessoas que ganham por mês um centésimo, ou mesmo 200 e 300 vezes menos que os homens (porque, curiosamente, são todos homens...) da lista dourada que o "Sol" deu à luz há pouco tempo. Curioso é também comparar este valores salariais com os que vemos pagar a personalidades mundiais como o Presidente e o Vice-Presidente dos EUA, os Presidentes da França, da Rússia, e...de Portugal. Acabemos de vez com este desbragamento, este verdadeiro insulto à dignidade de quem trabalha para conseguir atingir a meta de pagar as contas no fim do mês. Não é preciso muito, nem sequer é preciso ir tão longe como o DL 446 de Vasco Gonçalves, Silva Lopes e Rui Vilar: basta ressuscitar a velhinha, mas pelos vistos revolucionária Lei 2105, assinada há 50 anos por Oliveira Salazar. Que tristeza!
Corria o ano de 1960 quando foi publicada no "Diário do Governo" de 6 de Junho a Lei 2105, com a assinatura de Américo Tomaz, Presidente da República, e do Presidente do Conselho de Ministros, Oliveira Salazar. Conforme nos descreve Pedro Jorge de Castro no seu livro "Salazar e os milionários", publicado pela Quetzal em 2009, essa lei destinou-se a disciplinar e moralizar as remunerações recebidas pelos gestores do Estado, fosse em que tipo de estabelecimentos fosse. Eram abrangidos os organismos estatais, as empresas concessionárias de serviços públicos onde o Estado tivesse participação accionista, ou ainda aquelas que usufruíssem de financiamentos públicos ou "que explorassem actividades em regime de exclusivo". Não escapava nada onde houvesse investimento do dinheiro dos contribuintes. E que dizia, em resumo, a Lei 2105? Dizia que ninguém que ocupasse esses lugares de responsabilidade pública podia ganhar mais do que um Ministro. Claro que muitos empresários andaram logo a espiolhar as falhas e os buraquinhos por onde a 2105 pudesse ser torneada, o que terão de certo modo conseguido devido à redacção do diploma, que permitia aos administradores, segundo transcreve o autor do livro, "receber ainda importâncias até ao limite estabelecido, se aos empregados e trabalhadores da empresa for atribuída participação nos lucros". A publicação desta lei altamente moralizadora ocorreu no Estado Novo de Salazar, vai dentro de 2 meses fazer 50 anos. Catorze anos depois desta lei "fascista", em 13 de Setembro de 1974 (e seguindo sempre o que nos explica o livro de Pedro Castro), o Governo de Vasco Gonçalves, recém-saído do 25 de Abril, pegou na ambiguidade da Lei 2105 e, através do Decreto Lei 446/74, limitou os vencimentos dos gestores públicos e semi-públicos ao salário máximo de 1,5 vezes o vencimento de um Secretário de Estado. Vendo bem, Vasco Gonçalves, Silva Lopes e Rui Vilar, quando assinaram o 446/74, passaram simplesmente os vencimentos dos gestores do Estado do dobro do que ganhava um Ministro para uma vez e meia do que ganhava um Secretário de Estado. O Decreto- Lei justificava a correcção pelo facto da redacção pouco precisa da 2105 permitir "interpretações abusivas" permitindo "elevados vencimentos e não menos excessivas pensões de reforma". Ao lermos esta legislação hoje, dá a impressão que se mudou, não de país, mas de planeta, porque isto era no tempo do "fascismo" (Lei 2105) ou do "comunismo" (Dec. Lei 446/74). Agora, é tudo muito melhor, sobretudo para os reis da fartazana que são os gestores do Estado dos nossos dias. Não admira, porque mudando-se os tempos, mudam-se as vontades, e onde o sector do Estado pesava 17% do PIB no auge da guerra colonial, com todas as suas brutais despesas, pesa agora 50%. E, como todos sabemos, é preciso gente muito competente e soberanamente bem paga para gerir os nossos dinheirinhos. Tão bem paga é essa gente que o homem que preside aos destinos da TAP, Fernando Pinto, que é o campeão dos salários de empresas públicas em Portugal (se fosse no Brasil, de onde veio, o problema não era nosso) ganha a monstruosidade de 420000 euros por mês, um "pouco" mais que Henrique Granadeiro, o presidente da PT, o qual aufere a módica quantia de 365000 mensais. Aliás, estes dois são apenas o topo de uma imensa corte de gente que come e dorme à sombra do orçamento e do sacrifício dos contribuintes, como se pode ver pela lista divulgada recentemente por um jornal semanário, onde vêm nomes sonantes da nossa praça, dignos representantes do despautério e da pouca vergonha a que chegou a vida pública portuguesa. Assim - e seguindo sempre a linha do que foi publicado - conhecem-se 14 gestores públicos que ganham mais de 100000 euros por mês, dos quais 10 vencem mais de 200000. O ex-governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, o mesmo que estima à centésima o valor do défice português, embora nunca tenha acertado no seu valor real, ganhava 250000 euros/mês, antes de ir para o exílio dourado de Vice-Presidente do Banco Central Europeu. Não averiguei quanto irá vencer pela Europa, mas quase aposto que não será tanto como ganhava aqui na santa terra lusitana. Entretanto, para poupar uns 400 milhões nas deficitárias contas do Estado, o governo não hesita em cortar benefícios fiscais a pessoas que ganham por mês um centésimo, ou mesmo 200 e 300 vezes menos que os homens (porque, curiosamente, são todos homens...) da lista dourada que o "Sol" deu à luz há pouco tempo. Curioso é também comparar este valores salariais com os que vemos pagar a personalidades mundiais como o Presidente e o Vice-Presidente dos EUA, os Presidentes da França, da Rússia, e...de Portugal. Acabemos de vez com este desbragamento, este verdadeiro insulto à dignidade de quem trabalha para conseguir atingir a meta de pagar as contas no fim do mês. Não é preciso muito, nem sequer é preciso ir tão longe como o DL 446 de Vasco Gonçalves, Silva Lopes e Rui Vilar: basta ressuscitar a velhinha, mas pelos vistos revolucionária Lei 2105, assinada há 50 anos por Oliveira Salazar. Que tristeza!
26 abril 2010
Missão (quase) cumprida!
Sábado à noite lá fomos fazer a nossa caminhada, tal como devida e antecipadamente comunicado (leram bem, seus/suas grandes baldas???).
Começámos, como manda a tradição, por nos perdermos no asfalto. Sim... porque no mato a malta nunca se perde!!!
Chegados à Capela das Necessidades foi feito um compasso-de-espera até tirar o sacristão da cama. Não falha! O homem pressente gente e sai sempre disparado à procura da Elvira, uma musa, não se sabe se Clio, se Erato (afinal a senhora é de História mas trabalha com livros), que, em idos de outras passeatas, lhe bateu à porta pedindo autorização para lavar a cara no tanque da roupa.
Lá partimos contrariados pelo facto de não haver manteiga da Quinta do Alcube. A semana passada as ovelhas fizeram saber que nem mesmo que a ordenha fosse feita pelo ministro das Finanças se lhes conseguiria espremer uma gota de leite a mais. Mal sabiamos nós que os padeiros do moinho em Palmela tinham ido todos para o fogo-de-artifício e que nem a uma abençoada côdea de pão teriamos direito.
Por falar nisso: quantos de vós podem afirmar ter já assistido em simultaneo a fogo-de-artifício em Setúbal, Lisboa, Almada, Seixal, etc., etc.? Hein?
Bem feita!
Começámos, como manda a tradição, por nos perdermos no asfalto. Sim... porque no mato a malta nunca se perde!!!
Chegados à Capela das Necessidades foi feito um compasso-de-espera até tirar o sacristão da cama. Não falha! O homem pressente gente e sai sempre disparado à procura da Elvira, uma musa, não se sabe se Clio, se Erato (afinal a senhora é de História mas trabalha com livros), que, em idos de outras passeatas, lhe bateu à porta pedindo autorização para lavar a cara no tanque da roupa.
Lá partimos contrariados pelo facto de não haver manteiga da Quinta do Alcube. A semana passada as ovelhas fizeram saber que nem mesmo que a ordenha fosse feita pelo ministro das Finanças se lhes conseguiria espremer uma gota de leite a mais. Mal sabiamos nós que os padeiros do moinho em Palmela tinham ido todos para o fogo-de-artifício e que nem a uma abençoada côdea de pão teriamos direito.
Por falar nisso: quantos de vós podem afirmar ter já assistido em simultaneo a fogo-de-artifício em Setúbal, Lisboa, Almada, Seixal, etc., etc.? Hein?
Bem feita!
24 abril 2010
23 abril 2010
22 abril 2010
Milagres... precisam-se!
Mas que chachada!
No dia 11 de Maio todos os monumentos e sítios dependentes do IGESPAR terão acesso gratuito por ocasião da visita do Papa Bento XVI a Portugal.
Os palácios nacionais, museus e sítios tutelados pelo Ministério da Cultura terão também acesso gratuito.
O despacho de S. Exa. o Secretário de Estado da Cultura, Elísio Summavielle, justifica tal decisão com a importância política, cultural e religiosa da visita do Papa Bento XVI e, ainda, a perspectiva de a ocasião poder propiciar à população nacional e aos visitantes estrangeiros tempos de maior disponibilidade para o lazer espiritual e enriquecimento cultural (...). (Vd. Despacho aqui)
Esta abébia terá que ser conciliada com a tolerância de ponto dada aos funcionários públicos em Lisboa, para a tarde de dia 11 de Maio. (Dia 13 há tolerância de ponto a nível nacional e no dia 14 de manhã, apenas para os funcionários públicos do Porto).
Posto isto, apetece-me tecer os seguintes comentários:
- Os funcionários públicos que trabalham nos monumentos, sítios, palácios nacionais e museus vão ter o previlégio de, uma vez mais, serem entalados (para não utilizar o vernáculo) em relação aos seus congéneres;
- O Papa é um sujeito pouco solidário. Sim... é verdade. Se fosse um gajo pachola, e considerando que só há tolerância de ponto no sítio por onde sua Eminência passa, faria um périplo tipo Volta a Portugal em Papamóvel, para que todo o miserável funcionário público pudesse usufruir de maior disponibilidade para o lazer espiritual e enriquecimento cultural, indo, por exemplo, à praia, fazer um piquenique com a família, ou até - porque não? -, passar a tarde no tasco lá do bairro a beber mines e a comer torresmos à desgarrada durante uns riscos de bisca dos nove.
- Sendo dia 11 de Maio uma 3ª feira e dia 13, forçosamente, uma 4ª feira, está-se mesmo a ver a malta a meter uns dias e a ir de vacances para os algarves, com ou sem fim-de-semana incluído. Mas tudo bem! haja tempo para o lazer espiritual.
- A única coisa de verdadeiramente positivo que me parece ser possível retirar de tudo isto é a abertura gratuita dos museus, palácios, monumentos, etc e tal. Tenho a certeza que, em sequência do maior afluxo de fiéis às igrejas de de Lisboa durante a tarde de dia 11 de Maio, o Patriarcado de Lisboa não deixará escapar a oportunidade de fazer passar a cestinha das esmolas para reunir uma verba solidária que permita (pelo menos) aos museus adquirir um mísero tonner para a impressora que é comum a todos os serviços, ou, o que já não é novidade, poder adquirir papel higiénico para as suas instalações sanitárias.
Perguntar-me-ão: Mas como é que nada disto ainda veio a lume? E como é possível a Senhora Ministra da Cultura afirmar em recente entrevista que os museus em Portugal nunca viveram uma situação financeira tão desafogada?
À primeira pergunta respondo-vos que tais situações não foram ainda tornadas públicas porque os Directores dos nossos museus são (quase todos) verdadeiros milagreiros. (Podiam aproveitar a presença do Papa para os canonizar!). Ainda se argumenta que os nossos museus precisam de gestores? Numa discussão mais aprofundada diria que sim. Mas olhem que os actuais titulares, muitos deles sem qualquer competência técnica nessa área, não são nada maus...
À segunda pergunta... não sei responder. A menos que a Senhora Ministra viva no 5º anel de Saturno e venha à Terra só para assinar o Despacho.
Milagres... precisam-se!
Pode ser que com a vinda do Papa...
No dia 11 de Maio todos os monumentos e sítios dependentes do IGESPAR terão acesso gratuito por ocasião da visita do Papa Bento XVI a Portugal.
Os palácios nacionais, museus e sítios tutelados pelo Ministério da Cultura terão também acesso gratuito.
O despacho de S. Exa. o Secretário de Estado da Cultura, Elísio Summavielle, justifica tal decisão com a importância política, cultural e religiosa da visita do Papa Bento XVI e, ainda, a perspectiva de a ocasião poder propiciar à população nacional e aos visitantes estrangeiros tempos de maior disponibilidade para o lazer espiritual e enriquecimento cultural (...). (Vd. Despacho aqui)
Esta abébia terá que ser conciliada com a tolerância de ponto dada aos funcionários públicos em Lisboa, para a tarde de dia 11 de Maio. (Dia 13 há tolerância de ponto a nível nacional e no dia 14 de manhã, apenas para os funcionários públicos do Porto).
Posto isto, apetece-me tecer os seguintes comentários:
- Os funcionários públicos que trabalham nos monumentos, sítios, palácios nacionais e museus vão ter o previlégio de, uma vez mais, serem entalados (para não utilizar o vernáculo) em relação aos seus congéneres;
- O Papa é um sujeito pouco solidário. Sim... é verdade. Se fosse um gajo pachola, e considerando que só há tolerância de ponto no sítio por onde sua Eminência passa, faria um périplo tipo Volta a Portugal em Papamóvel, para que todo o miserável funcionário público pudesse usufruir de maior disponibilidade para o lazer espiritual e enriquecimento cultural, indo, por exemplo, à praia, fazer um piquenique com a família, ou até - porque não? -, passar a tarde no tasco lá do bairro a beber mines e a comer torresmos à desgarrada durante uns riscos de bisca dos nove.
- Sendo dia 11 de Maio uma 3ª feira e dia 13, forçosamente, uma 4ª feira, está-se mesmo a ver a malta a meter uns dias e a ir de vacances para os algarves, com ou sem fim-de-semana incluído. Mas tudo bem! haja tempo para o lazer espiritual.
- A única coisa de verdadeiramente positivo que me parece ser possível retirar de tudo isto é a abertura gratuita dos museus, palácios, monumentos, etc e tal. Tenho a certeza que, em sequência do maior afluxo de fiéis às igrejas de de Lisboa durante a tarde de dia 11 de Maio, o Patriarcado de Lisboa não deixará escapar a oportunidade de fazer passar a cestinha das esmolas para reunir uma verba solidária que permita (pelo menos) aos museus adquirir um mísero tonner para a impressora que é comum a todos os serviços, ou, o que já não é novidade, poder adquirir papel higiénico para as suas instalações sanitárias.
Perguntar-me-ão: Mas como é que nada disto ainda veio a lume? E como é possível a Senhora Ministra da Cultura afirmar em recente entrevista que os museus em Portugal nunca viveram uma situação financeira tão desafogada?
À primeira pergunta respondo-vos que tais situações não foram ainda tornadas públicas porque os Directores dos nossos museus são (quase todos) verdadeiros milagreiros. (Podiam aproveitar a presença do Papa para os canonizar!). Ainda se argumenta que os nossos museus precisam de gestores? Numa discussão mais aprofundada diria que sim. Mas olhem que os actuais titulares, muitos deles sem qualquer competência técnica nessa área, não são nada maus...
À segunda pergunta... não sei responder. A menos que a Senhora Ministra viva no 5º anel de Saturno e venha à Terra só para assinar o Despacho.
Milagres... precisam-se!
Pode ser que com a vinda do Papa...
O Papa Bento XVI quando participava nas vindimas.
Douro - 2009
21 abril 2010
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