Há cerca de um mês (re)descobri a minha velhinha Nikon analógica encostada a um canto. Vasculhei o estojo e dei com dois rolos de fotografia fora de prazo. Um cor e um pb.
A máquina estava sem pilhas...
A tarde estava sorridente e decidi fazer mais uma das minhas caminhadas no baixa-mar.
Fotografei, mandei revelar as películas e passar para DVD. Nunca mais me lembrei de as ir levantar... até hoje.
Cá vão algumas.
08 novembro 2010
É o fim do mundo
Acabo de ouvir (em ante-estreia radiofónica) o Carlos do Carmo a cantar You make me feel so young.
Por amor da santa. Se eu chegar a velho e cair em tamanha falta de bom senso, chamem o INEM, metam-me num espartilho de varetas e internem-me no Júlio de Matos.
Ó homem: deixe-se estar sossegado a cantar fado pois o seu estilo, goste-se ou não (eu gosto), é inconfundível.
Fado da saudade
Carlos do Carmo
Por amor da santa. Se eu chegar a velho e cair em tamanha falta de bom senso, chamem o INEM, metam-me num espartilho de varetas e internem-me no Júlio de Matos.
Ó homem: deixe-se estar sossegado a cantar fado pois o seu estilo, goste-se ou não (eu gosto), é inconfundível.
Fado da saudade
Carlos do Carmo
07 novembro 2010
Exposição ao Ministro da Agricultura.
Na passada sexta-feira ao final da tarde tive que me deslocar ao Algarve.
Ia com pressa.
Sem combustível para realizar os 600 kms da viagem, parei para abastecer. Introduzi mal a mangueira no bocal do depósito e um jorro de gasóleo ensopou-me a perna esquerda das calças. Diz que isto de introduzir incorrectamente e de molhar as calças é coisa normal quando se vai para velho.
Roguei umas pragas mas lá segui viagem.
Algum tempo depois o cheiro do gasóleo tornou-se insuportável. A solução da janela aberta ajudou a minimizar o pivete mas o frio era igualmente proibitivo. Resolvi voltar a parar noutra estação de serviço e esfregar as calças com água para ver se o problema se resolvia. Sem sucesso.
Entre Alcácer do Sal e Grândola voltei a abrir a janela e a coisa resolveu-se mas não da forma esperada. É que um bafo de cheiro a estrume de vaca invadiu-me o carro de um modo tão triunfal quanto a entrada dos nazis em Paris durante a II Guerra Mundial.
Em desespero, lembrei-me que trazia a mochila da pesca na mala do carro. Dentro dela anda sempre um par de calças impermeáveis.
Nova paragem em Almodôvar para trocar de indumentária. As calças impermeáveis azuis ficaram-me a matar com a camisa de xadrez que levava vestida.
Pelo acima exposto pergunto-lhe, Senhor Ministro:
- Um moçoilo assim a modos como eu, vestido de calças impermeáveis e camisa de xadrez, com as botas a cheirar a gasóleo e o carro a bosta de vaca, é elegível para obtenção de um subsídio de jovem agricultor?
Se for esse o caso, agradecia um contacto por parte dos serviços competentes.
De V. Exa., atentamente.
Ia com pressa.
Sem combustível para realizar os 600 kms da viagem, parei para abastecer. Introduzi mal a mangueira no bocal do depósito e um jorro de gasóleo ensopou-me a perna esquerda das calças. Diz que isto de introduzir incorrectamente e de molhar as calças é coisa normal quando se vai para velho.
Roguei umas pragas mas lá segui viagem.
Algum tempo depois o cheiro do gasóleo tornou-se insuportável. A solução da janela aberta ajudou a minimizar o pivete mas o frio era igualmente proibitivo. Resolvi voltar a parar noutra estação de serviço e esfregar as calças com água para ver se o problema se resolvia. Sem sucesso.
Entre Alcácer do Sal e Grândola voltei a abrir a janela e a coisa resolveu-se mas não da forma esperada. É que um bafo de cheiro a estrume de vaca invadiu-me o carro de um modo tão triunfal quanto a entrada dos nazis em Paris durante a II Guerra Mundial.
Em desespero, lembrei-me que trazia a mochila da pesca na mala do carro. Dentro dela anda sempre um par de calças impermeáveis.
Nova paragem em Almodôvar para trocar de indumentária. As calças impermeáveis azuis ficaram-me a matar com a camisa de xadrez que levava vestida.
Pelo acima exposto pergunto-lhe, Senhor Ministro:
- Um moçoilo assim a modos como eu, vestido de calças impermeáveis e camisa de xadrez, com as botas a cheirar a gasóleo e o carro a bosta de vaca, é elegível para obtenção de um subsídio de jovem agricultor?
Se for esse o caso, agradecia um contacto por parte dos serviços competentes.
De V. Exa., atentamente.
Sonhos amargos - doces realidades.
São múltiplas as realidades que povoam a minha existência. As velhas e as novas. Entre aquelas, as que carregam o deve e o haver do passado. Entre estas, as que habitam os meus sonhos desde que, recentemente, dei em deles me lembrar quando acolho cada um dos múltiplos despertares que me ocupam a noite.
Não sei - não quero saber- se os sonhos têm algum significado.
Sonhei contigo em Paris, sonhei contigo algures por cá. Sonhei que nem em sonhos demos certo.
Acordei exausto para mais um dia sem o sal da vida.
Regrido no tempo, em desespero, procurando um qualquer ponto de recomeço.
Esta semana, durante uma das minhas sessões de Filosofia para (ou com) Crianças, os meninos escolheram falar sobre o que é um amigo.
Durante o nosso diálogo, e perante alguma indisciplina repentina, achei que seria uma boa altura para fazer um ponto de ordem à sessão através de um resumo da linha de raciocínio que vinha resultando de múltiplas contribuições. Um menino havia dito:
- Os amigos são meninos e meninas como nós.
Ao que lhe perguntei:
- E os teus bonecos? São teus amigos?
Respondeu:
-Não! Os amigos têm que ser pessoas.
Voltei à carga:
- E os meninos que têm um cão? Acham que o cão não é amigo?
Responderam todos:
- Siiiiiiiiimmmm!
E eu:
- Então... mas o cão não é uma pessoa!...
Responderam-me:
- Mas o cão é a sério e os bonecos são a brincar.
Perguntei:
- E será que todos os amigos a sério têm sentimentos? Isto é (expliquei) o cão, por exemplo, mostra alegria ou tristeza?
A maioria respondeu:
- Siiiiiiiiim!
Voltei à carga:
- E os bonecos? Não riem nem choram?
Responderam alguns:
- Os que têm pilhas choram e falam. Mas não são a sério.
O meu resumo/pergunta - nesse momento - fazia-se do seguinte modo:
- Em vosso entender, um amigo tem que ser real, independentemente de ser pessoa ou animal. Certo?
Uma menina levantou o braço pedindo para responder. Dei-lhe a palavra.
- Eu acho que os bonecos são a brincar mas também são nossos amigos. E há outros amigos que não são a sério mas também não são a brincar, e que têm sentimentos.
E eu (atrapalhado):
- Achas que sim? Dá lá um exemplo.
E ela (muito expedita):
- Os amigos todos que eu tenho na minha cabeça! Também riem comigo e às vezes choram quando eu ralho com eles.
Julgo ser pertinente acrescentar que estava a trabalhar com crianças do 1º ano (1ª classe).
O meu pai ainda esta semana me havia perguntado se este meu trabalho de voluntariado junto de dez turmas (do pré-escolar ao 4º ano) de uma escola básica iria ser pago. Respondi-lhe negativamente. Estava enganado. Há coisas que não têm preço.
E foi este o meu ponto de recomeço desta noite.
Não estou completamente desprovido de esperança. Aqui e ali há sempre um centelha capaz de nos fazer levantar do chão. E esse "aqui e ali" pode muito bem ser o raciocínio inequívoco de uma criança.
Soul Provider
Grand Tourism
Não sei - não quero saber- se os sonhos têm algum significado.
Sonhei contigo em Paris, sonhei contigo algures por cá. Sonhei que nem em sonhos demos certo.
Acordei exausto para mais um dia sem o sal da vida.
Regrido no tempo, em desespero, procurando um qualquer ponto de recomeço.
Esta semana, durante uma das minhas sessões de Filosofia para (ou com) Crianças, os meninos escolheram falar sobre o que é um amigo.
Durante o nosso diálogo, e perante alguma indisciplina repentina, achei que seria uma boa altura para fazer um ponto de ordem à sessão através de um resumo da linha de raciocínio que vinha resultando de múltiplas contribuições. Um menino havia dito:
- Os amigos são meninos e meninas como nós.
Ao que lhe perguntei:
- E os teus bonecos? São teus amigos?
Respondeu:
-Não! Os amigos têm que ser pessoas.
Voltei à carga:
- E os meninos que têm um cão? Acham que o cão não é amigo?
Responderam todos:
- Siiiiiiiiimmmm!
E eu:
- Então... mas o cão não é uma pessoa!...
Responderam-me:
- Mas o cão é a sério e os bonecos são a brincar.
Perguntei:
- E será que todos os amigos a sério têm sentimentos? Isto é (expliquei) o cão, por exemplo, mostra alegria ou tristeza?
A maioria respondeu:
- Siiiiiiiiim!
Voltei à carga:
- E os bonecos? Não riem nem choram?
Responderam alguns:
- Os que têm pilhas choram e falam. Mas não são a sério.
O meu resumo/pergunta - nesse momento - fazia-se do seguinte modo:
- Em vosso entender, um amigo tem que ser real, independentemente de ser pessoa ou animal. Certo?
Uma menina levantou o braço pedindo para responder. Dei-lhe a palavra.
- Eu acho que os bonecos são a brincar mas também são nossos amigos. E há outros amigos que não são a sério mas também não são a brincar, e que têm sentimentos.
E eu (atrapalhado):
- Achas que sim? Dá lá um exemplo.
E ela (muito expedita):
- Os amigos todos que eu tenho na minha cabeça! Também riem comigo e às vezes choram quando eu ralho com eles.
Julgo ser pertinente acrescentar que estava a trabalhar com crianças do 1º ano (1ª classe).
O meu pai ainda esta semana me havia perguntado se este meu trabalho de voluntariado junto de dez turmas (do pré-escolar ao 4º ano) de uma escola básica iria ser pago. Respondi-lhe negativamente. Estava enganado. Há coisas que não têm preço.
E foi este o meu ponto de recomeço desta noite.
Não estou completamente desprovido de esperança. Aqui e ali há sempre um centelha capaz de nos fazer levantar do chão. E esse "aqui e ali" pode muito bem ser o raciocínio inequívoco de uma criança.
Soul Provider
Grand Tourism
04 novembro 2010
03 novembro 2010
A minha velhice em versão Almodovar
- Amor?
- O que foi? (Rái´s parta o velho!...)
- Trazes-me o saquinho de água quente? Doem-me as mazeuas todas até à espinau medua.
- Levanta o cu da poltrona e vai lá tu buscá-lo!
- Mas... amorzinho... Está a dar o Benfica na teuevisão.
- Já se te acabou o "Corega"?
- Porquê?
- É que tens a dentadura solta e estás outra vez a comer os "éles": "teuevisão"; "mazeuas"; "espinau"; "medua"...
- Vá uá paixão. Já não ganhamos o campeonato há 25 anos...
- Estou a "uimpar" a "uouça"... (riso escarninho)
- Isso... goza-me. Bruxa!!! Quando te vieres cá encostar à noite, mando-te ir dormir com a vassoura.
- Olha... essa p'lo menos ainda tem pau.
- Cabresta!
- Toma lá a porcaria do saco. Mas não te acomodes muito porque quando acabar o jogo tens que ir comigo ao Colombo.
- Ao Cuombo??? A mulher endoidou. E eu uá vou a estas horas pa Uisboa?
- Tenho que ir lá comprar uma mala que vi a semana passada.
- E para que queres a maua? Vais de viagem?
- Pouco barulho que incomodas os vizinhos. Prepara a carteira e não bufes muito senão distraio-me nas garrafas e tempero-te a salada com "Super Pop Limão".
- Não... ai não... queres ver?... ai... ai... isto não está a acontecer. O Benfica a perder com o Estreua da Amadora... Eu morro aqui sentado.
- Essa sorte não tenho eu!...
- E que história é essa de "prepara a carteira"? A maua é p'ra mim? Vai à uata onde escondes as notas graúdas.
-Nem pensar. Sabes muito bem para o que é esse dinheiro!
- Pfffffff! Uma uipoaspiração. Vê mas é se abres a pestana. Para te sugar essa gordura toda tinhas que mandar vir uma grua para te suspender e três aspiradores dos que se usam em prospecções subaquáticas.
- Parabéns! Acabas de assegurar duas semanas sem almoço. Velho tinhoso!
- Pois sim... e eu rauado com isso.
- Eu vou sozinha ao Colombo. Assim como assim, mais vale ser eu a levar o carro porque tu - meu traste imprestável - já nem conduzir sabes.
- Achas?
- Eu não acho. Eu tenho a certeza! Ainda esta manhã, a figura que fizeste ao arrancar com o carro aos solavancos... a vizinhança toda a rir...
- A rir mas era de ti.
- De mim? Como de mim?
- Do gatafunho de baton que fizeste da boca à testa quando eu arranquei com o carro. Quem te manda pintar os uábios com o carro em andamento?
- Não me digas que foi de propósito para eu me esborratar toda?
- Honestamente?
- Sim... responde.
- Bem... para dizer a verdade a ideia era a de ver se te conseguia fazer bater com a testa no pára-brisas. Mas assim também serviu!
- Piolhoso!
- Também te adoro!
- Ranhoso!
- Amo-te!
- Múmia decrépita!
- Vai tu!
- O que foi? (Rái´s parta o velho!...)
- Trazes-me o saquinho de água quente? Doem-me as mazeuas todas até à espinau medua.
- Levanta o cu da poltrona e vai lá tu buscá-lo!
- Mas... amorzinho... Está a dar o Benfica na teuevisão.
- Já se te acabou o "Corega"?
- Porquê?
- É que tens a dentadura solta e estás outra vez a comer os "éles": "teuevisão"; "mazeuas"; "espinau"; "medua"...
- Vá uá paixão. Já não ganhamos o campeonato há 25 anos...
- Estou a "uimpar" a "uouça"... (riso escarninho)
- Isso... goza-me. Bruxa!!! Quando te vieres cá encostar à noite, mando-te ir dormir com a vassoura.
- Olha... essa p'lo menos ainda tem pau.
- Cabresta!
- Toma lá a porcaria do saco. Mas não te acomodes muito porque quando acabar o jogo tens que ir comigo ao Colombo.
- Ao Cuombo??? A mulher endoidou. E eu uá vou a estas horas pa Uisboa?
- Tenho que ir lá comprar uma mala que vi a semana passada.
- E para que queres a maua? Vais de viagem?
- Pouco barulho que incomodas os vizinhos. Prepara a carteira e não bufes muito senão distraio-me nas garrafas e tempero-te a salada com "Super Pop Limão".
- Não... ai não... queres ver?... ai... ai... isto não está a acontecer. O Benfica a perder com o Estreua da Amadora... Eu morro aqui sentado.
- Essa sorte não tenho eu!...
- E que história é essa de "prepara a carteira"? A maua é p'ra mim? Vai à uata onde escondes as notas graúdas.
-Nem pensar. Sabes muito bem para o que é esse dinheiro!
- Pfffffff! Uma uipoaspiração. Vê mas é se abres a pestana. Para te sugar essa gordura toda tinhas que mandar vir uma grua para te suspender e três aspiradores dos que se usam em prospecções subaquáticas.
- Parabéns! Acabas de assegurar duas semanas sem almoço. Velho tinhoso!
- Pois sim... e eu rauado com isso.
- Eu vou sozinha ao Colombo. Assim como assim, mais vale ser eu a levar o carro porque tu - meu traste imprestável - já nem conduzir sabes.
- Achas?
- Eu não acho. Eu tenho a certeza! Ainda esta manhã, a figura que fizeste ao arrancar com o carro aos solavancos... a vizinhança toda a rir...
- A rir mas era de ti.
- De mim? Como de mim?
- Do gatafunho de baton que fizeste da boca à testa quando eu arranquei com o carro. Quem te manda pintar os uábios com o carro em andamento?
- Não me digas que foi de propósito para eu me esborratar toda?
- Honestamente?
- Sim... responde.
- Bem... para dizer a verdade a ideia era a de ver se te conseguia fazer bater com a testa no pára-brisas. Mas assim também serviu!
- Piolhoso!
- Também te adoro!
- Ranhoso!
- Amo-te!
- Múmia decrépita!
- Vai tu!
02 novembro 2010
A culpa não será do photoshop
Ainda a caminhada à Peninha. Eu e o meu grande amigo Jorge.
Lá íamos nós palmilhando tranquilamente os caminhos florestais que nos conduziriam ao destino pretendido, quando se misturou gente de um outro grupo de caminheiros.
Mesmo à nossa frente, vá-se lá perceber por que artes, (a floresta tem destas coisas misteriosas), interpôs-se uma fulana que, apenas para começar, nos colocava imediatamente perante o seguinte dilema: como é que esta personagem se conseguiu meter dentro das calças?
Se as ditas cujas, pretas, de sarja, pudessem comunicar, fá-lo-iam num misto de grito/gemido/carpido capaz de fazer chorar os eucaliptos que nos delimitavam a marcha.
Não fossem as conversas de circunstância dentro do grupo e, tenho a certeza absoluta, ouvir-se-ia o ranger das costuras.
O (des)interessante é que a rapariga quase não tinha peito. O que lhe faltava no primeiro andar sobrava no rés-do-chão.
As nádegas (meu Deus... aqueles colossais nadegueiros) oprimiam de tal forma o tecido que, ao criar um conjunto incontável de pregas, formavam dois verdadeiros blocos de massa folhada.
Um pouco assustado com a possibilidade de alguma daquelas tachas que decoram os bolsos poder, de repente e sem qualquer aviso prévio, sair disparada na nossa direcção (não exagero se vos disser que o impacto entre os olhos de um tal projéctil, à velocidade com que seria expelido, seria motivo para uma morte fulminante), sugeri ao Jorge que mudássemos de posição na comitiva. Respondeu-me "que não!". Na sua opinião tudo aquilo não passava de um simples fenómeno de transferência de massas e que eu era demasiado alarmista, e coiso e tal e tal e coiso...
Lá anuí em continuar, mas sempre a rezar aos meus anjos da guarda.
Pelo menos numa coisa eu e o Jorge estivemos de acordo: era um problema de massa (para mim... folhada).
Chegados à porta do santuário, para meu deleite e olhar invejoso dos restantes presentes, o Jorge fez saltar da sua cartola de primeiros-socorros duas garrafas de Super-Bock que bebericámos com requintes de malvadez.
Enquanto dois elementos do tal outro grupo trocavam impressões sobre um qualquer curso de Photoshop, eis que chega Miss massa folhada e, dirigindo-se a um deles, diz:
- Môr... depois quero que me ponhas linda em todas as fotografias.
Resposta pronta:
- Queres umas mamas maiores e/ou um rabo mais pequeno?
Abrenúncio!!!
Visivelmente incomodada com a apresentação pública que o marido (?) havia feito sobre o deve e o haver da mulher, lançou-lhe um olhar fulminante, carregado de promessas de longa e penosa austeridade sexual.
- Eu disse "bonita". Não me referi a mexer em mais nada porque eu sou booooaaaaa, tá?
O rapaz lá foi encolhendo os ombros, mal dizendo a opção pelo curso básico de Photoshop. Devia, isso sim, ter tirado uma Licenciatura em Artes gráficas ou, melhor ainda, Cirurgia Plástica.
Escondemos as gargalhadas pois ninguém de bom-senso se ri na cara de uma mulher com um bastão de alumínio na mão.
Uma coisa é certa: a pretexto de um atacador mal apertado, na descida fiquei um pouco mais para trás.
Não fosse o capeta tecê-las!...
Lá íamos nós palmilhando tranquilamente os caminhos florestais que nos conduziriam ao destino pretendido, quando se misturou gente de um outro grupo de caminheiros.
Mesmo à nossa frente, vá-se lá perceber por que artes, (a floresta tem destas coisas misteriosas), interpôs-se uma fulana que, apenas para começar, nos colocava imediatamente perante o seguinte dilema: como é que esta personagem se conseguiu meter dentro das calças?
Se as ditas cujas, pretas, de sarja, pudessem comunicar, fá-lo-iam num misto de grito/gemido/carpido capaz de fazer chorar os eucaliptos que nos delimitavam a marcha.
Não fossem as conversas de circunstância dentro do grupo e, tenho a certeza absoluta, ouvir-se-ia o ranger das costuras.
O (des)interessante é que a rapariga quase não tinha peito. O que lhe faltava no primeiro andar sobrava no rés-do-chão.
As nádegas (meu Deus... aqueles colossais nadegueiros) oprimiam de tal forma o tecido que, ao criar um conjunto incontável de pregas, formavam dois verdadeiros blocos de massa folhada.
Um pouco assustado com a possibilidade de alguma daquelas tachas que decoram os bolsos poder, de repente e sem qualquer aviso prévio, sair disparada na nossa direcção (não exagero se vos disser que o impacto entre os olhos de um tal projéctil, à velocidade com que seria expelido, seria motivo para uma morte fulminante), sugeri ao Jorge que mudássemos de posição na comitiva. Respondeu-me "que não!". Na sua opinião tudo aquilo não passava de um simples fenómeno de transferência de massas e que eu era demasiado alarmista, e coiso e tal e tal e coiso...
Lá anuí em continuar, mas sempre a rezar aos meus anjos da guarda.
Pelo menos numa coisa eu e o Jorge estivemos de acordo: era um problema de massa (para mim... folhada).
Chegados à porta do santuário, para meu deleite e olhar invejoso dos restantes presentes, o Jorge fez saltar da sua cartola de primeiros-socorros duas garrafas de Super-Bock que bebericámos com requintes de malvadez.
Enquanto dois elementos do tal outro grupo trocavam impressões sobre um qualquer curso de Photoshop, eis que chega Miss massa folhada e, dirigindo-se a um deles, diz:
- Môr... depois quero que me ponhas linda em todas as fotografias.
Resposta pronta:
- Queres umas mamas maiores e/ou um rabo mais pequeno?
Abrenúncio!!!
Visivelmente incomodada com a apresentação pública que o marido (?) havia feito sobre o deve e o haver da mulher, lançou-lhe um olhar fulminante, carregado de promessas de longa e penosa austeridade sexual.
- Eu disse "bonita". Não me referi a mexer em mais nada porque eu sou booooaaaaa, tá?
O rapaz lá foi encolhendo os ombros, mal dizendo a opção pelo curso básico de Photoshop. Devia, isso sim, ter tirado uma Licenciatura em Artes gráficas ou, melhor ainda, Cirurgia Plástica.
Escondemos as gargalhadas pois ninguém de bom-senso se ri na cara de uma mulher com um bastão de alumínio na mão.
Uma coisa é certa: a pretexto de um atacador mal apertado, na descida fiquei um pouco mais para trás.
Não fosse o capeta tecê-las!...
01 novembro 2010
Uma esquina de passeio.
Uma esquina de passeio como tantas outras...
O lancil corre em cotovelo, carregando as lordoses impostas pelo pisar e repisar constantes de pneus de automóveis mal estacionados.
Um ecoponto saturado, imundo, mantém alguma dignidade graças à lâmpada fundida de um candeeiro de rua que desistiu de iluminar.
A tristeza paira dominadora, saturando o ar, exibindo o seu véu obscuro de forma magestática.
Aqui, um televisor de cinescópio, esventrado, resignado à sua obsolescência e à ingratidão de quem dele disfrutou.
Ali, um novelo indecifrável de camisolas de malha e latas de conserva, numa promiscuidade de fibras e gorduras dificilmente suportáveis.
Acolá, um pacote de cereais acolhe agora uma fralda de criança.
Uma boneca desmembrada jaz de costas na calçada, contemplando as estrelas. A seu lado, mas irremediavelmente apartado, um braço de borracha, a palma da mão virada para o céu, os dedos entreabertos, suplicando o abraço e o colo de meninas de outrora, agora feitas mulheres.
Um reposteiro carmim repousa perigosamente entre o passeio e o asfalto. Exibe com orgulho os berloques que rematam o debruado de um dourado que perdeu o fulgor. Sob a sua cobertura, um rafeiro sem brilho nos olhos prepara-se para a noite, sacundindo sarna e pulgas uma última vez antes de se enroscar sobre um chão molhado, frio, inóspito, tal como a vida para a qual foi parido sem voto na matéria.
As luzes de um carro que passa descobrem duas órbitas brilhantes num vulto que se encontra encostado ao vidrão. Um gato. Ali está... imóvel, impávido. Não se percebe se vencido e conformado, se expectante e determinado.
Uma rajada de vento levanta no ar uma espiral de maus-cheiros, sacos de plástico, papéis com figuras - pedaços de um baralho que esta noite joga as suas últimas cartadas.
Estou confuso!
O vento troca-me as ideias com a mesma facilidade com que baralha as cartas que se contorcem sobre si, enrolando pedaços da noite.
Levanto-me dos degraus de mármore em que me encontrava sentado, aspirando mais uma nuvem de fumo de um cigarro que desejei mas não fumei.
Rezo por alguma paz, peço luz na minha vida...
Afinal de contas só Deus sabe aquilo que nos está reservado... ao virar de mais uma esquina.
O lancil corre em cotovelo, carregando as lordoses impostas pelo pisar e repisar constantes de pneus de automóveis mal estacionados.
Um ecoponto saturado, imundo, mantém alguma dignidade graças à lâmpada fundida de um candeeiro de rua que desistiu de iluminar.
A tristeza paira dominadora, saturando o ar, exibindo o seu véu obscuro de forma magestática.
Aqui, um televisor de cinescópio, esventrado, resignado à sua obsolescência e à ingratidão de quem dele disfrutou.
Ali, um novelo indecifrável de camisolas de malha e latas de conserva, numa promiscuidade de fibras e gorduras dificilmente suportáveis.
Acolá, um pacote de cereais acolhe agora uma fralda de criança.
Uma boneca desmembrada jaz de costas na calçada, contemplando as estrelas. A seu lado, mas irremediavelmente apartado, um braço de borracha, a palma da mão virada para o céu, os dedos entreabertos, suplicando o abraço e o colo de meninas de outrora, agora feitas mulheres.
Um reposteiro carmim repousa perigosamente entre o passeio e o asfalto. Exibe com orgulho os berloques que rematam o debruado de um dourado que perdeu o fulgor. Sob a sua cobertura, um rafeiro sem brilho nos olhos prepara-se para a noite, sacundindo sarna e pulgas uma última vez antes de se enroscar sobre um chão molhado, frio, inóspito, tal como a vida para a qual foi parido sem voto na matéria.
As luzes de um carro que passa descobrem duas órbitas brilhantes num vulto que se encontra encostado ao vidrão. Um gato. Ali está... imóvel, impávido. Não se percebe se vencido e conformado, se expectante e determinado.
Uma rajada de vento levanta no ar uma espiral de maus-cheiros, sacos de plástico, papéis com figuras - pedaços de um baralho que esta noite joga as suas últimas cartadas.
Estou confuso!
O vento troca-me as ideias com a mesma facilidade com que baralha as cartas que se contorcem sobre si, enrolando pedaços da noite.
Levanto-me dos degraus de mármore em que me encontrava sentado, aspirando mais uma nuvem de fumo de um cigarro que desejei mas não fumei.
Rezo por alguma paz, peço luz na minha vida...
Afinal de contas só Deus sabe aquilo que nos está reservado... ao virar de mais uma esquina.
Ironicamente lixo
Por vezes não consigo rever-me noutra imagem que não a de lixo. Não no sentido de lixo limite, sem apelo nem agravo, sem outra esperança possível a não ser a ser a da sua própria impossibilidade. Sinto-me como lixo deitado fora com displicência, de forma precipitada. Lixo resultado de subaproveitamento.
Sou lixo com uma licenciantura, duas pós-graduações e um mestrado. O que importa isso do exercício contínuo do intelecto. O que importa enveredar por múltiplas áreas disciplinares? O que interessa frequentar cursos de Mandarim, palestras de Antropologia e Sociologia? De que valem vinte anos de experiência profissional e ser autor de projectos pioneiros na área da museologia e da museografia? De que me serviu publicar trabalhos?
Tudo ponderado eu sei bem qual é a resposta. Serviu-me para ser quem sou. Para andar na rua de cabeça erguida. Para honrar aqueles a quem devo o "lixo" que sou e a quem, apenas de forma muito pálida, faço justiça.
Os meus pais, os meus avós, os meus tios João e Carlos. Nunca - MAS NUNCA - serei lixo suficiente para fazer parte de semelhante panteão.
Eu sou o que sou e se não estiverem contentes tentem reciclar-me. Experimentem só!...
Trash
Suede
Sou lixo com uma licenciantura, duas pós-graduações e um mestrado. O que importa isso do exercício contínuo do intelecto. O que importa enveredar por múltiplas áreas disciplinares? O que interessa frequentar cursos de Mandarim, palestras de Antropologia e Sociologia? De que valem vinte anos de experiência profissional e ser autor de projectos pioneiros na área da museologia e da museografia? De que me serviu publicar trabalhos?
Tudo ponderado eu sei bem qual é a resposta. Serviu-me para ser quem sou. Para andar na rua de cabeça erguida. Para honrar aqueles a quem devo o "lixo" que sou e a quem, apenas de forma muito pálida, faço justiça.
Os meus pais, os meus avós, os meus tios João e Carlos. Nunca - MAS NUNCA - serei lixo suficiente para fazer parte de semelhante panteão.
Eu sou o que sou e se não estiverem contentes tentem reciclar-me. Experimentem só!...
Trash
Suede
31 outubro 2010
Amor em fundo ferroviário
Estação de comboios - uma qualquer.
Os carros fazem paragens sucessivas para largar ou recolher passageiros.
Estacionei; desliguei; fiquei sentado.
Pára um outro carro de onde sai um jovem casal.
Dá para perceber: ela fica, ele vai.
Um abraço... múltiplos beijos.
Mudo de opinião. Afinal de contas ambos ficam... ambos vão.
Ambos ficam na sua lembrança e no seu coração.
Ambos vão na lembrança e no coração do outro... quiçá, numa réstea de sabor que perdura nos lábios ou num fio de perfume entranhado na recordação de uma tarde passada em entrega total?
Ele consulta o relógio, beija-a uma vez mais e dirige-se para a entrada.
Vacila... olha para trás.
Ela acena um adeus e encena um sorriso que só a custo convive com dois olhos embargados de lágrimas.
É tempo de partir.
A vida é assim mesmo: podemos apear-nos temporariamente mas, em última instância, o comboio avança sem contemplações.
Os carros fazem paragens sucessivas para largar ou recolher passageiros.
Estacionei; desliguei; fiquei sentado.
Pára um outro carro de onde sai um jovem casal.
Dá para perceber: ela fica, ele vai.
Um abraço... múltiplos beijos.
Mudo de opinião. Afinal de contas ambos ficam... ambos vão.
Ambos ficam na sua lembrança e no seu coração.
Ambos vão na lembrança e no coração do outro... quiçá, numa réstea de sabor que perdura nos lábios ou num fio de perfume entranhado na recordação de uma tarde passada em entrega total?
Ele consulta o relógio, beija-a uma vez mais e dirige-se para a entrada.
Vacila... olha para trás.
Ela acena um adeus e encena um sorriso que só a custo convive com dois olhos embargados de lágrimas.
É tempo de partir.
A vida é assim mesmo: podemos apear-nos temporariamente mas, em última instância, o comboio avança sem contemplações.
30 outubro 2010
Sons
Eu sei que estamos quase em Lua Nova, mas como já estou com os copos ninguém desconfia.
Divirtam-se e sejam (MUITO) felizes
Guarda che luna
Luciano Pavarotti e Irene Grandi
Divirtam-se e sejam (MUITO) felizes
Guarda che luna
Luciano Pavarotti e Irene Grandi
29 outubro 2010
Vade retro galináceos e animais de carapaça
Hoje tive o azar de precisar de um almoço rápido e de pensar que meio frango da Guia com uma salada de tomate resolveriam o assunto.
Entrei no "Frango da Guia" do Almada Fórum e pedi meio galináceo, estimando que a coisa seria expedita.
A songa monga que me veio buscar à entrada, depois de algum tempo de espera perante um restaurante vazio (eram 12,15 horas), fez questão de exibir a maior das acrimónias logo desde o início. Quis sentar-me à entrada... recusei! Quis sentar-me no corredor, sujeito à corrente de ar que vinha da porta... recusei. Pedi-lhe para me sentar junto à parede. Respondeu-me com enfado: "escolha!", ao que retorqui: "O quê? a mesa ou a parede?". Continuou soturna como uma noite de Inverno. Pensei: "estou consumido!" (com um "F" grande)...
Acabou por me sentar sob um LCD suspenso da parede. Não percebi se a ideia era de que aquilo despencasse da parede e me amarrotasse a crista ou se a intenção era muito mais sórdida. É que, acto contínuo, a moçoila ligou a geringonça e eu tive que aturar o cacarejar de duas aves canoras escorraçadas das respectivas capoeiras, perto das quais o bardo Chatotorix (da aldeia de Astérix) seria um verdadeiro Pavarotti. Tentei pensar positivo, que seria uma forma de acelerar o palato de modo a poder fugir dali o mais rapidamente possível.
A moçoila, entretanto, conseguiu deixar-me sem perceber se olhava para mim se através de mim. Parecia-me estar a ser escrutinado pela capataz do aviário...
Nisto e naquilo passaram-se quarenta minutos e nada de meio-frango. Chamei a atenção para o facto, alertando que tinha que ir para o cinema e a sessão estava prestes a começar. Pois sim... tivesse o meio-frango duas patas (por qualquer alteração transgénica) e mover-se-ia mais rapidamente do que todos os empregados juntos. Viesse ele ainda com a cabeça e, apesar de morto, depenado e assado, teria certamente melhor aspecto do que aqueles aprendizes de empregados de mesa.
Mas lá veio o bicho, mais esfalfado do que eu...
Comi à pressa; chamei a estafermóide e pedi-lhe um café e a conta, ficando a pensar se ela seria capaz de tomar conta de dois pedidos em simultâneo...
A despesa perfez € 9,95. Dei-lhe uma nota e esperei pelo troco. Quando regressou ficou ali naquele vai que não vai, fica que não fica, a ver se sobrava alguma coisa. Disse-lhe: "Não encontro trocos nenhuns. Devem ter ficado perdidos junto com a sua simpatia. Fica para uma próxima oportunidade."
Foi um almoço de frango, comido por um fóssil e servido por cágados. A verdadeira refeição National Geographic.
Entrei no "Frango da Guia" do Almada Fórum e pedi meio galináceo, estimando que a coisa seria expedita.
A songa monga que me veio buscar à entrada, depois de algum tempo de espera perante um restaurante vazio (eram 12,15 horas), fez questão de exibir a maior das acrimónias logo desde o início. Quis sentar-me à entrada... recusei! Quis sentar-me no corredor, sujeito à corrente de ar que vinha da porta... recusei. Pedi-lhe para me sentar junto à parede. Respondeu-me com enfado: "escolha!", ao que retorqui: "O quê? a mesa ou a parede?". Continuou soturna como uma noite de Inverno. Pensei: "estou consumido!" (com um "F" grande)...
Acabou por me sentar sob um LCD suspenso da parede. Não percebi se a ideia era de que aquilo despencasse da parede e me amarrotasse a crista ou se a intenção era muito mais sórdida. É que, acto contínuo, a moçoila ligou a geringonça e eu tive que aturar o cacarejar de duas aves canoras escorraçadas das respectivas capoeiras, perto das quais o bardo Chatotorix (da aldeia de Astérix) seria um verdadeiro Pavarotti. Tentei pensar positivo, que seria uma forma de acelerar o palato de modo a poder fugir dali o mais rapidamente possível.
A moçoila, entretanto, conseguiu deixar-me sem perceber se olhava para mim se através de mim. Parecia-me estar a ser escrutinado pela capataz do aviário...
Nisto e naquilo passaram-se quarenta minutos e nada de meio-frango. Chamei a atenção para o facto, alertando que tinha que ir para o cinema e a sessão estava prestes a começar. Pois sim... tivesse o meio-frango duas patas (por qualquer alteração transgénica) e mover-se-ia mais rapidamente do que todos os empregados juntos. Viesse ele ainda com a cabeça e, apesar de morto, depenado e assado, teria certamente melhor aspecto do que aqueles aprendizes de empregados de mesa.
Mas lá veio o bicho, mais esfalfado do que eu...
Comi à pressa; chamei a estafermóide e pedi-lhe um café e a conta, ficando a pensar se ela seria capaz de tomar conta de dois pedidos em simultâneo...
A despesa perfez € 9,95. Dei-lhe uma nota e esperei pelo troco. Quando regressou ficou ali naquele vai que não vai, fica que não fica, a ver se sobrava alguma coisa. Disse-lhe: "Não encontro trocos nenhuns. Devem ter ficado perdidos junto com a sua simpatia. Fica para uma próxima oportunidade."
Foi um almoço de frango, comido por um fóssil e servido por cágados. A verdadeira refeição National Geographic.
Thursday night fever
Hard Rock Cafe.
Quinta-feira à noite.
Do tecto pendem teias de aranha artificiais e esqueletos fluorescentes. Finados made in the USA.
O balcão é uma torre de babel: múltiplos idiomas afinando pelo diapasão aglutinador do álcool.
Nas mesas a fauna é diversa, dela sobressaindo uma holandesa envergando óculos de sol maiores do que as suas próprias mandibulas e um brasileiro que sucumbiu de borco sobre o tampo da mesa, indiferente a um Kid Rock que debita em écran gigante. Os companheiros riem sem intervir. É a velha solidariedade entre gente etilizada.
O espaço, a egrégora, as energias de há pouco eram mais calmas.
Mas não é no que é diferente que nos complementamos?
Bjs... on the rocks.
Quinta-feira à noite.
Do tecto pendem teias de aranha artificiais e esqueletos fluorescentes. Finados made in the USA.
O balcão é uma torre de babel: múltiplos idiomas afinando pelo diapasão aglutinador do álcool.
Nas mesas a fauna é diversa, dela sobressaindo uma holandesa envergando óculos de sol maiores do que as suas próprias mandibulas e um brasileiro que sucumbiu de borco sobre o tampo da mesa, indiferente a um Kid Rock que debita em écran gigante. Os companheiros riem sem intervir. É a velha solidariedade entre gente etilizada.
O espaço, a egrégora, as energias de há pouco eram mais calmas.
Mas não é no que é diferente que nos complementamos?
Bjs... on the rocks.
28 outubro 2010
Sons
Ó p'ra mim fresco que nem uma alface mas à procura de um pretexto para desfazer as frustrações na tromba do primeiro que olhar para mim de esguelha...
O melhor será ir já tratar desse assunto. Olho-me de través ao espelho e estampo a testa no dito cujo. ;-)
Depois fico a beber um copo, o sangue a pingar-me do nariz para dentro do hidromel... gotas que me parecem cair em câmara lenta.
Vermelho púrpura no dourado do malte... bonito.
Turva-se a vista, o líquido, a vida...
Nada como cair para trás num sofá e ouvir um som daqueles de querubim...
Waltz 4 Koop
Koop
O melhor será ir já tratar desse assunto. Olho-me de través ao espelho e estampo a testa no dito cujo. ;-)
Depois fico a beber um copo, o sangue a pingar-me do nariz para dentro do hidromel... gotas que me parecem cair em câmara lenta.
Vermelho púrpura no dourado do malte... bonito.
Turva-se a vista, o líquido, a vida...
Nada como cair para trás num sofá e ouvir um som daqueles de querubim...
Waltz 4 Koop
Koop
27 outubro 2010
"Bem prega frei Tomás..."
Dizia recentemente a uma amiga que, por vezes, os nossos piores inimigos somos nós próprios.
Muito gostaria eu que essa consciência me isentasse de cair tanta vez em situações que me deixam tão angustiado.
Mas enfim... deve fazer parte de alguma agenda inconsciente de auto-flagelação (ou coisa que o valha).
Muito gostaria eu que essa consciência me isentasse de cair tanta vez em situações que me deixam tão angustiado.
Mas enfim... deve fazer parte de alguma agenda inconsciente de auto-flagelação (ou coisa que o valha).
26 outubro 2010
Tão longe e tão perto.
O tanto de bem que dissémos, o tanto de bem que fizémos quando o amor não cabia em nós.
O tanto de mal que dissémos, o tanto de mal que fizémos quando o amor se distraiu entre nós, ou de nós, já nem sei.
Perdemo-nos realmente ou ficámos apenas reféns do mal que nos oferecemos?
O tempo, que tudo cura, passa por mim acenando de longe com a promessa de um remédio que não vem. Mas afinal que impasse é este em que escorrego, mal me tendo de pé?
Quando tudo parece esfumar-se num passado longínquo, eis-me na presença da tua lembrança, pungente, como se de ti própria se tratasse. Vislumbro-te num carro que vem de frente; deitada na areia da praia; sentada numa cadeira de cinema; vejo-te entre duas colheres de maçã assada, sentado à mesa do restaurante, sozinho mas na tua companhia, o que me deixa ainda e cada vez mais só.
Quando te vejo não consigo deixar de fitar a tua boca. Acaba por ser irónico: eu tão triste enquanto a felicidade está mesmo ali, ao virar de um beijo teu... tão longe e tão perto.
O tanto de mal que dissémos, o tanto de mal que fizémos quando o amor se distraiu entre nós, ou de nós, já nem sei.
Perdemo-nos realmente ou ficámos apenas reféns do mal que nos oferecemos?
O tempo, que tudo cura, passa por mim acenando de longe com a promessa de um remédio que não vem. Mas afinal que impasse é este em que escorrego, mal me tendo de pé?
Quando tudo parece esfumar-se num passado longínquo, eis-me na presença da tua lembrança, pungente, como se de ti própria se tratasse. Vislumbro-te num carro que vem de frente; deitada na areia da praia; sentada numa cadeira de cinema; vejo-te entre duas colheres de maçã assada, sentado à mesa do restaurante, sozinho mas na tua companhia, o que me deixa ainda e cada vez mais só.
Quando te vejo não consigo deixar de fitar a tua boca. Acaba por ser irónico: eu tão triste enquanto a felicidade está mesmo ali, ao virar de um beijo teu... tão longe e tão perto.
Há quatro anos atrás
Há exactamente quatro anos atrás, transcrevi para este blog a opinião do Dr. João Marques dos Santos. Hoje, numa demonstração inequívoca da velha máxima Os cães ladram mas a caravana passa, cumpre-me voltar a fazê-lo.
Ah! Já agora:
- Béu, béu!
Nunca se viu tão fantástica unanimidade mediática sobre um projecto de Orçamento de Estado. Os economistas continuam a fingir não entender que alimentam um monstro, autofágico, que já começou a engolir a própria cauda. Sabemos que somos vítimas do PEC, da Europa, da globalização, e do fantástico poder do dinheiro. Mas é lastimável que os nossos maiores carrascos sejam sempre os nossos governantes. Sócrates e as suas pequenas marionetas não têm imaginação, nem capacidade técnica, nem doutrinal ou humana para mais. Já mostraram tudo quanto têm para dar.
Incapaz de gerir as receitas do Estado ou de promover o crescimento económico, Sócrates, para recolher aplausos, refugia-se na política do corte. Sem anestesia, nem transfusões. Por isso se não entende tão grande unanimidade opinativa face às graves agressões deste orçamento. Porque este Governo não avança a direito. Faz umas curvas apertadas. Escolhe as suas vítimas e protege, sem vergonha, as suas melhores clientelas. O alarme de Jorge Coelho é sintomático. As almas de Sócrates, Campos, Pinho e outros ditos ‘governantes’ têm direito a inscrição a ouro no livro de honra da mais detestável das direitas. A que suga a vaca até a matar. Desapiedada. Que se não comove com os mais desfavorecidos e está sempre pronta para os atirar ainda mais para baixo na escala social. Quem se não incomoda em diminuir salários reais, quem agrava a carga fiscal dos reformados e deficientes, quem aumenta descontos para a CGA, quem todas as semanas corta nos medicamentos e na assistência médica e aumenta taxas moderadoras, quem ameaça diminuir 27% nos encargos do Estado com a ADSE, quem (no meio desta tempestade) cria excepções para a Banca oferecendo-lhe, como brinde, um regime de favor no apuramento dos seus impostos, não tem sequer direito a andar na rua de cara descoberta. E provoca náuseas quando insiste em dizer-se socialista. Deus livre os socialistas destes atabalhoados travestis políticos.
No limite, todos os socialistas que se empenhem em devolver alguma dignidade à vida política ver-se-ão obrigados a varrer os impostores e a votar na Direita (única alternativa conjuntural) para salvar as tradições e o bom-nome da Esquerda socialista, a sua cultura e os seus valores. Que são uma realidade histórica a respeitar. E que Sócrates aposta em esfrangalhar. Não é uma política restritiva e de rigor que está em causa. É o facto de essa política ser vesga. Maltratar (e beneficiar) sempre os mesmos. Sócrates massacra os portugueses mais desprotegidos com brutais restrições. Que são imediatas. Efectivas. Actuais. Indignas. E empobrecedoras. E nada oferece em troca senão mentirosas miragens. No que diz respeito à sua política social, este Governo espera que os mais velhos morram depressa e fia-se na adaptação e resignação dos mais novos, que não têm a memória de melhores dias. É este o seu programa.
João Marques dos Santos, Advogado
in "Opinião", Correio da Manhã, 20.10.2006
Ah! Já agora:
- Béu, béu!
Nunca se viu tão fantástica unanimidade mediática sobre um projecto de Orçamento de Estado. Os economistas continuam a fingir não entender que alimentam um monstro, autofágico, que já começou a engolir a própria cauda. Sabemos que somos vítimas do PEC, da Europa, da globalização, e do fantástico poder do dinheiro. Mas é lastimável que os nossos maiores carrascos sejam sempre os nossos governantes. Sócrates e as suas pequenas marionetas não têm imaginação, nem capacidade técnica, nem doutrinal ou humana para mais. Já mostraram tudo quanto têm para dar.
Incapaz de gerir as receitas do Estado ou de promover o crescimento económico, Sócrates, para recolher aplausos, refugia-se na política do corte. Sem anestesia, nem transfusões. Por isso se não entende tão grande unanimidade opinativa face às graves agressões deste orçamento. Porque este Governo não avança a direito. Faz umas curvas apertadas. Escolhe as suas vítimas e protege, sem vergonha, as suas melhores clientelas. O alarme de Jorge Coelho é sintomático. As almas de Sócrates, Campos, Pinho e outros ditos ‘governantes’ têm direito a inscrição a ouro no livro de honra da mais detestável das direitas. A que suga a vaca até a matar. Desapiedada. Que se não comove com os mais desfavorecidos e está sempre pronta para os atirar ainda mais para baixo na escala social. Quem se não incomoda em diminuir salários reais, quem agrava a carga fiscal dos reformados e deficientes, quem aumenta descontos para a CGA, quem todas as semanas corta nos medicamentos e na assistência médica e aumenta taxas moderadoras, quem ameaça diminuir 27% nos encargos do Estado com a ADSE, quem (no meio desta tempestade) cria excepções para a Banca oferecendo-lhe, como brinde, um regime de favor no apuramento dos seus impostos, não tem sequer direito a andar na rua de cara descoberta. E provoca náuseas quando insiste em dizer-se socialista. Deus livre os socialistas destes atabalhoados travestis políticos.
No limite, todos os socialistas que se empenhem em devolver alguma dignidade à vida política ver-se-ão obrigados a varrer os impostores e a votar na Direita (única alternativa conjuntural) para salvar as tradições e o bom-nome da Esquerda socialista, a sua cultura e os seus valores. Que são uma realidade histórica a respeitar. E que Sócrates aposta em esfrangalhar. Não é uma política restritiva e de rigor que está em causa. É o facto de essa política ser vesga. Maltratar (e beneficiar) sempre os mesmos. Sócrates massacra os portugueses mais desprotegidos com brutais restrições. Que são imediatas. Efectivas. Actuais. Indignas. E empobrecedoras. E nada oferece em troca senão mentirosas miragens. No que diz respeito à sua política social, este Governo espera que os mais velhos morram depressa e fia-se na adaptação e resignação dos mais novos, que não têm a memória de melhores dias. É este o seu programa.
João Marques dos Santos, Advogado
in "Opinião", Correio da Manhã, 20.10.2006
24 outubro 2010
23 outubro 2010
Cenas dos próximos capítulos...
Hoje é Sábado gastronómico.
Amanhã vou escalar a Peninha, em Sintra.
Se desaparecer de circulação foi porque me escaqueirei todo...
Amanhã vou escalar a Peninha, em Sintra.
Se desaparecer de circulação foi porque me escaqueirei todo...
20 outubro 2010
Férias / Vacations / Holidays
Encerrado.
Fui à pesca!
Fermé.
Je suis allé à la pêche!
Closed.
Gonne fishing!
Fui à pesca!
Fermé.
Je suis allé à la pêche!
Closed.
Gonne fishing!
Sons (dose dupla de hipnose musical)
Speak low
Billie Holiday
(Bent remix)
How soon is now?
The Smiths
18 outubro 2010
Santa pasmaceira...
Despertar: 7 da matina;
Serviço 1: Levar herdeiro à escola;
Entrementes 1: Carro; comboio; Metro;
Serviço 2: Reunião de trabalho em Lisboa (mais amorfa e improdutiva do que o actual Governo);
Entrementes 2: Metro; comboio; carro;
Serviço 3: Ir buscar herdeiro à escola e levá-lo a casa;
Entrementes 3: Ida à farmácia para administração da vacina anti-gripe;
Serviço 4: Ir à Ford entregar um documento;
Serviço 5: Ir tratar dos meus canitos;
Entrementes 4: Chegar a casa, sentar o rabo numa cadeira e beber um scotch enquanto escrevo esta coisa deslavada...
E agora? Música (já está!... nem podia ser de outro modo); ler... hoje não me apetece muito por aí além; TV? Vade Retro Satanás!... Gravações? Tenho o filme Coeurs, de Alain Resnais, para ver, mas não é já...;
DVD? Tenho o La Graine et le Mulet, do tunisino Abdellatif Kechiche, para ver, mas também não é para já...
Podia começar a fazer o jantar mas, PORRA!, também não me apetece... Será que estou com uma doença grave?
Santa pasmaceira!!!...
Serviço 1: Levar herdeiro à escola;
Entrementes 1: Carro; comboio; Metro;
Serviço 2: Reunião de trabalho em Lisboa (mais amorfa e improdutiva do que o actual Governo);
Entrementes 2: Metro; comboio; carro;
Serviço 3: Ir buscar herdeiro à escola e levá-lo a casa;
Entrementes 3: Ida à farmácia para administração da vacina anti-gripe;
Serviço 4: Ir à Ford entregar um documento;
Serviço 5: Ir tratar dos meus canitos;
Entrementes 4: Chegar a casa, sentar o rabo numa cadeira e beber um scotch enquanto escrevo esta coisa deslavada...
E agora? Música (já está!... nem podia ser de outro modo); ler... hoje não me apetece muito por aí além; TV? Vade Retro Satanás!... Gravações? Tenho o filme Coeurs, de Alain Resnais, para ver, mas não é já...;
DVD? Tenho o La Graine et le Mulet, do tunisino Abdellatif Kechiche, para ver, mas também não é para já...
Podia começar a fazer o jantar mas, PORRA!, também não me apetece... Será que estou com uma doença grave?
Santa pasmaceira!!!...
16 outubro 2010
Leituras
(...) da viagem secreta ao fundo do coração trouxe um sono vertiginosamente profundo. a água e o ópio a ausência e o ritual a epígrafe e o punhal a prece e a pressa de partir. amadureço este inverno que é segredo. e o óbvio é uma oração em rodapé.
e o céu existe... cravado de pétalas... no olhar em que te alago.
"A rosa não tem porquê. Floresce porque floresce. Não cuida de si mesma. Nem pergunta se alguém a vê." Disse Silesius.
e eu reincido_____________ vês a pétala que te deixo?
assim
____________é tão tua. floresceu no deserto. é-me fonte e espinho. muralha e poros nocturna e partitura. vejo respondes e logo de seguida és parto e floresta.
sangue acamado na minha anca. mártir de um segredo mátreo. a rosa que não seca neste espinhoso mapa do coração. que te ofereço. cuidador dos lobos que me rasgam de rajada.
As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar
Isabel Mendes Ferreira
e o céu existe... cravado de pétalas... no olhar em que te alago.
"A rosa não tem porquê. Floresce porque floresce. Não cuida de si mesma. Nem pergunta se alguém a vê." Disse Silesius.
e eu reincido_____________ vês a pétala que te deixo?
assim
____________é tão tua. floresceu no deserto. é-me fonte e espinho. muralha e poros nocturna e partitura. vejo respondes e logo de seguida és parto e floresta.
sangue acamado na minha anca. mártir de um segredo mátreo. a rosa que não seca neste espinhoso mapa do coração. que te ofereço. cuidador dos lobos que me rasgam de rajada.
As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar
Isabel Mendes Ferreira
15 outubro 2010
14 outubro 2010
Mulher com brinco de mar
Quando ela me sussura ao ouvido é como o fervilhar da água, absorvida pela areia húmida no rescaldo de uma vaga nocturna.
Quando me beija a nuca, ela é o rebojo de uma onda que rebentou sobre mim, envolvendo-me numa explosão de minúsculas bolhas de oxigénio, fazendo estremecer o meu mais profundo eu.
Quando se arranja para uma festa, ela é lago de plácidas águas cristalinas, espelhando as constelações da estação, ou tormenta desfeita no mais rigoroso dos invernos.
Quando dança para mim, espraia toda a volúpia de uma laminária acariciada pelo vai-vem da maré.
Quando dançamos juntos somos como partículas de maresia arrancadas à superfície pelo sopro do vento boreal.
Quando o mau tempo se deixa adivinhar no horizonte ela sabe e relembra, melhor do que ninguém, que o amor é feito de marés cheias e marés vazias, de tempestades e de bonanças.
Quando chora, as suas lágrimas desvanecem-se céleres, como salpicos de água sobre uma rocha quente. As marcas, essas, perduram, mas apenas de modo efémero, como singelas manchas de sal.
Quando faz amor comigo ela é a calmaria seguida da tempestade que investe imparável contra o cabo, sem quaisquer estratégias, receios ou hesitações, varrendo encostas e sorvendo tudo à sua passagem enquanto os seus olhos me dizem:
- Faz de mim terra, tal como eu faço de ti água. Possui-me neste instante, tal como eu te possuo a ti. Juntos seremos a soma de ambos, o universo fundido num só instante".
Deus pode ter criado o homem à sua imagem. Mas a mulher... a mulher - Deus foi ainda mais ambicioso - criou-a à imagem do mar.
Quando me beija a nuca, ela é o rebojo de uma onda que rebentou sobre mim, envolvendo-me numa explosão de minúsculas bolhas de oxigénio, fazendo estremecer o meu mais profundo eu.
Quando se arranja para uma festa, ela é lago de plácidas águas cristalinas, espelhando as constelações da estação, ou tormenta desfeita no mais rigoroso dos invernos.
Quando dança para mim, espraia toda a volúpia de uma laminária acariciada pelo vai-vem da maré.
Quando dançamos juntos somos como partículas de maresia arrancadas à superfície pelo sopro do vento boreal.
Quando o mau tempo se deixa adivinhar no horizonte ela sabe e relembra, melhor do que ninguém, que o amor é feito de marés cheias e marés vazias, de tempestades e de bonanças.
Quando chora, as suas lágrimas desvanecem-se céleres, como salpicos de água sobre uma rocha quente. As marcas, essas, perduram, mas apenas de modo efémero, como singelas manchas de sal.
Quando faz amor comigo ela é a calmaria seguida da tempestade que investe imparável contra o cabo, sem quaisquer estratégias, receios ou hesitações, varrendo encostas e sorvendo tudo à sua passagem enquanto os seus olhos me dizem:
- Faz de mim terra, tal como eu faço de ti água. Possui-me neste instante, tal como eu te possuo a ti. Juntos seremos a soma de ambos, o universo fundido num só instante".
Deus pode ter criado o homem à sua imagem. Mas a mulher... a mulher - Deus foi ainda mais ambicioso - criou-a à imagem do mar.
13 outubro 2010
09 outubro 2010
Polémico?
John Lennon foi assassinado faz hoje trinta anos.
Não fosse a sempre triste circunstância da morte de uma pessoa relativamente nova e o facto de ter escrito e composto algumas canções de antologia, pergunto:
E depois???
Não fosse a sempre triste circunstância da morte de uma pessoa relativamente nova e o facto de ter escrito e composto algumas canções de antologia, pergunto:
E depois???
08 outubro 2010
Oração do dia
Mestres, namastê!
Que as graças que julgueis ser justo atribuir-me em resultado do meu trabalho, possam ser distribuídas pela minha família, pelos meus amigos e por todos quantos mais delas necessitem do que eu.
Dai-me a força de espírito para que me possa manter na senda do merecimento.
Que tudo aquilo que eu venha a obter por vosso intermédio, incluindo a resposta a esta prece, resulte do meu humilde esforço e não do meu pedido.
Obrigado!
Que as graças que julgueis ser justo atribuir-me em resultado do meu trabalho, possam ser distribuídas pela minha família, pelos meus amigos e por todos quantos mais delas necessitem do que eu.
Dai-me a força de espírito para que me possa manter na senda do merecimento.
Que tudo aquilo que eu venha a obter por vosso intermédio, incluindo a resposta a esta prece, resulte do meu humilde esforço e não do meu pedido.
Obrigado!
Hachiko
Baseado numa história verídica ocorrida no Japão entre os anos 20 e 30 do século passado, este filme conta-nos uma belíssima história de amor incondicional.
Daquelas dádivas de que só os animais são capazes.
Curiosamente, conheço uma história muito semelhante a esta. Há não muitos anos, na Costa de Caparica, viveu um vira-lata minorca que, após o falecimento do dono, fazia diariamente o percurso do Bairro dos Pescadores até ao cemitério local, aguardando a abertura das portas pela manhã e saindo à hora de encerramento. Passava os dias deitado aos pés da campa do dono. Esta sua rotina apenas cessou alguns anos depois, no dia em que foi atropelado ao atravessar a via-rápida, algo que era obrigado a fazer duas vezes por dia.
Hachico - Amigos para sempre, não é um grande filme (nem nada que se pareça). Mas é uma grande história e, sobretudo, uma grande lição.
[Não levem um lenço... levem um lençol. Eu não levei uma coisa nem outra e passei um mau bocado a secar olhos e nariz com os dedos...]
Daquelas dádivas de que só os animais são capazes.
Curiosamente, conheço uma história muito semelhante a esta. Há não muitos anos, na Costa de Caparica, viveu um vira-lata minorca que, após o falecimento do dono, fazia diariamente o percurso do Bairro dos Pescadores até ao cemitério local, aguardando a abertura das portas pela manhã e saindo à hora de encerramento. Passava os dias deitado aos pés da campa do dono. Esta sua rotina apenas cessou alguns anos depois, no dia em que foi atropelado ao atravessar a via-rápida, algo que era obrigado a fazer duas vezes por dia.
Hachico - Amigos para sempre, não é um grande filme (nem nada que se pareça). Mas é uma grande história e, sobretudo, uma grande lição.
[Não levem um lenço... levem um lençol. Eu não levei uma coisa nem outra e passei um mau bocado a secar olhos e nariz com os dedos...]
07 outubro 2010
As vagas vêm em vagas
As vagas vêm em vagas
tragando tudo à sua passagem,
levantando castelos de água e núvens de espuma,
revolvendo areia, envolvendo-me na bruma.
As vagas vêm em vagas
e eu deixei de ver.
É da areia, da maresia no ar,
ou desta cegueira em que me quero afogar?
As vagas vêm em vagas
num sem parar de voltar.
Enrolam, desenrolam,
em chamas de sol se imolam.
As vagas vêm em vagas
lavando-me os sentimentos.
Indiferentes se bons se maus,
sobem escadas, descem degraus.
As vagas vêm em vagas,
impacientes, inclementes.
Não trazem calor nem amor
a um peito dilacerado pela dor.
As vagas vêm em vagas
mesmo quando o crepúsculo boceja.
Cai a noite... a praia descansa.
Acorda o pesadelo que cansa.
As vagas vêm em vagas,
estendendo-se no colo do mar.
Sob o luar, próximas, belas...
Quiçá um dia irei com elas?
06 outubro 2010
05 outubro 2010
Por estas e por outras...
Ontem à noite calhou ter assistido a um conjunto fragmentado de momentos televisivos de (dita) informação, em que os temas dominantes diziam respeito ao centenário da implantação da República e à actual situação de crise generalizada que o nosso país atravessa.
Depois de tudo bem digerido; depois do exercício destinado a subir o nível de vibração; depois de alguma preparação para voltar a pensar no assunto, cheguei à conclusão de que tenho ainda um longo - senão interminável - caminho a percorrer no sentido do amor e perdão incondicionais.
Sinto-me incapaz de compreender e/ou desculpar este escol de cães raivosos que se servem do serviço público como plataforma e/ou trampolim para poisos principescamente remunerados de onde delapidam o erário público a seu bel-prazer.
Não consigo admitir que uma corja de indivíduos que se renova numa estafada e incompreensivelmente mantida alternância democrática, continue a vomitar demagogia e retórica, criando e alimentando de forma tácita um monstro autofágico que sangra a favor desta escumalha, deixando a populaça anémica... cada vez mais anémica, pobre, em muitos casos miserável.
Até já os mais liberais arautos (vd. artigos recentes do jornal Expresso) clamam contra a insustentável promiscuidade entre o poder político, o poder económico e a banca.
Os últimos tempos têm sido férteis em cenas de favorecimento, desfalque, despautério financeiro e de cândida pouca-vergonhice, que não percebo como não são passíveis de procedimento criminal.
É o fartar-vilanagem próprio destes momentos de pânico que antecedem o naufrágio.
O problema é que este malfadado navio encalha, encalha de novo e volta a encalhar, não havendo meio de afundar.
Os ratos sobrevivem sempre, equilibrando-se reciprocamente, quais contorcionistas de circo coreano, no topo dos mastros de um salvado marítimo que terá de ser, uma e outra vez, reconstruído a partir da quilha, sempre pelo mesmo triste e patético conjunto de carpinteiros e calafates.
Ao jantar ouvi colegas meus de Faculdade, do tempo de Mestrado, gente da geração posterior à minha, com qualificações académicas e experiência profissional mais do que suficientes para poder aspirar a um posto de trabalho digno, confessar que estes políticos, mais do que sugar-lhes a vida e a bolsa, conseguiram a triste e indigna proeza de lhes subtrair os sonhos. Todos ponderam ir para o estrangeiro a muito curto prazo.
Eu não tenho idade nem condições para emigrar. Os meus sonhos são poucos mas bons, quiçá refinados pelo crivo desta realidade que nos é imposta e que não controlamos individualmente.
A este panteão de gatunos e oportunistas ideologicamente analfabetos que apenas se servem do serviço público para se engordarem a si próprios e às suas clientelas, urge relembrar uma panaceia ainda não há muitos anos prescrita por um nosso trovador:
A gente ajuda, havemos de ser mais, eu bem sei
Mas há quem queira, deitar abaixo o que eu levantei
(...)
Bem me diziam, bem me avisavam, como era a lei
Na minha terra quem trepa no coqueiro é o rei
A bucha é dura, mais dura é a razão que a sustém
Só nesta rusga, não há lugar para os filhos da mãe
Não me obriguem a vir para a rua, gritar
Que é já tempo de embalar a trouxa e zarpar...
Será que somos cegos? E eu por cá vou vendo muito bem... E vocês?
Depois de tudo bem digerido; depois do exercício destinado a subir o nível de vibração; depois de alguma preparação para voltar a pensar no assunto, cheguei à conclusão de que tenho ainda um longo - senão interminável - caminho a percorrer no sentido do amor e perdão incondicionais.
Sinto-me incapaz de compreender e/ou desculpar este escol de cães raivosos que se servem do serviço público como plataforma e/ou trampolim para poisos principescamente remunerados de onde delapidam o erário público a seu bel-prazer.
Não consigo admitir que uma corja de indivíduos que se renova numa estafada e incompreensivelmente mantida alternância democrática, continue a vomitar demagogia e retórica, criando e alimentando de forma tácita um monstro autofágico que sangra a favor desta escumalha, deixando a populaça anémica... cada vez mais anémica, pobre, em muitos casos miserável.
Até já os mais liberais arautos (vd. artigos recentes do jornal Expresso) clamam contra a insustentável promiscuidade entre o poder político, o poder económico e a banca.
Os últimos tempos têm sido férteis em cenas de favorecimento, desfalque, despautério financeiro e de cândida pouca-vergonhice, que não percebo como não são passíveis de procedimento criminal.
É o fartar-vilanagem próprio destes momentos de pânico que antecedem o naufrágio.
O problema é que este malfadado navio encalha, encalha de novo e volta a encalhar, não havendo meio de afundar.
Os ratos sobrevivem sempre, equilibrando-se reciprocamente, quais contorcionistas de circo coreano, no topo dos mastros de um salvado marítimo que terá de ser, uma e outra vez, reconstruído a partir da quilha, sempre pelo mesmo triste e patético conjunto de carpinteiros e calafates.
Ao jantar ouvi colegas meus de Faculdade, do tempo de Mestrado, gente da geração posterior à minha, com qualificações académicas e experiência profissional mais do que suficientes para poder aspirar a um posto de trabalho digno, confessar que estes políticos, mais do que sugar-lhes a vida e a bolsa, conseguiram a triste e indigna proeza de lhes subtrair os sonhos. Todos ponderam ir para o estrangeiro a muito curto prazo.
Eu não tenho idade nem condições para emigrar. Os meus sonhos são poucos mas bons, quiçá refinados pelo crivo desta realidade que nos é imposta e que não controlamos individualmente.
A este panteão de gatunos e oportunistas ideologicamente analfabetos que apenas se servem do serviço público para se engordarem a si próprios e às suas clientelas, urge relembrar uma panaceia ainda não há muitos anos prescrita por um nosso trovador:
A gente ajuda, havemos de ser mais, eu bem sei
Mas há quem queira, deitar abaixo o que eu levantei
(...)
Bem me diziam, bem me avisavam, como era a lei
Na minha terra quem trepa no coqueiro é o rei
A bucha é dura, mais dura é a razão que a sustém
Só nesta rusga, não há lugar para os filhos da mãe
Não me obriguem a vir para a rua, gritar
Que é já tempo de embalar a trouxa e zarpar...
Será que somos cegos? E eu por cá vou vendo muito bem... E vocês?
04 outubro 2010
03 outubro 2010
After hours
Há lá coisa melhor do que cozinhar para os amigos, conversar com os amigos, dançar com os amigos, partilhar com os amigos?...
Gosto muito de todos vós; mesmo dos que não estiveram. Por vezes a distância é a melhor forma de percebermos claramente o quanto os amigos nos complementam, o quanto preenchem os nossos vazios.
Obrigado por serem meus amigos!
02 outubro 2010
30 setembro 2010
Viva o sol
Dias há em que me salva o sol.
O seu aconchego, o seu brilho, a luminosidade que me ilumina os passos e me mostra o caminho.
Dias há em que, de outro modo, esmoreceria, definharia até coisa nenhuma, seca e ressequida, tanto quanto seco e ressequido está o meu coração.
Dias há em que não faço questão que outros dias venham a haver.
Dias há em que os há apenas porque tem que os haver.
Dias há em que os há e eu não percebo porquê...
O seu aconchego, o seu brilho, a luminosidade que me ilumina os passos e me mostra o caminho.
Dias há em que, de outro modo, esmoreceria, definharia até coisa nenhuma, seca e ressequida, tanto quanto seco e ressequido está o meu coração.
Dias há em que não faço questão que outros dias venham a haver.
Dias há em que os há apenas porque tem que os haver.
Dias há em que os há e eu não percebo porquê...
29 setembro 2010
Bom dia!
Nada melhor do que uma genuína gargalhada logo pela manhã.
Divirtam-se com este clip musical decorado com cenas de Una vita difficile, de Dino Risi, 1961.
O inesquecível Alberto Sordi...
It's a beautiful day
Club Des Belugas
Divirtam-se com este clip musical decorado com cenas de Una vita difficile, de Dino Risi, 1961.
O inesquecível Alberto Sordi...
It's a beautiful day
Club Des Belugas
28 setembro 2010
27 setembro 2010
Faria tudo de novo?
Claro que sim.
Mesmo conhecendo antecipadamente o desfecho, empenhar-me-ia ainda mais intensamente.
Quando é que duas pessoas que se amam profundamente mas não se conseguem entender de forma plena, param para dizer "já chega!"?
Nunca!
I'd do it all again
Corinne Bailey Ray
Mesmo conhecendo antecipadamente o desfecho, empenhar-me-ia ainda mais intensamente.
Quando é que duas pessoas que se amam profundamente mas não se conseguem entender de forma plena, param para dizer "já chega!"?
Nunca!
I'd do it all again
Corinne Bailey Ray
25 setembro 2010
Um retrato escrito.
Setúbal. Doca das Fontainhas.
O sol força a passagem sem pedir licença, rasgando as nuvens com seus estiletes de cristal.
O mar parece fervilhar. Reflexos flamejantes desenham cores a um ritmo alucinado e alucinante.
Sentado num dos largos pilaretes que mantêm à distância o verdete traiçoeiro, apoio ambos os pés na amarra de ferro que agora balouça como um pêndulo de khrónus.
Beatas e paus de gelado ganharam o seu espaço fazendo já parte da calçada estafada.
Os meus olhos seguem as nervuras da pedra.
Na muralha que se afunda em diagonal, um garanguejo mouro finta agilmente as doces investidas da água. Sob a superfície, os parcos despojos do dia vão sendo disputados por peixes-reis, sarguetas, alcorrazes e uma tainha já gasta. Graça, força e astúcia trocam-se de argumentos.
Debruço-me um pouco mais, pousando o queixo num punho cerrado e o cotovelo num joelho. Sorrio...
A minha sombra, projectada no chão, faz lembrar não sei se O Pensador se O Desterrado.
Soergo-me.
O convés de um Galeão do Sal divide a linha do horizonte com o areal do Bico das Lulas, ambos entrecortados por mastros de embarcações e palmeiras anãs.
No céu uma gaivota paira curiosa, de peito feito à brisa marinha que a sustém.
Rogo-lhe:
- Voai! Ide a Tróia, trazei-me uma Helena e juntos riremos trocistas desta vida espartana.
O Sado olhou-me. O Sado aconchegou-me. O Sado amou-me como só um rio o sabe fazer.
Love me like a river does
Melody Gardot
O sol força a passagem sem pedir licença, rasgando as nuvens com seus estiletes de cristal.
O mar parece fervilhar. Reflexos flamejantes desenham cores a um ritmo alucinado e alucinante.
Sentado num dos largos pilaretes que mantêm à distância o verdete traiçoeiro, apoio ambos os pés na amarra de ferro que agora balouça como um pêndulo de khrónus.
Beatas e paus de gelado ganharam o seu espaço fazendo já parte da calçada estafada.
Os meus olhos seguem as nervuras da pedra.
Na muralha que se afunda em diagonal, um garanguejo mouro finta agilmente as doces investidas da água. Sob a superfície, os parcos despojos do dia vão sendo disputados por peixes-reis, sarguetas, alcorrazes e uma tainha já gasta. Graça, força e astúcia trocam-se de argumentos.
Debruço-me um pouco mais, pousando o queixo num punho cerrado e o cotovelo num joelho. Sorrio...
A minha sombra, projectada no chão, faz lembrar não sei se O Pensador se O Desterrado.
Soergo-me.
O convés de um Galeão do Sal divide a linha do horizonte com o areal do Bico das Lulas, ambos entrecortados por mastros de embarcações e palmeiras anãs.
No céu uma gaivota paira curiosa, de peito feito à brisa marinha que a sustém.
Rogo-lhe:
- Voai! Ide a Tróia, trazei-me uma Helena e juntos riremos trocistas desta vida espartana.
O Sado olhou-me. O Sado aconchegou-me. O Sado amou-me como só um rio o sabe fazer.
Love me like a river does
Melody Gardot
24 setembro 2010
Jantar reikiano
Ora muito bem!
Já que ando a ser provocado via comentários, vamos lá então afinar a ementa.
Se bem entendi (para fazer a lista de compras) as hostilidades rezarão do seguinte modo:
- Patê de tuna.
- Patê d'herbes aromatiques.
- Consommé de coriandre, avec huil d'olive fruitée et noix de muscade.
- Octopus aux four, avec des pignons, abricots secs, romarin, purée de légumes et pommes de terre aussi au four avec thym citron et ail.
- Desserts mystérieux à décider par les femmes.
- Vin rouge Chateaux Penafiel, Réserve du Charles.
Esta ementa Michellin traduz-se em idioma tuga da seguinte maneira:
- Atum com maionese
- Maionese com verduras
- Creme de coentros
- Polvo assado com um monte de entulho e batatas assadas com decoração
- Sobremesas: as mulheres que se "desenmerdem"
- O vinho leva o Carlos de casa.
Ora façam lá o favor de confirmar.
(Como diria a saudosa Ivone Silva: "Toma lá qu'é democrático!")
Já que ando a ser provocado via comentários, vamos lá então afinar a ementa.
Se bem entendi (para fazer a lista de compras) as hostilidades rezarão do seguinte modo:
- Patê de tuna.
- Patê d'herbes aromatiques.
- Consommé de coriandre, avec huil d'olive fruitée et noix de muscade.
- Octopus aux four, avec des pignons, abricots secs, romarin, purée de légumes et pommes de terre aussi au four avec thym citron et ail.
- Desserts mystérieux à décider par les femmes.
- Vin rouge Chateaux Penafiel, Réserve du Charles.
Esta ementa Michellin traduz-se em idioma tuga da seguinte maneira:
- Atum com maionese
- Maionese com verduras
- Creme de coentros
- Polvo assado com um monte de entulho e batatas assadas com decoração
- Sobremesas: as mulheres que se "desenmerdem"
- O vinho leva o Carlos de casa.
Ora façam lá o favor de confirmar.
(Como diria a saudosa Ivone Silva: "Toma lá qu'é democrático!")
Bom dia!!!
Pirralho na escola a tempo e horas; uma manhã que ameaça um dia mais risonho que o de ontem; uma espreguiçadela daquelas; um sorriso; uma interrogação encarada sem dramatismos, antes com a postura própria de quem se vai habituando a esperar pelo que o futuro possa trazer, sem expectativas de qualquer espécie. A desilusão é cada vez mais uma improbabilidade.
Hmmmm... Who will comfort me? Aguardo sem pressas...
Who will comfort me (Live at the Troubador)
Melody Gardot
Hmmmm... Who will comfort me? Aguardo sem pressas...
Who will comfort me (Live at the Troubador)
Melody Gardot
22 setembro 2010
Poesia portuguesa
Há pouco estive na FNAC para comprar poesia portuguesa.
Procurei, procurei e... lá estava: "Poesia".
A secção de "Poesia" da FNAC do Almada Fórum é composta por uma tímida estante, (mais estreita do que aquelas que compramos nos hipermercados), com meia-dúzia de prateleiras entre as quais se dividem autores portugueses e estrangeiros.
Arreliado, dirigi-me a um dos balcões de apoio e reclamei. Não se admite que de autores como Camões, Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro ou Ruy Belo, se encontre disponível apenas um título de cada. Escapava a esta miséria a obra de Sophia de Mello Breyner Andresen, talvez porque a Editorial Caminho... é a Editorial Caminho.
Responderam-me o óbvio: que a poesia não vende, a maioria das editoras faliu ou está a falir, as edições têm sempre tiragens apenas na ordem dos 1200, 1500 exemplares...
Seja! Mas ficou a reclamação...
É o pão nosso de cada dia, é o quotidiano da Cultura portuguesa, engolida que vai sendo por acordos ortográficos e literatura de supermercado.
Por falar em quotidiano, aqui fica o nosso descontentamento manifestado com recurso a um grande poeta.
Poema Quotidiano
É tão depressa noite neste bairro
Nenhum outro porém senhor administrador
goza de tão eficiente serviço de sol
Ainda não há muito ele parecia
domiciliado e residente ao fim da rua
O senhor não calcula todo o dia
que festa de luz proporcionou a todos
Nunca vi e já tenho os meus anos
lavar a gente as mãos no sol como hoje
Donas de casa vieram encher de sol
cântaros alguidares e mais vasos domésticos
Nunca em tantos pés
assim humildemente brilhou
Orientou diz-se até os olhos das crianças
para a escola e pôs reflexos novos
nas míseras vidraças lá do fundo
Há quem diga que o sol foi longe demais
Algum dos pobres desta freguesia
apanhou-o na faca misturou-o no pão
Chegaram a tratá-lo por vizinho
Por este andar... Foi uma autêntica loucura
O astro-rei tornado acessível a todos
ele que ninguém habitualmente saudava
Sempre o mesmo indiferente
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados
Íamos vínhamos entrávamos não víamos
aquela persistência rubra. Ousaria
alguém deixar um só daqueles raios
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?
Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro
Ruy Belo, in Aquele Grande Rio Eufrates
Procurei, procurei e... lá estava: "Poesia".
A secção de "Poesia" da FNAC do Almada Fórum é composta por uma tímida estante, (mais estreita do que aquelas que compramos nos hipermercados), com meia-dúzia de prateleiras entre as quais se dividem autores portugueses e estrangeiros.
Arreliado, dirigi-me a um dos balcões de apoio e reclamei. Não se admite que de autores como Camões, Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro ou Ruy Belo, se encontre disponível apenas um título de cada. Escapava a esta miséria a obra de Sophia de Mello Breyner Andresen, talvez porque a Editorial Caminho... é a Editorial Caminho.
Responderam-me o óbvio: que a poesia não vende, a maioria das editoras faliu ou está a falir, as edições têm sempre tiragens apenas na ordem dos 1200, 1500 exemplares...
Seja! Mas ficou a reclamação...
É o pão nosso de cada dia, é o quotidiano da Cultura portuguesa, engolida que vai sendo por acordos ortográficos e literatura de supermercado.
Por falar em quotidiano, aqui fica o nosso descontentamento manifestado com recurso a um grande poeta.
Poema Quotidiano
É tão depressa noite neste bairro
Nenhum outro porém senhor administrador
goza de tão eficiente serviço de sol
Ainda não há muito ele parecia
domiciliado e residente ao fim da rua
O senhor não calcula todo o dia
que festa de luz proporcionou a todos
Nunca vi e já tenho os meus anos
lavar a gente as mãos no sol como hoje
Donas de casa vieram encher de sol
cântaros alguidares e mais vasos domésticos
Nunca em tantos pés
assim humildemente brilhou
Orientou diz-se até os olhos das crianças
para a escola e pôs reflexos novos
nas míseras vidraças lá do fundo
Há quem diga que o sol foi longe demais
Algum dos pobres desta freguesia
apanhou-o na faca misturou-o no pão
Chegaram a tratá-lo por vizinho
Por este andar... Foi uma autêntica loucura
O astro-rei tornado acessível a todos
ele que ninguém habitualmente saudava
Sempre o mesmo indiferente
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados
Íamos vínhamos entrávamos não víamos
aquela persistência rubra. Ousaria
alguém deixar um só daqueles raios
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?
Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro
Ruy Belo, in Aquele Grande Rio Eufrates
20 setembro 2010
Paradoxos
De mim e para mim faltas-me apenas tu.
Ainda assim...
Rio do teu orgulho sobranceiro;
Rio do teu desprezo;
Rio do teu riso escarninho.
Eu sei que sou melhor que isso.
A fogueira que me deixou em chaga extingue-se agora nas labaredas do seu próprio fel.
Será que há coincidências?
Causa e efeito?
O eterno retorno?
Será que tudo terá sido apenas para demonstrar que sou capaz?
Por vezes a vida tem um sentido de humor doentio.
Interstate Love Song
Stone Temple Pilots
Ainda assim...
Rio do teu orgulho sobranceiro;
Rio do teu desprezo;
Rio do teu riso escarninho.
Eu sei que sou melhor que isso.
A fogueira que me deixou em chaga extingue-se agora nas labaredas do seu próprio fel.
Será que há coincidências?
Causa e efeito?
O eterno retorno?
Será que tudo terá sido apenas para demonstrar que sou capaz?
Por vezes a vida tem um sentido de humor doentio.
Interstate Love Song
Stone Temple Pilots
18 setembro 2010
17 setembro 2010
16 setembro 2010
Que chatice...
Como diria Voltaire, Les beaux esprits se rencontrent.
Ao que eu acrescento mais il y a des outres...
Ao que eu acrescento mais il y a des outres...
14 setembro 2010
Vou dormir sobre o assunto
Vou fazer como uma amiga minha que sonha com a lua, o mar e anjos pintados no tecto.
Esta canção tem tudo a ver com isso.
Ciao bellissima!
Una notte a Napoli
Pink Martini
Esta canção tem tudo a ver com isso.
Ciao bellissima!
Una notte a Napoli
Pink Martini
13 setembro 2010
O apelo à indiferença
O que fazer quando alguém parece ter abdicado de nos falar sem qualquer motivo aparente para tal?
Comezinho, diriam uns, lana caprina, diriam outros.
Apre, irra que me irrita, digo eu, usando e abusando das duplas consoantes.
Que as pessoas lá tenham as suas razões (ou mesmo não as tendo) e não as queiram partilhar, estão no seu direito. Mas porra!... Não me façam perder tempo a falar e a escrever para o boneco.
Podiam fazer o sublime sacrifício de nos dizer: ó fulano, desculpa lá mas, por motivos que não quero referir, gostaria que deixasses de me dirigir a palavra. Que tal?
Por muito perplexos ou injustiçados que nos sentíssemos pelo menos ficávamos a perceber. Com mais ou menos mágoa ou desgosto, ficávamos a saber que, não obstante continuarmos a desejar interiormente as maiores felicidades a essa pessoa, o latim seria para acumular em Cartão Continente.
A boa educação e a consideração pelos outros não estão, infelizmente, ao alcance de todos. Digo eu, que sou muito bronco... Ou será que sou também paranóico? Meu Deus!... o drama que se avizinha...
Por via das paranóias vou mas é beber um Porto.
I Think I'm Paranoid
Garbage
Comezinho, diriam uns, lana caprina, diriam outros.
Apre, irra que me irrita, digo eu, usando e abusando das duplas consoantes.
Que as pessoas lá tenham as suas razões (ou mesmo não as tendo) e não as queiram partilhar, estão no seu direito. Mas porra!... Não me façam perder tempo a falar e a escrever para o boneco.
Podiam fazer o sublime sacrifício de nos dizer: ó fulano, desculpa lá mas, por motivos que não quero referir, gostaria que deixasses de me dirigir a palavra. Que tal?
Por muito perplexos ou injustiçados que nos sentíssemos pelo menos ficávamos a perceber. Com mais ou menos mágoa ou desgosto, ficávamos a saber que, não obstante continuarmos a desejar interiormente as maiores felicidades a essa pessoa, o latim seria para acumular em Cartão Continente.
A boa educação e a consideração pelos outros não estão, infelizmente, ao alcance de todos. Digo eu, que sou muito bronco... Ou será que sou também paranóico? Meu Deus!... o drama que se avizinha...
Por via das paranóias vou mas é beber um Porto.
I Think I'm Paranoid
Garbage
12 setembro 2010
Leituras
A vossa alma é muitas vezes um campo de combate onde a vossa razão e o vosso juízo travam batalha contra a vossa paixão e o vosso apetite.
Gostaria de ser um artesão da paz na vossa alma e de poder converter em unidade e em harmonia a discórdia e a rivalidade entre os vossos elementos.
Mas como poderei eu consegui-lo, se não fordes vós mesmos artesãos da paz e amantes de todos os vossos elementos?
A vossa razão e a vossa paixão são o leme e as velas da vossa alma navegante.
Se as velas se rasgarem ou o vosso leme partir, mais não podeis fazer senão andar aos balanços, à deriva, ou ficar imóveis ao largo dos mares.
A razão, governando sózinha, é uma força restritiva; e a paixão sem controlo é uma chama que queima para a vossa própria destruição.
Possa então a vossa alma exaltar a vossa razão até à altitude da paixão e que ela cante; e possa ela, pela razão, governar a vossa paixão, e que a vossa paixão viva pela sua própria ressurreição quotidiana, e, qual Fénix, se eleve acima das suas próprias cinzas.
(...) Quando, entre as colinas, vos sentais à sombra fresca dos brancos álamos, partilhando a sua paz e a sua serenidade, com os campos e os prados distantes, que o vosso coração diga em silêncio: "Deus repousa na razão."
E quando a tempestade se anuncia e o vento poderoso abana a floresta e o trovão e o relâmpago proclamam a majestade do céu, que o vosso coração se recolha então e diga: "Deus move-se na paixão."
E uma vez que sois o sopro na esfera de Deus e uma folha na floresta de Deus, também deveis repousar na razão e mover-vos na paixão.
O Profeta
Khalil Gibran
Gostaria de ser um artesão da paz na vossa alma e de poder converter em unidade e em harmonia a discórdia e a rivalidade entre os vossos elementos.
Mas como poderei eu consegui-lo, se não fordes vós mesmos artesãos da paz e amantes de todos os vossos elementos?
A vossa razão e a vossa paixão são o leme e as velas da vossa alma navegante.
Se as velas se rasgarem ou o vosso leme partir, mais não podeis fazer senão andar aos balanços, à deriva, ou ficar imóveis ao largo dos mares.
A razão, governando sózinha, é uma força restritiva; e a paixão sem controlo é uma chama que queima para a vossa própria destruição.
Possa então a vossa alma exaltar a vossa razão até à altitude da paixão e que ela cante; e possa ela, pela razão, governar a vossa paixão, e que a vossa paixão viva pela sua própria ressurreição quotidiana, e, qual Fénix, se eleve acima das suas próprias cinzas.
(...) Quando, entre as colinas, vos sentais à sombra fresca dos brancos álamos, partilhando a sua paz e a sua serenidade, com os campos e os prados distantes, que o vosso coração diga em silêncio: "Deus repousa na razão."
E quando a tempestade se anuncia e o vento poderoso abana a floresta e o trovão e o relâmpago proclamam a majestade do céu, que o vosso coração se recolha então e diga: "Deus move-se na paixão."
E uma vez que sois o sopro na esfera de Deus e uma folha na floresta de Deus, também deveis repousar na razão e mover-vos na paixão.
O Profeta
Khalil Gibran
11 setembro 2010
09 setembro 2010
Que bom!
É um privilégio poder ajudar a ajudar num ambiente como aquele que hoje à noite se viveu...
07 setembro 2010
06 setembro 2010
Just a feeling
Este pode ser o maior disparate que alguma vez escrevi neste blog mas a minha intuição diz-me que muitos dos meus amigos e amigas andam num clima de amor, de paixão, que há muito não experimentavam.
Pode ser just a feeling...
(E não!... Este blog não conta com a colaboração da Maya.)
Pode ser just a feeling...
(E não!... Este blog não conta com a colaboração da Maya.)
...o resto
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| Altar da Igreja Matriz de Tabuaço |
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| Os sucalcos do Douro |
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| Igreja Matriz de Barcos |
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| Altar da Igreja Matriz de Barcos |
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| Tecto da Igreja Matriz de Barcos |
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| O Douro a montante da Régua |
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Igreja do Sabroso |
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| Igreja do Sabroso e pedras tumulares do séc. XV |
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| Altar da Igreja do Sabroso (fotografado através de uma frincha na porta) |
Fim-de-semana no Douro
Na passada Sexta-Feira tracei azimutes para Norte e rumei a terras do Alto Douro vinhateiro.
Motivo: um casamento; o segundo para cada um dos noivos (ele há gente teimosa hein?...).
Ainda nesse dia houve o tradicional jantar oferecido pelos amigos. Coisa de pouca monta, realizada num quintal em Tabuaço: um porco inteiro a assar no espeto e um panelão (daqueles de rancho para regimento de infantaria) a transbordar de caldo verde. O vinho, tinto e caseiro, como não podia deixar de ser.
De regresso à Régua, ou mais exactamente, à margem oposta do Douro fronteira à Régua, instalámo-nos na esplanada do bar do hotel. Sob um céu estrelado e gozando a brisa morna da noite, bebericámos um Porto Quinta do Castelinho de 20 anos, capaz de suscitar inveja aos astros. Ou foi da barriga cheia ou dos vapores etílicos: juro que a Ursa Maior me fez um manguito!
Sábado: casamento em Tabuaço (antecedido por uma visita-relâmpago ao MIDU - Museu do Imaginário Duriense, que fica logo ao lado do Tribunal e da Conservatória do Registo Civil); almoço em Loureiro: alheira, morcela e presunto; bacalhau à Varanda; cabritinho no forno; vitela assada à regional; morangos silvestres (são apenas os meus destaques para uma ementa mais extensa).
Saída de volta ao hotel a tempo de umas braçadas na piscina, rezando para não ter nenhuma congestão...
Hora do jantar (sim! home qu'é home não arrenega a hora de qualquer refeição) e a minha intuição prevaleceu sobre a aparente asneirada do voltar a comer bacalhau. De modo que lá marchou mais uma posta comedida do fiel amigo, com broa perfumada e assente numa base de puré de grão coroada por espinafres escaldados (no ponto), tudo cercado por uma mancha de azeite gourmet e vinagre balsâmico (que não fazia parte do prato mas a malta também não é parva e sabe umas coisas sobre a arte de bem esgravatar toda a gamela...). O modesto repasto acompanhou uma garrafa de Quinta do Castelinho, tinto de 2008.
Depois da janta... bem... depois da janta morreu mais um Porto Castelinho de 20 anos.
Não sei se foi da comodidade do sommier, se do cansaço, (da pinga não foi certamente), dormimos na companhia dos anjos, revigorando o corpo e o espírito para um Domingo de cariz cultural que começou com uma ida a Peso da Régua, à loja da Quinta do Castelinho, para comprar Portos e vinhos maduros.
Seguiu-se uma visita a Barcos, onde o Sr. Padre Luís, pároco local há 43 anos (um poço de conhecimento da história local e um exemplo vivo de empreendedorismo e amor à terra), interrompendo o seu almoço, fez questão de nos conduzir numa visita pela igreja matriz local - templo românico que data do século XII -, pela Casa da Colegiada, pela Casa da Roda e pela zona velha da vila. Seguiu-se uma visita à igreja (também) românica do Sabroso e, já em Tabuaço, com a ajuda da Dª Luísa (fiel guardiã da chave do templo), pudemos desfrutar da magnífica igreja matriz local, onde se encontra um dos mais belos altares em talha dourada existentes em Portugal.
Fotografias, links de interesse e outras larachas, só mais logo. Agora fico-me por aqui porque antes de deitar ainda tenho que abrir uma garrafa de Porto, não vá o vinho estar estragado e eu ter que regressar à Régua logo pela manhã.
Beijos e abraços, consoante as preferências.
Motivo: um casamento; o segundo para cada um dos noivos (ele há gente teimosa hein?...).
Ainda nesse dia houve o tradicional jantar oferecido pelos amigos. Coisa de pouca monta, realizada num quintal em Tabuaço: um porco inteiro a assar no espeto e um panelão (daqueles de rancho para regimento de infantaria) a transbordar de caldo verde. O vinho, tinto e caseiro, como não podia deixar de ser.
De regresso à Régua, ou mais exactamente, à margem oposta do Douro fronteira à Régua, instalámo-nos na esplanada do bar do hotel. Sob um céu estrelado e gozando a brisa morna da noite, bebericámos um Porto Quinta do Castelinho de 20 anos, capaz de suscitar inveja aos astros. Ou foi da barriga cheia ou dos vapores etílicos: juro que a Ursa Maior me fez um manguito!
Sábado: casamento em Tabuaço (antecedido por uma visita-relâmpago ao MIDU - Museu do Imaginário Duriense, que fica logo ao lado do Tribunal e da Conservatória do Registo Civil); almoço em Loureiro: alheira, morcela e presunto; bacalhau à Varanda; cabritinho no forno; vitela assada à regional; morangos silvestres (são apenas os meus destaques para uma ementa mais extensa).
Saída de volta ao hotel a tempo de umas braçadas na piscina, rezando para não ter nenhuma congestão...
Hora do jantar (sim! home qu'é home não arrenega a hora de qualquer refeição) e a minha intuição prevaleceu sobre a aparente asneirada do voltar a comer bacalhau. De modo que lá marchou mais uma posta comedida do fiel amigo, com broa perfumada e assente numa base de puré de grão coroada por espinafres escaldados (no ponto), tudo cercado por uma mancha de azeite gourmet e vinagre balsâmico (que não fazia parte do prato mas a malta também não é parva e sabe umas coisas sobre a arte de bem esgravatar toda a gamela...). O modesto repasto acompanhou uma garrafa de Quinta do Castelinho, tinto de 2008.
Depois da janta... bem... depois da janta morreu mais um Porto Castelinho de 20 anos.
Não sei se foi da comodidade do sommier, se do cansaço, (da pinga não foi certamente), dormimos na companhia dos anjos, revigorando o corpo e o espírito para um Domingo de cariz cultural que começou com uma ida a Peso da Régua, à loja da Quinta do Castelinho, para comprar Portos e vinhos maduros.
Seguiu-se uma visita a Barcos, onde o Sr. Padre Luís, pároco local há 43 anos (um poço de conhecimento da história local e um exemplo vivo de empreendedorismo e amor à terra), interrompendo o seu almoço, fez questão de nos conduzir numa visita pela igreja matriz local - templo românico que data do século XII -, pela Casa da Colegiada, pela Casa da Roda e pela zona velha da vila. Seguiu-se uma visita à igreja (também) românica do Sabroso e, já em Tabuaço, com a ajuda da Dª Luísa (fiel guardiã da chave do templo), pudemos desfrutar da magnífica igreja matriz local, onde se encontra um dos mais belos altares em talha dourada existentes em Portugal.
Fotografias, links de interesse e outras larachas, só mais logo. Agora fico-me por aqui porque antes de deitar ainda tenho que abrir uma garrafa de Porto, não vá o vinho estar estragado e eu ter que regressar à Régua logo pela manhã.
Beijos e abraços, consoante as preferências.
04 setembro 2010
01 setembro 2010
Um sonho com 20 anos.
Por volta de 1990, durante a leitura de antigos números da National Geographic na Biblioteca do Museu de Marinha, deparei-me com um artigo que me escancarou aos olhos e à mente algo de inesquecível:
- Banff and Jasper National Parks - Heart of the Canadian Rockies
(National Geographic Magazine / Junho 1980 / Vol. 157, nº6)
De facto, se me perguntarem, não saberei responder por que artes desencantarei o dinheiro para semelhante realização. Mas não é dessa matéria que os sonhos são feitos? De impossibilidades tornadas possíveis?
Haverá melhor sítio para nos encontrarmos do que aquele em que nos perdemos?
Será possível sentirmos saudades do desconhecido?
Nunca lá fui... mas será que já lá estive?
Hoje estou aqui a partilhar este devaneio. Amanhã estarei sentado de pernas cruzadas sobre uma rocha sobranceira a uma cascata de água azul turquesa. Escalarei penhascos para poder beber a antiguidade sapiente do glaciar. Saberei erguer as mãos para o céu agradecendo a dádiva da vida e a possibilidade que é dada a esta partícula que sou eu de dela fazer parte. E pode ser que o vento me sussurre ao ouvido: Bem-vindo irmão! Tinha saudades tuas...
- Banff and Jasper National Parks - Heart of the Canadian Rockies
(National Geographic Magazine / Junho 1980 / Vol. 157, nº6)
A primeira sensação obtida foi a de ter que lá voltar. Mas voltar? Como? Nunca lá fui!
Daqui a uns anos, quando tiver possibilidades para isso, aventuro-me a uma coisa destas - pensei.
Embora esta ideia tenha aflorado inúmeras vezes ao longo das duas últimas décadas (ena décadas... porra! Contabilizar o tempo em fatias tão graúdas deixa-me ainda mais velho...), este ano tudo regressou com renovado ímpeto.
Em menos de nada dei por mim embrenhado na internet a procurar voos low-cost para o Canadá, mapas das Montanhas Rochosas Canadianas, informação sobre alojamentos, quando ir, sítios a não perder, tudo e mais um par de botas.
Dirão: enloqueceu!
De facto, se me perguntarem, não saberei responder por que artes desencantarei o dinheiro para semelhante realização. Mas não é dessa matéria que os sonhos são feitos? De impossibilidades tornadas possíveis?Comprei um The Rough Guide to Canada e um Caderno de Campo para começar a tomar notas sobre esta odisseia.
Já estive várias vezes para começar a escrever. De caneta na mão e confrontado com a virgindade imaculada de uma primeira página em branco, acabo por perder a coragem, esmagado pela responsabilidade que todos os princípios acarretam. Como se começa o diário de um sonho?
Querem saber uma coisa? Quanto mais me documento, mais dou comigo a pensar que todas estas informações são absolutamente supérfluas e que esta viagem não será tanto a procura de um sítio quanto a demanda de mim próprio.
Terá sido aqui que tive o vento por companheiro?
Terá sido aqui que me perdi?Terá sido aqui que tive o vento por companheiro?
Haverá melhor sítio para nos encontrarmos do que aquele em que nos perdemos?
Será possível sentirmos saudades do desconhecido?
Nunca lá fui... mas será que já lá estive?
Hoje estou aqui a partilhar este devaneio. Amanhã estarei sentado de pernas cruzadas sobre uma rocha sobranceira a uma cascata de água azul turquesa. Escalarei penhascos para poder beber a antiguidade sapiente do glaciar. Saberei erguer as mãos para o céu agradecendo a dádiva da vida e a possibilidade que é dada a esta partícula que sou eu de dela fazer parte. E pode ser que o vento me sussurre ao ouvido: Bem-vindo irmão! Tinha saudades tuas...
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