14 fevereiro 2011

Leituras


Talvez consiga adormecer

Talvez
consiga adormecer
se não pensar nos teus beijos
que ainda ardem
neste deserto
que é a minha pele sem ti.
Sinto-os
como formigas doidas
a correrem
por mim acima
desvairados, sem norte,
perdidos quem sabe
se na pressa
de voltarem a ser beijos
mais fundos que a pele,
sedenta
desse toque
que só tu consegues,
quando o calor
da tarde que começa
te incendeia
em labaredas por inteiro,
dentro
e fora, meu vesúvio
de Janeiro
onde me deito e adormeço.

Deixa-me voar
de novo colado a ti,
meu pássaro sonhador.
Anda, vamos
nessa brisa quente
à procura
de uma terra que não conheço
e deixa-me desbravá-la
como se o mundo acabasse
agora,
nesta tarde morna
de luz coada, perdida no poente
imaginado,
quando os teus olhos
me falavam sem palavras
e me diziam
que tudo era possível
na caminhada sem medo.

Deixa-me
partir no teu beijo
que tardo
em querer esquecer.
Como quem sussurra
um segredo,
abre-me o teu peito
em que me deito
e estremeço.

Deixa-me voar contigo.
Deixa-me tocar
a lua no teu umbigo.

In A lua no teu umbigo
Alberto Riogrande

12 fevereiro 2011

Na 1ª pessoa – o singular na sua dialéctica com o plural.

Hoje apetece-me escrever na primeira pessoa do singular.
De quando em vez paro para fazer um apanhado da minha vida ou, pelo menos, do meu passado recente. Há quem faça o exercício regular de uma retrospectiva diária. Não chego a tanto (mas apenas e só porque não tenho o empenho necessário para o fazer).
Pensei em tamanha façanha há já alguns dias mas só agora ganhei coragem para tanto. Cortei umas limas, pisei folhas de hortelã, umas pedras de gelo, rum e duas colheres de um açúcar tão amarelo quanto o meu sorriso deste final de tarde.
Estou sentado em frente ao portátil. Mais um trago… e outro. Arrepio-me. Estou pronto!
Ultimamente tive por tendência natural julgar a minha vida como algo de absolutamente improdutivo ou, no mínimo, inconsequente.
Formações e mais formações, cursos e mais cursos, simpósios, congressos, encontros… para acabar dando por mim a perguntar “para quê?”.
Esta semana algo de novo ganhou espaço no meu espírito. Comecei a interrogar-me mais sobre as pequenas coisas do dia-a-dia, as quais, habitualmente, adicionava ao rol das futilidades, percebendo agora que, uma vez ponderadas numa perspectiva mais abrangente, passam a fazer todo um novel sentido.
Lamento esta situação de desemprego prolongado, de instabilidade relacional no que ao às matérias do coração diz respeito. Continuarei a fazê-lo. Mas pergunto-me agora: ser-me-ia possível assumir em exclusivo as múltiplas deslocações do meu filho de e para a escola, idas quase diárias da mãe ao hospital, tratar diária e religiosamente dos meus cães, se estivesse a trabalhar ou numa relação emocional com cabeça, tronco e membros?
Mais: a partir da próxima terça-feira a minha filhota passará a ír duas vezes por semana ao Hip-Hop. Irei eu buscá-la à escola. Não sei como irei conseguir articular tudo mas tenho a certeza absoluta de que o vou fazer.
Na passada 2ª feira morreu-me o Chaka. De quatro amigos caninos resta-me apenas a Luka. A vida vai polvilhando o caminho com estas sacanices repletas de fel.
Num destes finais de tarde solarengos, desloquei-me ao miradouro dos Capuchos para ver o pôr-do-sol. Entre muita gente que afluíra ao local com o mesmo intuito, encontrava-se um casal com dois filhos. O mais velho deles, talvez com uns sete/oito anos, estava sentado na muralha do miradouro, pernas e braços traçados, aguardando o momento em que o horizonte engoliria o sol. Aproximando-se o ocaso, o pai desata num esbracejar histérico, bradando:
- Filho. Estão a roubar o sol! E agora? O que fazemos?
O filho, sem tirar os olhos de um horizonte mesclado de azuis e vermelhos, respondeu:
- Não, pai. O sol vai até ao fim do mundo e depois desaparece na terra do nunca. Amanhã nasce um novo.

Tenho recordado muitas vezes tal momento. A poesia tudo vence. Quem me dera ser capaz de fazer como o sol daquele menino. Mas poesia é apenas isso: poesia. A vida é a vida e, como experiência de aprendizagem que é, apresenta-se-nos muitas vezes cruel, dura, implacável.
Se é (também mas não só) por isso que tenho que passar… seja!
Ajudo os outros em tudo o que posso, de múltiplas formas. Quem me conhece sabe desta atitude voluntariosa. Se ando por cá com essa missão… óptimo.
Se são estes o meu karma e o meu dharma… perfeito!
Em última instância tenho por saldo que o universo me tem retribuído generosamente. Graças ao apoio incondicional da família e dos amigos não me tem faltado nada de verdadeiramente essencial nem, diga-se de passagem, muitas outras coisas supérfluas.
Sinto-me amado, gostado, apreciado, admirado, valorizado.
Exigir mais da vida, embora legítimo, não será exagero ou devaneio? Receio pensar na resposta.
No que a 1ª pessoa do singular puder ajudar a 1ª pessoa do plural, cá estarei, sempre e incondicionalmente, para todos.
Obrigado!

31 janeiro 2011

Um pouco de sol

As vagas enrolam a esforço, preguiçosas, desfazendo-se lânguidas nos cabeços dourados.
As dunas, pejadas de cardos e chorões, descansam dos rigores do Inverno.
Recosto-me na areia, entre alecrim, rosmaninho e pinheiros retorcidos pelo vento e pela maresia.
Deixo que o sol me preencha a face, ocupando o pouco que esta barba de Adamastor ainda permite.
Ando descuidado. A vida anda descuidada. Mais não faço do que olhá-la bem nos olhos e devolver a cortesia.
Não há "como", se não se tem "porquê".
Se o tempo o permitir, amanhã venho iniciar a época de caminhadas de borda-de-água.
Com um pouco de coragem talvez entre na água regeneradora.
Esta praia é o meu deserto e esta água o elemento que me expurga todos os males, qual bode expiatório da tradição judaica.
Se Deus trabalha por caminhos misteriosos, a mente humana nada lhe fica a dever, sobretudo no que diz respeito às múltiplas aptências que exibe quando se empenha em se auto-flagelar.
A razão escarnece de si própria com o mesmo embaraço risonho com que nos mascaramos quando nos estatelamos no chão em público. E o final, resignado, é sempre o mesmo. Até um dia... que não o de hoje.
Por ora deixai-me sorver um pouco mais de sol, um pouco mais de mar, um pouco mais de mim.

08 janeiro 2011

04 janeiro 2011

Barcelona - Apontamentos de viagem XVII

23.12.2010
Vôo previsto para as 17.55 horas.
Verá esta odisseia o seu fim?
Quero ir para "casa"!
Quero pegar na cana de pesca e ver-me dentro de água no Meco, a tentar os robalos natalícios.
Estou aqui a martirizar-me com algumas resoluções de ano novo.
Tenho muito que parar para pensar.
Olho para o lado e não consigo evitar o riso.
Até os guardanapos falam comigo.
Sou mesmo, mesmo cepo.
Estou tão saturado desta espera.
A mochila está tão cheia de roupa suja que nem chego aos livros que comprei. Não sei com o que me entreter. O ipod está a ficar sem bateria; a máquina fotográfica tem também a segunda carga nas lonas...
Pensei em aproveitar o tempo para enviar um sms de Natal aos amigos mas, fazê-lo a partir de Barcelona, não é boa ideia.
Acresce a tudo isto o facto de, apesar, de serem apenas 15,30 horas, o sol estar já tão baixo que entra pelas vidraças fumadas como um centurião em Roma depois de uma grande vitória.
É um convite à siesta ao qual custa dizer "não".
Quando o ócio se instala a imaginação ganha asas. É o grito de revolta da mente contra o imobilismo do corpo.
Resolvi contar o número de páginas que materializam estes meus apontamentos de viagem. São já vinte e oito. Ou direi "só vinte e oito?"
Uma núvem misericordiosa vem aplacar a força do astro-rei. Que alívio!
Maior alívio, neste momento, só consigo imaginar o regresso a "casa".

03 janeiro 2011

Barcelona - Apontamentos de viagem XVI


Barcelona - Apontamentos de viagem XV

22.12.2010
Convido-vos a sentarem-se comigo neste banco da sala de check-in.
Quando há dois ou três vôos que se juntam em matéria de horários, a easyJet é a loucura total.
Quem viaja mais já deve ter chegado à conclusão que esta companhia deu uma outra dimensão à expressão "o que é barato sai caro".
Claro que há sempre os casmurros - como eu - que insistem em dar o benefício da dúvida. Tenho a impressão que esta experiência me trará o necessário bom-senso. Quando planear viajar novamente é bom que me lembre de tudo isto, sob pena de ser promovido de casmurro a "casburro"...
Este terminal é uma torre de Babel. Gente de todas as raças padecendo de um mal que não escolhe caras: a bicha. Sim... a bicha e não a fila!!!
Um casal entra apressado. Atrás vem o puto, minúsculo, louro, rebocando uma mala maior do que ele.
Os pais estancaram no final da bicha mas ele, que vinha olhando para os pombos que haviam permanecido do lado de fora das vidraças, acabou estampado no rabo da mãe. Vá lá!... Podia ter sido pior.
Chamam para o autocarro. Chiça! Já não era sem tempo! Quatro horas e meia depois...

02 janeiro 2011

Sons


Les courants d'air
Grand Tourism

Barcelona - Apontamentos de viagem XIV

22.12.10
Vinte e duas palavras soltas

Porquê?
Lágrima
Almofada
Sorriso
Boca
Olhos
Silêncio
Areia
Mãos-dadas
Descalços
Momento
Eternidade
Fugaz
Inpotência
Incapaz
Infeliz
Ninguém
Dúvida
Cristalizado
Medo
Esperança

01 janeiro 2011

Eu e a Lua Feiticeira: James - Sit Down (2001 final live performance )

Eu e a Lua Feiticeira: James - Sit Down (2001 final live performance )

Luar anda especialmente produtiva. Surripio-lhe os James à laia de homenagem.

May the force be with you!

Sons


The thrill is gonne
B. B. King ft. Tracey Chapman

Barcelona - Apontamentos de viagem XIII



Barcelona - Apontamentos de viagem XII

22.12.2010
(+) Exposições e passeios.

Anteontem visitei uma exposição temporária no Arquivo da Coroa de Aragão: Francisco de Bórgia - Vice-Rei da Catalunha. 1539-1543.
Exposição muito bem montada, considerando a relativa exiguidade do espaço. Tirei uma fotos sem flash - assim como quem não quer a coisa.
Personagem muito interessante, que não conhecia, com ramificações a Portugal por via do matrimónio.
Ontem fui directo ao MUHBA - Museu de História de Barcelona.
O núcleo permanente baseia-se na intervenção e musealização do conjunto monumental Plaça del Rei, com particular incidência nos vestígios arqueológicos que datam da Pré-História à Idade-Média.
O museu está presentemente com uma exposição temporária extraordinária: Ja tenim 600! - La represa sense democràcia. Barcelona, 1947-1973.
Trata-se de um exemplo paradigmático de como, a propósito da aquisição de uma peça para o seu acervo - no caso, um automóvel Seat 600 - um museu pode efectuar um magnífico trabalho de investigação.
A exposição debruça-se sobre o movimento operário, o associativismo de bairro e outros modos de luta, visando sacudir a opressão dictatorial de Franco e atingir uma cada vez maior autonomia da Catalunha face ao governo central espanhol. Aborda-se igualmente o modo como algumas intervenções urbanísticas, a construção da fábrica da SEAT (cuja sigla, já agora, significa Sociedad Española de Automóviles de Turismo), e a realização de um Concílio Ecuménico Universal [?] em Barcelona durante o período cronológico em análise, pretenderam minorar a oposição social ao regime.
Uma vez mais: Muito bom!!!
De saída visitei a a exposição virtual montada no pátio do Museu Frederic Marès.

Uma boa solução a seguir quando se tem o edifício em remodelação e, portanto, encerrado ao público.
Após uma pequena pausa enchi-me de coragem e fiz-me ao Museu Picasso. Caminhei cheio de hesitações. Acontece-me quando sei antecipadamente que me dirigo para algo que me vai esmagar.
Eu e o Museu Picasso de Barcelona tinhamos uma relação idêntica à que tenho com os Açores: fica para amanhã!...
Chegando à entrada desvaneceram-se as hesitações. O museu apresentava como exposição temporária Picasso davant Degas. Deus me livre de perder as bailarinas e as prostitutas de Degas.
A exposição não se consegue descrever em poucas linhas, pelo que me vou abster de o fazer. Destaco apenas que, se dúvidas existissem sobre o facto de Picasso ter seguido ostensivamente a obra de Degas como inspiração e modelo para uma grande parte dos seus trabalhos, elas ficam completamente desfeitas pelo tête-à-tête entre obras de arte que esta exposição nos dá a fruir. Aliás, as palavras de Picasso com que os comissários abrem a exposição são claras: Si hay algo que se pueda robar, lo robo!
Pena ser tão teso. O catálogo da exposição, obra em grande formato e com uma impressão de luxo, custava apenas €35. Face à incógnita de não saber quando regressarei a casa, preferi guardar o dinheiro.
A exposição permanente apresenta uma disposição cronológica da obra de Picasso, dando igualmente muita informação biográfica.
Para quem goste deste mestre, este é mesmo um museu a não perder.

31 dezembro 2010

Barcelona - Apontamentos de viagem XI

Auto-retrato

Barcelona - Apontamentos de viagem X

22.12.10
Mas que aventura!
Regresso adiado de Domingo 19 para Quarta-Feira 22.
Agora adiado novamente para amanhã...
Ainda passo o Natal aqui.
Já não é a primeira vez que me acontece disto.
Mas que magna chatice andar com a mochila às costas, para trás e para a frente.
Hoje a coisa tornou-se ainda mais aborrecida em virtude de estar aqui pregado no aeroporto à espera que haja um número mínimo de "adiados" para encher o autocarro que nos levará ao hotel. Mas pensando melhor, talvez não venha a ser grande espera. O monitor mostra dezassete vôos cancelados pela EasyJet. Bem podem mandar vir autocarros...
À margem da brincadeira: espero muito, muito, muito conseguir passar o Natal em Portugal. Gostava de dar uma grande beija nos meus filhos.
É aguardar...

30 dezembro 2010

Barcelona - Apontamentos de viagem IX

Brinquedos...

... e gelados italianos.

Barcelona - Apontamentos de viagem VIII

20.12.2010
Museu Picasso também encerrado.
Resolvi percorrer o Bairro Gótico pelos meandros que ainda não conhecia. De seguida, e para poupar os pés, decidi voltar em direcção às Ramblas por zonas mais familiares. O local onde fiquei hospedado durante a primeira vez que cá estive mantém-se inalterado. Zona do porto, de marujada... les bas-fonds.
Escala obrigatória Bosc de les Fades (espécie de bar do Museu de Cera).
O ambiente recria isso mesmo: um bosque de fadas.
É uma coisa surreal, um misto de A Irmandade do Anel com As Crónicas de Nárnia. Vale sempre a pena revisitar.
A aventura, desta feita, consistiu em ter conseguido escrever estas linhas quase às escuras sem que o caderno tenha ficado qual baixo-relevo do Alto-Egipto.
Uma caña para retemperar energias e arrefecer as botas e os seus inquilinos.

29 dezembro 2010

Barcelona - Apontamentos de viagem VII





Barcelona - Apontamentos de viagem VI

20.12.2010
Bairro Gótico e Catedral.
Exposições e passeios pelas ruas.
O Museu da Cidade está fechado por ser Segunda-Feira. Parece não querer ser visto. Volto amanhã!?
Duas da tarde. Já?
Supermercado: uma embalagem de presunto, uma lata de cerveja e uma garrafa de água.
Padaria: Una barra (cacete).
Sim... porque a Easyjet não paga verdadeiramente tudo. ;-)
Esta zona não tem um banco que seja onde nos possamos sentar. Também assim se mede a acessibilidade de uma cidade.
Decidi vir comer para a escadaria da Catedral. Não dá muito bom aspecto, mesmo para um espiritualista profano como eu, estar a bebericar cerveja nos degraus de uma igreja. Mas prontos! Um Português enrascado é coisa que ainda está para ser inventada. E prova de que assim é, atente-se no que se passou de seguida.
Toca o telefone. A minha rica mãe. Queria saber o que era feito de mim, se tinha regressado a Portugal sem dar notícias. Enquanto lhe explicava o sucedido - que me tinham cancelado o vôo no Domingo, remarcado para Quarta-Feira, etc., etc. - não pude deixar de pensar: "Qualquer dia morro algures por esse mundo e só quando a minha mãe se lembrar é que os restantes darão também pela minha falta."
Terminei o telefonema e surgiu-me pela frente um jovem:
- "Desculpe. Percebi que é Português. Tira-me uma foto para recordação?"
Era Madeirense; Português; desenrascado.
A caminho de onde estou, ao percorrer lateralmente a Catedral, entrei na Capela de Santa Lúcia (padroeira da feira de artesanato natalício que tem lugar em frente ao templo durante esta quadra). Dá-me sempre muita paz.
É um local onde o turista apenas mete a cabeça para espreitar.
Capela modesta, atrás de grades, três ou quatro filas de bancos.
Aborrecem-me as velas eléctricas. Coisas que não entendo: vela é vela; fogo é fogo; luz é luz. Lâmpada não é vela; electricidade não é fogo; a luz é artificial.
Enfim!...
É hora de arrumar o caderno. Vou ver se me presenteio com um café (coisa que, por aqui, é quase sempre horrível).

28 dezembro 2010

Barcelona - Apontamentos de viagem V

20.12.10
Saio do quarto, ensonado.
Phones  nos ouvidos, aperto o blusão e percorro o corredor que me conduz ao ascensor. A carpete azul, pontilhada de pequenos quadrados brancos, e a sucessão de surrealismo encartonado que pende das paredes, dão à mancha uma sensação de vertigem que não apetece.
As portas do hotel abrem-se para um sol que me faz vacilar. Sorvo a luz e o calor, agradeço, rumo à estação de combóios.
Três paragens apenas até à Plaça de Catalunya, bem no coração da cidade.
A hora de ponta ficou para trás e as carruagens vão vazias. Sorrio ao lembrar a tradição segundo a qual, para nuestros hermanos, entre a Segunda-Feira e o Domingo há pouca diferença.
Pensei para comigo: "tenho que registar estes momentos."
Há muito tempo me apercebi não existir melhor forma de recordar um momento, uma imagem, um sentimento, o que for, do que fazê-lo através da escrita.
Como escreveu Gabriel García Márquez "Escrever é melhor do que viver!".
Como sou avesso a escrever em movimento, abandonei, no momento, a ideia.
Olhei para o exterior e vi a cidade aproximar-se rapidamente. Fachadas suburbanas; linhas de alta-tensão; barreiras de betão; graffitis, muitos, coloridos, quentes, frios; tudo entrecortando o céu azul, manchado por uma difusa névoa branca, como restos de um sonho.
Subitamente fez-se escuro. O combóio penetrou as entranhas da urbe e tudo ganhou um novo espectro.
Surge a estação. O tempo e o espaço abrandam.
No exterior uma jovem está de cócoras sorvendo as últimas páginas de um livro.
É difícil esperar pelo fim de um livro! Esperamos pelo combóio, esperamos por muitas coisas na vida. Os combóios chegam sempre, ainda que, por vezes, atrasados. O que esperamos da vida nem sempre chega. Talvez porque seja isso o que há a fazer: dela nada esperar.
Abrem-se as portas. Levanto-me. Mochila às costas...
Barcelona, aqui vou eu!...

26 dezembro 2010

Barcelona - Apontamentos de viagem IV

Altar mor da catedral de Barcelona

Barcelona - Apontamentos de viagem III

19.12.2010
Despedidas
Um último olhar por sobre o ombro para a Rambla.
"Adeus Barcelona!" exclamei mentalmente enquanto me encaminhava para a paragem do autocarro que me conduziria ao aeroporto.
No local, dois casais. Cedo deu para perceber que se estavam a despedir. Relembrei um episódio recente na estação da Fertagus no Pragal.
Se eu mandasse alguma coisa acabava com as despedidas.
Saí da bicha e dirigi-me para o mercado de antiguidades que se faz nos passeios da Plaça de Catalunya.
Renovei uma busca que me acompanha há quase dois anos. Procuro um terço que me chame e me diga: "Leva-me! Estou aqui por insondáveis mistérios. Cheguei cá não importa por que caminhos. O que necessitas saber é apenas que aqui estou por ti e para ti, para te aconchegar, para te afagar o peito, para suster o bater descompassado desse teu coração sem paz, para te ancorar na luz que a tantos ofereces mas à qual não te permites."
Já enverguei um terço com uma história própria, uma história de Veneza, uma história linda mas que não era a minha. Talvez por essa razão nunca o tenha sentido como "meu". Dele me despedi com o coração destroçado, mas não por ele.
Ainda não foi hoje que a demanda conheceu o seu final.
Lembrei as palavras do poeta Senegalês Amadou Sall, apostas numa foto da exposição que visitei hoje pela manhã:
- Tant qu'il y a le ciel, il y a toujours l'espoir qu'un oiseau y passe.
Virei costas. Acelerei um passo que mais não pretendeu senão fugir às lágrimas dos que se continuavam a despedir.
Disse novamente adeus a Barcelona.
O autocarro arrancou. Sentei-me abraçado à mochila. Enquanto a Melody Gardot me sussurava ao ouvido Deep within the corners of my heart, a cidade de Gaudi foi ficando para trás, sob um céu acobreado pelos últimos estertores do sol que, também ele, fazia as despedidas de mais um dia, um dos últimos deste Outono Catalão.


Deep within the corners of my heart
Melody Gardot

25 dezembro 2010

Barcelona - Apontamentos de viagem II

Mimo na Rambla

Barcelona - Apontamentos de viagem I

19.12.2010
A Rambla continua imparável. Uma catadupa de gente pelo passeio central, subindo ou descendo, tornando quase impossível ao mais afoito dos mortais tentar atravessá-la lateralmente.
Esqueci-me de reservar mesa para o almoço no Can Culleretes. Fiquei para a mesa das 15,30 horas. Entretanto, na esquina da mesma rua (Carrer Quintana) fica a Mikel-Etxea, uma taberna basca que apresenta uns pinchos fora-de-série e que preencheram a espera.
Torre das Comunicações
(Arq. Santiago Calatrava)
Montjuïc
Ontem à noite andei por Montjuïc. Vale muito a pena visitar. Os jardins, os equipamentos... tudo, tudo muito bonito. E a vida que por ali se leva... Aqueles arbustos devem ter muito que contar. É uma vertente de Barcelona a não menosprezar e a revisitar quando possível.
Não deixa de ser curioso como Barcelona parece ter sempre um pedaço mais para ver.
Não consigo evitar ser assolado por uma estranha sensação: a de que esta cidade - como provavelmente qualquer outra no mundo - não é algo de que se disfrute sózinho.
Tempos houve em que me dava um particular prazer palmilhar tudo no meu próprio passo. Já não é assim!
Estarei a ficar velho?
Estarei a ficar só?
Estádio Olímpico
Montjuïc

Entretém

Como o Natal é (por opção) sózinho, pelo segundo ano consecutivo, achei boa ideia vir aqui partilhar convosco os apontamentos de viagem feitos durante esta semana em Barcelona.
É um entretém como outro qualquer.
Vou dividir os textos em posts separados para não se tornarem maçadores. Ou publico-os durante vários dias. Ainda não sei.
Para já vou tratar dos meus cães.
Beijos e abraços.

Já agora (que sou um desprendido nestas coisas) Boas-Festas e Feliz Natal para todos.



Have yourself a merry little Christmas
Celtic Woman

14 dezembro 2010

Pausa para uma lufada de ar

Não!...
Não me aconteceu nada de mau. Estou atrapalhado com o meu tempo, com a minha vontade, com a minha inspiração, enfim... com a minha vidoca.
Tenho saudades do blog.
Tenho saudades de muitos de vós que não vejo há demasiado tempo.
Voltarei!...

04 dezembro 2010

BSO XIII



Set the fire to the third bar
Snow Patrol ft Martha Wainwright
Juntos ao Luar / Dear John (2010)

02 dezembro 2010

E para não parecer que estou demasiado cáustico...


Who's gonna save my soul
Gnarls Barkley

O que eu gosto desta canção...

Fáxavor de não mecher...


Com que então pensavam que só os construtores patos-bravos é que davam calinadas no belo Português?
Enganam-se!
Esta foto foi tirada num dos vários quartos da enfermaria do Serviço de Neurocirurgia de um hospital público da nossa praça.
(Não digo qual com receio que façam uma lobotomia a uma pessoa de família que lá tenho internada)
Como dizia o outro: E andou esta gente na universidade...

Sim... porque mecher no comando não é proeza ao alcance de qualquer um...

E assim se minimizam os números do desemprego em Portugal.

Considero-me um indivíduo particularmente atento às coisas que me dizem respeito, sobretudo se, ainda que muito remotamente, essas coisas envolverem o nosso Estado.
Inscrito que estava no Centro de Emprego do Seixal desde que fiquei desempregado há cerca de dois anos, fiz sempre questão de devolver todos os postais, postalinhos e postalões que me enviavam periodicamente a perguntar se continuava interessado na inscrição. Fui até, pasme-se, convocado para algumas acções de informação onde, sem qualquer vergonha pelo inequívoco desprezo manifestado pelos curriculos individuais, me quiseram ensinar a elaborar um Curriculum Vitae. Fui a todas... apesar da agonia.
Tendo mudado de domicílio (do Concelho do Seixal para o Concelho de Almada), desloquei-me hoje ao Centro de Emprego de Almada onde solicitei a alteração de morada. Responderam-me que o processo passaria por uma inscrição completamente nova uma vez que, por não ter devolvido um postal (O QUE É MENTIRA - MENTIRA - MENTIRA) em Dezembro de 2009, eu não me encontrava inscrito em qualquer centro de emprego. E tudo isto sem sequer ter ganho um Euro que fosse em subsídios de desemprego pois, por ter sido trabalhador liberal a emitir recibos verdes, nunca a tal mimo tive direito.
Fica um conselho a todos vós, extensível a todas as pessoas que conheçam na mesma situação:
- Confirmem periodicamente se a vossa inscrição continua em vigor. Estes marmanjos são capazes de tudo e mais alguma coisa, ainda que, para benefício das estatísticas, não hesitem em retirar das bases de dados o nome de uma pessoa perfeitamente qualificada e desesperadamente à procura de emprego.
Este ESTADO é uma vergonha e, infelizmente, alguns funcionários públicos, feitos lacaios, afinam pelo mesmo diapasão.

30 novembro 2010

Sons


Mudo
Perfume

Velha em paragem de autocarro

Sentada, de olhar perdido no vazio, aconchega no colo a carteira e o chapéu de chuva castanhos.
Leva uma mão à boca e corre todos os dedos em demanda de uma unha para roer. Desiste, exalando um suspiro de frustração que sai enrolado ao pescoço de uma baforada de ar quente.
Consulta o relógio.
Franzindo a tez, apura dois olhos míopes e procura, no fundo da rua, o autocarro que não chega.
Levanta a cabeça. Sorri...
Diverte-se com as nuvens que trabalham o azul do céu como uma renda de bilros. A lua, em quarto minguante, espreita lá de longe como que a dizer "gosto muito de ti!".
Pousando o queixo na palma de uma mão, cotovelo apoiado no joelho, pensa nos filhos que não lhe telefonam nem a visitam senão em ocasiões festivas. Procura um raciocínio que a console... Não estar perto de determinadas pessoas não significa que não as amemos. Por vezes, essa distância, esse estar apartado, faz com que as amemos ainda mais.
É isso!... Só pode ser isso!... O contrário seria impensável.
Interrompida pelo som familiar do transporte que chega, levanta-se do banco da paragem esboçando um esgar de dor. É só mais um pouco. Daqui a nada estará sentada no banco do autocarro, à janela, de olhar uma vez mais perdido no vazio.

Tenho saudades deste homem



Fernando Assis Pacheco
01.02.1937/30.11.1995



Variações sobre um fado

Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.

"Que me importa que batam à porta...
"Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.
Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
se lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?

in Cuidar dos Vivos

29 novembro 2010

Sons (de segunda-feira)


Speaking of Happiness
Gloria Lynne

[hoje apeteceu-me um oldie mais dengoso... Quero ir p'á (minha) ilha!!!!!!!!!!!!!!]

26 novembro 2010

Sons (por que será?)


Rock 'N' Roll Star
Oasis

Os "ers" e os "res" do nosso (des)contentamento.

Hoje fui deixar o meu xotas à escola e depois fui até ao Meco para matar o vício da pesca. Foi daquelas coisas que se faz em desespero de causa: o mar não estava minimamente em condições e a água era lusa, de um verde esmeralda cristalino.
Depois de um "para trás e para a frente" de cerca de três horas, achei por bem dar a campanha por terminada, até porque já contava com dois braços molhados e enregelados até aos cotovelos.
De regresso a casa e a um duche de água a escaldar, fiz-me à estrada.
Parei num stop no cruzamento da Aldeia do Meco para o Cabo Espichel e Alfarim. Como manda o código, abri bem a pestana em todas as direcções. Acto contínuo, dou de trombas com este magnífico cartaz que achei merecedor de uma foto.


Não foi bem o "assoalhdas" que me ficou na retina. O que me traumatizou verdadeiramente foi o "premuta-se".
Ora "pre"+"muta-se", seria um "antes" de "mutar"?
Se "mutar" significa mudar, será que o construtor pertendeu afirmar que está perparado e disponível para alterar a moradia de modo a encaixar prefeitamente nas perferências do cliente?
Estas mensagens subliminares não são preceptíveis assim a modos que logo à primeira. Para dizer a verdade, só me aprecebi da coisa enquanto esperava pelo almoço de entercosto guerlhado, entertido que estava na persença duma carzberg e duns termoços.
Esta ideia martelou-me o encéfalo de modo presistente até que precebi:
- Tenho que me matricular e ferquentar as novas oportunidades de modo a aprefeiçoar-me.
Se assim não for, estarei percocemente condenado.

25 novembro 2010

Sons


Dreaming with a broken heart
John Mayer

O jardim das emoções suspensas

Manhã.
A neblina envolve o ápice dos castanheiros.
Tudo é difuso e misterioso.
A natureza tem sempre o seu quê de indecifrável. Uma linguagem própria, inacessível, admiravelmente impenetrável.
Um salgueiro dispara em múltiplas direcções, como um jorro de lágrimas fotografado a baixa velocidade.
Bunganvílias pendem indiscretas, contorcendo-se no ar. O que não terão já presenciado?
As heras trepam os troncos, envolvendo-os como amantes enlaçados.
Bancos de jardim; canteiros de amores-perfeitos e imperfeitos. Afinal de contas, o que são estes? O que são aqueles? Ambos selvagens como as aroeiras que espreitam.
Um raio de sol desponta por entre o cinzento carregado das nuvens e, de repente, do chão germina uma imensa e labiríntica sombra. Sombra de encontros e desencontros, de caminhos e descaminhos.
O azul e o rosa das hortênsias ganham outra profundidade, um novo fôlego.
Somos muito pouco - se é que somos alguma coisa - aqui, esta manhã, neste jardim.

20 novembro 2010

19 novembro 2010

Uma conversa banal

- Ó estafermóide... o que tás a fazer assentado na cadeira?
- Então não me mandastes assentar?
- Ráis'partam a nha vida! Era assentar no papel a lista das compras que dssestes qu'ias fazer...
- Atão vê lá se tesplicas p'kassim num pssebo.
- Alevanta-te mediatamente e faz-t'à vidoca.
- Fónix!
- Que foi agora?
- Entropecei no gaspacho?
- No quê?
- No gaspacho aqui da porta.
- No é gaspacho meu bronco. É capacho.
- É assim: já me tou quaise a passar cuntigo. Baixa lá a bola qu'o garda-redes é anão. P'qué que não vais tu ao spemercado? Tomá lá cem êros e destroca.
- Mas tu falastes qu'ias tu... há-des cá vir dzer paír lá abaixo à Ti Gracinda cumprar mines qu'eu conto-te uma estória...
- Ó môr!... Tu é qu'és uma vdadeira persunal pessas coisas: és mais grande qu'eu e chegas às parteleiras mais altas onde tão os pitaxios e os mindoins. Inclusiver tás sempe mais à coca com a fractura, pa ver s'as gajas num s'inganam...
- Tu num podes cmer pitaxios. É uma faca de dois legumes. Tanto pode cair bem como mal. Depois é só dores de estôgamo e toca a mamar aspergics. Olha qu'eu mando-te mediatamente p'hospital e ficas lá cum a sanha numaro treuze mil, no meio dos toxicoindependentes e daquela gente cheia de orticárias, patites B, rabeulas, tromboclubites e outras doenças avenéreas.
- Ó pá. Num sejas inxorbitante. E outa coisa: cando chegares c'as compras, num poises o saco das mines em cima do capom do mcedes p'qu'aquece as garrafas e mancha a pintura. Depois lá tem aqui o moiro qu'ir outa vez c'o carro po stander.
- Vai-te catar!
- Só se te sentares nos artelhos e pdires cum munto amor.

Sons

Hoje sinto-me (escalavrado, mas) groovy.


I'd like to
Corinne Bailey Ray

Auto-censura

Não me apeteceu guardar o "Valha-nos Jesus" e, vai daí, apaguei-o.
O lápis azul atacou pela primeira vez neste blogue. Hmmmm... curioso precedente. Espero que seja uma vez sem exemplo.

16 novembro 2010

Eu e a Cidade: AO MAIS ALTO NÍVEL

Eu e a Cidade: AO MAIS ALTO NÍVEL: "Hoje a minha amiga Paula, que está sempre muito atenta, mandou-me um email acerca da “febre do mestrado” que tem assolado o nosso país nos ..."

15 novembro 2010

O que será que será?...

Não se passa nada de extraordinário a não ser o facto de me encontrar muito cansado. Mas nem por isso tenho descurado o meu caderno de notas.
Voltarei!

10 novembro 2010

Desafio-vos a não rir.



Peço desculpa por algumas calinadas mas a legendagem não é da minha responsabilidade.
Heil Hitler!

09 novembro 2010

Enganou-se no comprimido.



Será que o miúdo se enganou no comprimido e foi ao frasco do amobarbital sódico? De repente deu-lhe para este chorrilho de verdades...
Só pode!...

08 novembro 2010

Praia da Fonte da Telha - fotos.

Há cerca de um mês (re)descobri a minha velhinha Nikon analógica encostada a um canto. Vasculhei o estojo e dei com dois rolos de fotografia fora de prazo. Um cor e um pb.
A máquina estava sem pilhas...
A tarde estava sorridente e decidi fazer mais uma das minhas caminhadas no baixa-mar.
Fotografei, mandei revelar as películas e passar para DVD. Nunca mais me lembrei de as ir levantar... até hoje.
Cá vão algumas.












É o fim do mundo

Acabo de ouvir (em ante-estreia radiofónica) o Carlos do Carmo a cantar You make me feel so young.
Por amor da santa. Se eu chegar a velho e cair em tamanha falta de bom senso, chamem o INEM, metam-me num espartilho de varetas e internem-me no Júlio de Matos.
Ó homem: deixe-se estar sossegado a cantar fado pois o seu estilo, goste-se ou não (eu gosto), é inconfundível.


Fado da saudade
Carlos do Carmo

07 novembro 2010

Exposição ao Ministro da Agricultura.

Na passada sexta-feira ao final da tarde tive que me deslocar ao Algarve.
Ia com pressa.
Sem combustível para realizar os 600 kms da viagem, parei para abastecer. Introduzi mal a mangueira no bocal do depósito e um jorro de gasóleo ensopou-me a perna esquerda das calças. Diz que isto de introduzir incorrectamente e de molhar as calças é coisa normal quando se vai para velho.
Roguei umas pragas mas lá segui viagem.
Algum tempo depois o cheiro do gasóleo tornou-se insuportável. A solução da janela aberta ajudou a minimizar o pivete mas o frio era igualmente proibitivo. Resolvi voltar a parar noutra estação de serviço e esfregar as calças com água para ver se o problema se resolvia. Sem sucesso.
Entre Alcácer do Sal e Grândola voltei a abrir a janela e a coisa resolveu-se mas não da forma esperada. É que um bafo de cheiro a estrume de vaca invadiu-me o carro de um modo tão triunfal quanto a entrada dos nazis em Paris durante a II Guerra Mundial.
Em desespero, lembrei-me que trazia a mochila da pesca na mala do carro. Dentro dela anda sempre um par de calças impermeáveis.
Nova paragem em Almodôvar para trocar de indumentária. As calças impermeáveis azuis ficaram-me a matar com a camisa de xadrez que levava vestida.
Pelo acima exposto pergunto-lhe, Senhor Ministro:
- Um moçoilo assim a modos como eu, vestido de calças impermeáveis e camisa de xadrez, com as botas a cheirar a gasóleo e o carro a bosta de vaca, é elegível para obtenção de um subsídio de jovem agricultor?
Se for esse o caso, agradecia um contacto por parte dos serviços competentes.
De V. Exa., atentamente.

Sonhos amargos - doces realidades.

São múltiplas as realidades que povoam a minha existência. As velhas e as novas. Entre aquelas, as que carregam o deve e o haver do passado. Entre estas, as que habitam os meus sonhos desde que, recentemente, dei em deles me lembrar quando acolho cada um dos múltiplos despertares que me ocupam a noite.
Não sei - não quero saber- se os sonhos têm algum significado.
Sonhei contigo em Paris, sonhei contigo algures por cá. Sonhei que nem em sonhos demos certo.
Acordei exausto para mais um dia sem o sal da vida.
Regrido no tempo, em desespero, procurando um qualquer ponto de recomeço.
Esta semana, durante uma das minhas sessões de Filosofia para (ou com) Crianças, os meninos escolheram falar sobre o que é um amigo.
Durante o nosso diálogo, e perante alguma indisciplina repentina, achei que seria uma boa altura para fazer um ponto de ordem à sessão através de um resumo da linha de raciocínio que vinha resultando de múltiplas contribuições. Um menino havia dito:
- Os amigos são meninos e meninas como nós.
Ao que lhe perguntei:
- E os teus bonecos? São teus amigos?
Respondeu:
-Não! Os amigos têm que ser pessoas.
Voltei à carga:
- E os meninos que têm um cão? Acham que o cão não é amigo?
Responderam todos:
- Siiiiiiiiimmmm!
E eu:
- Então... mas o cão não é uma pessoa!...
Responderam-me:
- Mas o cão é a sério e os bonecos são a brincar.
Perguntei:
- E será que todos os amigos a sério têm sentimentos? Isto é (expliquei) o cão, por exemplo, mostra alegria ou tristeza?
A maioria respondeu:
- Siiiiiiiiim!
Voltei à carga:
- E os bonecos? Não riem nem choram?
Responderam alguns:
- Os que têm pilhas choram e falam. Mas não são a sério.
O meu resumo/pergunta - nesse momento - fazia-se do seguinte modo:
- Em vosso entender, um amigo tem que ser real, independentemente de ser pessoa ou animal. Certo?
Uma menina levantou o braço pedindo para responder. Dei-lhe a palavra.
- Eu acho que os bonecos são a brincar mas também são nossos amigos. E há outros amigos que não são a sério mas também não são a brincar, e que têm sentimentos.
E eu (atrapalhado):
- Achas que sim? Dá lá um exemplo.
E ela (muito expedita):
- Os amigos todos que eu tenho na minha cabeça! Também riem comigo e às vezes choram quando eu ralho com eles.

Julgo ser pertinente acrescentar que estava a trabalhar com crianças do 1º ano (1ª classe).
O meu pai ainda esta semana me havia perguntado se este meu trabalho de voluntariado junto de dez turmas (do pré-escolar ao 4º ano) de uma escola básica iria ser pago. Respondi-lhe negativamente. Estava enganado. Há coisas que não têm preço.

E foi este o meu ponto de recomeço desta noite.
Não estou completamente desprovido de esperança. Aqui e ali há sempre um centelha capaz de nos fazer levantar do chão. E esse "aqui e ali" pode muito bem ser o raciocínio inequívoco de uma criança.


Soul Provider
Grand Tourism

04 novembro 2010

03 novembro 2010

A minha velhice em versão Almodovar

- Amor?
- O que foi? (Rái´s parta o velho!...)
- Trazes-me o saquinho de água quente? Doem-me as mazeuas todas até à espinau medua.
- Levanta o cu da poltrona e vai lá tu buscá-lo!
- Mas... amorzinho... Está a dar o Benfica na teuevisão.
- Já se te acabou o "Corega"?
- Porquê?
- É que tens a dentadura solta e estás outra vez a comer os "éles": "teuevisão"; "mazeuas"; "espinau"; "medua"...
- Vá uá paixão. Já não ganhamos o campeonato há 25 anos...
- Estou a "uimpar" a "uouça"... (riso escarninho)
- Isso... goza-me. Bruxa!!! Quando te vieres cá encostar à noite, mando-te ir dormir com a vassoura.
- Olha... essa p'lo menos ainda tem pau.
- Cabresta!
- Toma lá a porcaria do saco. Mas não te acomodes muito porque quando acabar o jogo tens que ir comigo ao Colombo.
- Ao Cuombo??? A mulher endoidou. E eu uá vou a estas horas pa Uisboa?
- Tenho que ir lá comprar uma mala que vi a semana passada.
- E para que queres a maua? Vais de viagem?
- Pouco barulho que incomodas os vizinhos. Prepara a carteira e não bufes muito senão distraio-me nas garrafas e tempero-te a salada com "Super Pop Limão".
- Não... ai não... queres ver?... ai... ai... isto não está a acontecer. O Benfica a perder com o Estreua da Amadora... Eu morro aqui sentado.
- Essa sorte não tenho eu!...
- E que história é essa de "prepara a carteira"? A maua é p'ra mim? Vai à uata onde escondes as notas graúdas.
-Nem pensar. Sabes muito bem para o que é esse dinheiro!
- Pfffffff! Uma uipoaspiração. Vê mas é se abres a pestana. Para te sugar essa gordura toda tinhas que mandar vir uma grua para te suspender e três aspiradores dos que se usam em prospecções subaquáticas.
- Parabéns! Acabas de assegurar duas semanas sem almoço. Velho tinhoso!
- Pois sim... e eu rauado com isso.
- Eu vou sozinha ao Colombo. Assim como assim, mais vale ser eu a levar o carro porque tu - meu traste imprestável - já nem conduzir sabes.
- Achas?
- Eu não acho. Eu tenho a certeza! Ainda esta manhã, a figura que fizeste ao arrancar com o carro aos solavancos... a vizinhança toda a rir...
- A rir mas era de ti.
- De mim? Como de mim?
- Do gatafunho de baton que fizeste da boca à testa quando eu arranquei com o carro. Quem te manda pintar os uábios com o carro em andamento?
- Não me digas que foi de propósito para eu me esborratar toda?
- Honestamente?
- Sim... responde.
- Bem... para dizer a verdade a ideia era a de ver se te conseguia fazer bater com a testa no pára-brisas. Mas assim também serviu!
- Piolhoso!
- Também te adoro!
- Ranhoso!
- Amo-te!
- Múmia decrépita!
- Vai tu!

02 novembro 2010

A culpa não será do photoshop

Ainda a caminhada à Peninha. Eu e o meu grande amigo Jorge.
Lá íamos nós palmilhando tranquilamente os caminhos florestais que nos conduziriam ao destino pretendido, quando se misturou gente de um outro grupo de caminheiros.
Mesmo à nossa frente, vá-se lá perceber por que artes, (a floresta tem destas coisas misteriosas), interpôs-se uma fulana que, apenas para começar, nos colocava imediatamente perante o seguinte dilema: como é que esta personagem se conseguiu meter dentro das calças?
Se as ditas cujas, pretas, de sarja, pudessem comunicar, fá-lo-iam num misto de grito/gemido/carpido capaz de fazer chorar os eucaliptos que nos delimitavam a marcha.
Não fossem as conversas de circunstância dentro do grupo e, tenho a certeza absoluta, ouvir-se-ia o ranger das costuras.
O (des)interessante é que a rapariga quase não tinha peito. O que lhe faltava no primeiro andar sobrava no rés-do-chão.
As nádegas (meu Deus... aqueles colossais nadegueiros) oprimiam de tal forma o tecido que, ao criar um conjunto incontável de pregas, formavam dois verdadeiros blocos de massa folhada.
Um pouco assustado com a possibilidade de alguma daquelas tachas que decoram os bolsos poder, de repente e sem qualquer aviso prévio, sair disparada na nossa direcção (não exagero se vos disser que o impacto entre os olhos de um tal projéctil, à velocidade com que seria expelido, seria motivo para uma morte fulminante), sugeri ao Jorge que mudássemos de posição na comitiva. Respondeu-me "que não!". Na sua opinião tudo aquilo não passava de um simples fenómeno de transferência de massas e que eu era demasiado alarmista, e coiso e tal e tal e coiso...
Lá anuí em continuar, mas sempre a rezar aos meus anjos da guarda.
Pelo menos numa coisa eu e o Jorge estivemos de acordo: era um problema de massa (para mim... folhada).
Chegados à porta do santuário, para meu deleite e olhar invejoso dos restantes presentes, o Jorge fez saltar da sua cartola de primeiros-socorros duas garrafas de Super-Bock que bebericámos com requintes de malvadez.
Enquanto dois elementos do tal outro grupo trocavam impressões sobre um qualquer curso de Photoshop, eis que chega Miss massa folhada e, dirigindo-se a um deles, diz:
- Môr... depois quero que me ponhas linda em todas as fotografias.
Resposta pronta:
- Queres umas mamas maiores e/ou um rabo mais pequeno?
Abrenúncio!!!
Visivelmente incomodada com a apresentação pública que o marido (?) havia feito sobre o deve e o haver da mulher, lançou-lhe um olhar fulminante, carregado de promessas de longa e penosa austeridade sexual.
- Eu disse "bonita". Não me referi a mexer em mais nada porque eu sou booooaaaaa, tá?
O rapaz lá foi encolhendo os ombros, mal dizendo a opção pelo curso básico de Photoshop. Devia, isso sim, ter tirado uma Licenciatura em Artes gráficas ou, melhor ainda, Cirurgia Plástica.
Escondemos as gargalhadas pois ninguém de bom-senso se ri na cara de uma mulher com um bastão de alumínio na mão.
Uma coisa é certa: a pretexto de um atacador mal apertado, na descida fiquei um pouco mais para trás.
Não fosse o capeta tecê-las!...

01 novembro 2010

Uma esquina de passeio.

Uma esquina de passeio como tantas outras...
O lancil corre em cotovelo, carregando as lordoses impostas pelo pisar e repisar constantes de pneus de automóveis mal estacionados.
Um ecoponto saturado, imundo, mantém alguma dignidade graças à lâmpada fundida de um candeeiro de rua que desistiu de iluminar.
A tristeza paira dominadora, saturando o ar, exibindo o seu véu obscuro de forma magestática.
Aqui, um televisor de cinescópio, esventrado, resignado à sua obsolescência e à ingratidão de quem dele disfrutou.
Ali, um novelo indecifrável de camisolas de malha e latas de conserva, numa promiscuidade de fibras e gorduras dificilmente suportáveis.
Acolá, um pacote de cereais acolhe agora uma fralda de criança.
Uma boneca desmembrada jaz de costas na calçada, contemplando as estrelas. A seu lado, mas irremediavelmente apartado, um braço de borracha, a palma da mão virada para o céu, os dedos entreabertos, suplicando o abraço e o colo de meninas de outrora, agora feitas mulheres.
Um reposteiro carmim repousa perigosamente entre o passeio e o asfalto. Exibe com orgulho os berloques que rematam o debruado de um dourado que perdeu o fulgor. Sob a sua cobertura, um rafeiro sem brilho nos olhos prepara-se para a noite, sacundindo sarna e pulgas uma última vez antes de se enroscar sobre um chão molhado, frio, inóspito, tal como a vida para a qual foi parido sem voto na matéria.
As luzes de um carro que passa descobrem duas órbitas brilhantes num vulto que se encontra encostado ao vidrão. Um gato. Ali está... imóvel, impávido. Não se percebe se vencido e conformado, se expectante e determinado.
Uma rajada de vento levanta no ar uma espiral de maus-cheiros, sacos de plástico, papéis com figuras - pedaços de um baralho que esta noite joga as suas últimas cartadas.
Estou confuso!
O vento troca-me as ideias com a mesma facilidade com que baralha as cartas que se contorcem sobre si, enrolando pedaços da noite.
Levanto-me dos degraus de mármore em que me encontrava sentado, aspirando mais uma nuvem de fumo de um cigarro que desejei mas não fumei.
Rezo por alguma paz, peço luz na minha vida...
Afinal de contas só Deus sabe aquilo que nos está reservado... ao virar de mais uma esquina.

Sons


Walk on
U2

Ironicamente lixo

Por vezes não consigo rever-me noutra imagem que não a de lixo. Não no sentido de lixo limite, sem apelo nem agravo, sem outra esperança possível a não ser a ser a da sua  própria impossibilidade. Sinto-me como lixo deitado fora com displicência, de forma precipitada. Lixo resultado de subaproveitamento.
Sou lixo com uma licenciantura, duas pós-graduações e um mestrado. O que importa isso do exercício contínuo do intelecto. O que importa enveredar por múltiplas áreas disciplinares? O que interessa frequentar cursos de Mandarim, palestras de Antropologia e Sociologia? De que valem vinte anos de experiência profissional e ser autor de projectos pioneiros na área da museologia e da museografia? De que me serviu publicar trabalhos?
Tudo ponderado eu sei bem qual é a resposta. Serviu-me para ser quem sou. Para andar na rua de cabeça erguida. Para honrar aqueles a quem devo o "lixo" que sou e a quem, apenas de forma muito pálida, faço justiça.
Os meus pais, os meus avós, os meus tios João e Carlos. Nunca - MAS NUNCA - serei lixo suficiente para fazer parte de semelhante panteão.
Eu sou o que sou e se não estiverem contentes tentem reciclar-me. Experimentem só!...


Trash
Suede
 

is where my documents live!