Vim ver o mar, intrometer-me entre a falésia e a água, caminhar sobre as arestas da duna que a maresia castigou, descobrir para que lado suspira o vento e deixar-me acariciar.
Fecho os olhos e o vento é agora as tuas mãos no meu rosto. Mãos que só assim são as tuas. Fossem elas reais e ser-me-iam já estranhas.
O dia vira-me a cara e eu faço-lhe o mesmo, mas apenas para encontrar os teus olhos e neles estampado o sol.
Não te rias de mim, dos meus vazios, das coisas que não compreendo.
Um dia procurarás em vão por mim a teu lado, numa cama despida de amor, sem outro aconchego que não a memória de um beijo tardio. A recordação de uma almofada feita berço de suspiros, esgares de prazer e juras de amor.
Não há qualquer regozijo. Apenas um laivo de intuição. São coisas que não se explicam... apenas se sentem, desprovidas de sentimento, de emoção, de quaisquer juízos de valor.
Uma brisa costeira arranca odores a pés rasteiros de rosmaninho e o ar ganha laivos de primavera marítima.
Uma raposa assome-se de focinho no ar, farejando o pólen.
As andorinhas tecem teias de elegância em contra-luz.
Um pica-pau, distante, martela um pinheiro, como alguém batendo à porta do meu desconcerto.
Desço a duna e enraízo os pés na areia grossa. Deito-me de costas e fico de olhar perdido no último dos azuis. Mas o apelo do mar é sempre mais forte. Em menos de nada estou dentro de água, nadando, sem rumo, sem pressa.
O tempo passa lenta mas imparavelmente, entre cada par de braçadas. Sinto-me arrefecer. Saio de dentro de água, arrepiado.
A luz desvanece-se. Alargo o passo, fugindo à noite.
Caminho fazendo a revisão do dia, a revisão da matéria dada. O que foi que aprendi hoje? Aflige-me pensar que a resposta é "nada".
Mas o que sei eu?
Muito sou, precisamente porque pouco sei.
É isso!
Nada como um pensamento reconfortante para justificar a impossibilidade de racionalizar. Mas ainda bem: a razão é falaciosa.
Revisitarei este assunto... a seu tempo. Não hoje, não agora, não na presença de um copo vazio.
23 maio 2011
21 maio 2011
Resposta à partícula M
Prateadas como a luz do luar
Aos cardumes, aos magotes.
Rodopiam em uníssono
Abrindo espirais de luz
Numa dança irrepetível,
Abraçam o azul do mar,
Odaliscas de azul riscadas.
Tentação de Verão,
Espalham um aroma próprio.
Fervilhando, ariscas,
Incandescentes,
Crepitantes.
Arrepio de sal no lombo,
Rolando na brasa,
Encharcando uma fatia de broa,
Saciam a fome aos pobres.
Aquecem-nos o coração,
Riem-se no prato,
Iluminam-nos a mesa.
Refiro-me a quê?
Aos cardumes, aos magotes.
Rodopiam em uníssono
Abrindo espirais de luz
Numa dança irrepetível,
Abraçam o azul do mar,
Odaliscas de azul riscadas.
Tentação de Verão,
Espalham um aroma próprio.
Fervilhando, ariscas,
Incandescentes,
Crepitantes.
Arrepio de sal no lombo,
Rolando na brasa,
Encharcando uma fatia de broa,
Saciam a fome aos pobres.
Aquecem-nos o coração,
Riem-se no prato,
Iluminam-nos a mesa.
Refiro-me a quê?
18 maio 2011
Como o vento que sussurra entre as folhas de uma árvore.
A vizinha do lado vocifera. O marido (ou lá o que seja) responde em surdina.
Não me apetece esta agonia do desentendimento entre pessoas.
Bebi um copo de vinho. Apetece-me um ar que não o doméstico. O ar de casa é sempre aquele que o nosso próprio estado de espírito constrói. Nem puro nem nefasto. Ele há momentos em que a paleta da vida não nos quer oferecer outra cor senão o cinzento.
E a gritaria continua...
Melody Gardot no leitor de cds. Pode ser que a vibração de Love me like a river does ajude a refrear o conflito.
Vou para a porta das traseiras e acendo um bidi. Gosto deste desafio de manter incandescentes os laivos de tabaco enrolados em folha de diospireiro.
Eu e a minha partícula M estivémos a trocar galhardetes no FB. Esta mulher, não tendo o condão da omnipresença, surge-me sempre disparada, sabe-se lá vinda de onde e através de que mistérios, nos momentos em que me faz falta uma laracha.
É bonita a sensação de cumplicidade que desenvolvemos com certas pessoas. Tenho para mim que um legítimo propósito na vida poderia muito bem ser o de conseguir semelhante estado de alma relativamente a todas as pessoas que cruzam a nossa existência terrena.
Hoje à tarde sentei-me numa cadeira com um pedaço de papel colado nas costas, com os seguintes dizeres: Universidade Nova de Lisboa - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Melhor Mestre em Museologia / 2010.
Celebrou-se o 33º aniversário da FCSH da UNL, assinaram-se protocolos, discursaram Secretário de Estado, Reitor, Director...
Perdi-me numa abstracção total. Na minha mente desfilaram em silêncio professores e colegas de mestrado. Não tenho a menor dúvida de que aquele diploma de Mestrado que recebi é deles também. Desprezo lugares-comuns. Nem faria qualquer sentido. Neste momento estou aqui a escrever de mim para mim.
Teria eu alcançado com tanto empenhamento e tamanho prazer a meta que tracei? De certeza que não! As pessoas passam por nós e nós por elas. O ser humano é duma permeabilidade extrema. E ainda bem que assim é. Bebemos dos outros enquanto, simultaneamente, nos damos a beber.
Escrevi algures que é no solo da partilha que melhor germinam as sementes do conhecimento.
É indelével a amizade, a troca de vivências sociais, culturais e académicas que experimentei, sobretudo durante o ano curricular do curso. Alguns ficaram, compagnons de route, outros seguiram os seus caminhos sem se terem demorado mais do que aquilo que cada um de nós achou necessário.
Por muito que um dia julgue tê-los esquecido, haverá sempre algo deles em mim, algo que transcende o nosso entendimento imediato das coisas. Uma carícia que não se vê mas que se sente, tal como o vento que sussurra entre as folhas de uma árvore.
Não me apetece esta agonia do desentendimento entre pessoas.
Bebi um copo de vinho. Apetece-me um ar que não o doméstico. O ar de casa é sempre aquele que o nosso próprio estado de espírito constrói. Nem puro nem nefasto. Ele há momentos em que a paleta da vida não nos quer oferecer outra cor senão o cinzento.
E a gritaria continua...
Melody Gardot no leitor de cds. Pode ser que a vibração de Love me like a river does ajude a refrear o conflito.
Vou para a porta das traseiras e acendo um bidi. Gosto deste desafio de manter incandescentes os laivos de tabaco enrolados em folha de diospireiro.
Eu e a minha partícula M estivémos a trocar galhardetes no FB. Esta mulher, não tendo o condão da omnipresença, surge-me sempre disparada, sabe-se lá vinda de onde e através de que mistérios, nos momentos em que me faz falta uma laracha.
É bonita a sensação de cumplicidade que desenvolvemos com certas pessoas. Tenho para mim que um legítimo propósito na vida poderia muito bem ser o de conseguir semelhante estado de alma relativamente a todas as pessoas que cruzam a nossa existência terrena.
Hoje à tarde sentei-me numa cadeira com um pedaço de papel colado nas costas, com os seguintes dizeres: Universidade Nova de Lisboa - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Melhor Mestre em Museologia / 2010.
Celebrou-se o 33º aniversário da FCSH da UNL, assinaram-se protocolos, discursaram Secretário de Estado, Reitor, Director...
Perdi-me numa abstracção total. Na minha mente desfilaram em silêncio professores e colegas de mestrado. Não tenho a menor dúvida de que aquele diploma de Mestrado que recebi é deles também. Desprezo lugares-comuns. Nem faria qualquer sentido. Neste momento estou aqui a escrever de mim para mim.
Teria eu alcançado com tanto empenhamento e tamanho prazer a meta que tracei? De certeza que não! As pessoas passam por nós e nós por elas. O ser humano é duma permeabilidade extrema. E ainda bem que assim é. Bebemos dos outros enquanto, simultaneamente, nos damos a beber.
Escrevi algures que é no solo da partilha que melhor germinam as sementes do conhecimento.
É indelével a amizade, a troca de vivências sociais, culturais e académicas que experimentei, sobretudo durante o ano curricular do curso. Alguns ficaram, compagnons de route, outros seguiram os seus caminhos sem se terem demorado mais do que aquilo que cada um de nós achou necessário.
Por muito que um dia julgue tê-los esquecido, haverá sempre algo deles em mim, algo que transcende o nosso entendimento imediato das coisas. Uma carícia que não se vê mas que se sente, tal como o vento que sussurra entre as folhas de uma árvore.
15 abril 2011
Beethoven ft. Perez Prado
E depois venham-me cá com histórias que existem gaps geracionais que impedem as crianças de gostar de música clássica e que as modas prevalecem sobre a qualidade. Dêm-me 3 minutos numa sala com miúdos e eu explicar-lhes-ei como o Rap ou o Hip-Hop são para a sociedade de hoje tão revolucionários como o foi a música de Wagner no seu tempo. Ou como o arroz de favas do nosso Eça era tão à frente como esta junk food que por aí grassa, mas muito mais saudável. Ou ainda, como o grafitti tem tanto de inovador, de artístico e de contestatário e rebelde como o movimento futurista do início do século XIX.
Dêem-me uma escola nova para os nossos filhos...
12 abril 2011
A HISTÓRIA DE UM DIA
A abóbada da tarde mais uma vez acaba
o sol de a fechar sobre a minha diária aventura
Viram-no partir pontualmente à mesma hora
quando num pouco de dia a um canto sempre a um canto
já eu tinha conseguido arredondar
uma íntima ampola de som para a palavra definitiva
Ia mesmo soltá-la eu que todo o dia fui para ela quando
ele me deixou e foi abrir outras portas
erguer verticalmente caídas esperanças
e passar novas mãos por tantas faces mortas
Só me resta recolher o meu rebanho de pensamentos
com um vago rumor de guizos
enquanto à beira-mar os camponeses deixam
palavras não aladas cair na água morta
Morro irremediavelmente nesses pensamentos
que ainda agora o sol iluminava
enquanto eu os estendia e os recolhia
e os orientava numa direcção que convinha
e os precipitava sobre o fumo de uma casa
sobre um buraco de luz ou uma coluna de fumo
mais volúveis que um bando de pássaros
Morro mais uma vez criticamente completo
Todos os gestos
carregados com vinte e quatro horas de história
de ventre ferido na aventura do restolho
petrificaram inevitavelmente
na face orientada de uma estátua
aqui ou noutro jardim
Todo o caminho é de regresso
Amanhã serei outro:
lavarei os dentes com toda a solenidade
como antigamente meu pai antes das grandes viagens
enquanto alguém no espelho
se encarregará de olhar pelos meus olhos
Assim sou passado de dia em dia
confiado pelo dia que parte ao dia que chega
não venha o sino que ao longe toca perturbar
as linhas de um rosto que recompus
e pus de pé na atmosfera doméstica
Fechar um postigo pode ser um gesto cheio de significado quando
na arrumada paisagem quotidiana
a expectativa marcada pela funda inspiração
nos revela duas ou três mãos
postas sobre a colina
Amanhã serei outro
Ruy Belo
Aquele Grande Rio Eufrates
o sol de a fechar sobre a minha diária aventura
Viram-no partir pontualmente à mesma hora
quando num pouco de dia a um canto sempre a um canto
já eu tinha conseguido arredondar
uma íntima ampola de som para a palavra definitiva
Ia mesmo soltá-la eu que todo o dia fui para ela quando
ele me deixou e foi abrir outras portas
erguer verticalmente caídas esperanças
e passar novas mãos por tantas faces mortas
Só me resta recolher o meu rebanho de pensamentos
com um vago rumor de guizos
enquanto à beira-mar os camponeses deixam
palavras não aladas cair na água morta
Morro irremediavelmente nesses pensamentos
que ainda agora o sol iluminava
enquanto eu os estendia e os recolhia
e os orientava numa direcção que convinha
e os precipitava sobre o fumo de uma casa
sobre um buraco de luz ou uma coluna de fumo
mais volúveis que um bando de pássaros
Morro mais uma vez criticamente completo
Todos os gestos
carregados com vinte e quatro horas de história
de ventre ferido na aventura do restolho
petrificaram inevitavelmente
na face orientada de uma estátua
aqui ou noutro jardim
Todo o caminho é de regresso
Amanhã serei outro:
lavarei os dentes com toda a solenidade
como antigamente meu pai antes das grandes viagens
enquanto alguém no espelho
se encarregará de olhar pelos meus olhos
Assim sou passado de dia em dia
confiado pelo dia que parte ao dia que chega
não venha o sino que ao longe toca perturbar
as linhas de um rosto que recompus
e pus de pé na atmosfera doméstica
Fechar um postigo pode ser um gesto cheio de significado quando
na arrumada paisagem quotidiana
a expectativa marcada pela funda inspiração
nos revela duas ou três mãos
postas sobre a colina
Amanhã serei outro
Ruy Belo
Aquele Grande Rio Eufrates
25 março 2011
24 março 2011
Destinos
Algum dia, em alguma parte, em qualquer lugar,
encontrar-te-ás a ti mesmo e essa, só essa,
pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas.
Pablo Neruda
Times Like These (Acoustic Version)
Foo Fighters
encontrar-te-ás a ti mesmo e essa, só essa,
pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas.
Pablo Neruda
Times Like These (Acoustic Version)
Foo Fighters
21 março 2011
Dia do Pai 2011 - Rabo de Peixe Margem Sul
A cabra cega das maçãs (com as costas feitas num ponto de interrogação e segurando um saco de gelo com a mão direita).
Quando as mães são de mão-cheia, ser pai é facílimo! ;-)
Quando as mães são de mão-cheia, ser pai é facílimo! ;-)
18 março 2011
17 março 2011
Uma noite
Depois de mais uma estirada trôpega e vacilante, ele sucumbiu ao peso da lua cheia que iluminava o céu da aldeia. Deixou-se ficar sentado na valeta, de braço-dado com a estrada poeirenta.
Ela passou em galope veloz, montada na garupa da sua soberba.
Ele sorriu.
Um dia – pensou – um dia a humildade estampar-se-á na tua vida como cinco dedos na cara.
Soergueu-se e procurou o rumo de casa. Pensou num banho quente, no velho cadeirão coçado e num livro de poesia. Sim… de poesia, esse pasto da alma, esse vento Siroco que sempre depositara nas suas mãos eternas sementes de inquietação. Nela mergulhava todas as noites, como se num mar verde esmeralda. Fundo, tão fundo até onde o verde fica mais turvo e se soltam os gritos há muito tempo calados.
Ao retornar de cada uma dessas viagens, a sua existência não era mais a mesma, a sua consciência não estava já onde a havia deixado.
Um cachorro escanzelado atravessou-se-lhe ao caminho. Meio a medo, afoitou-se à força de tanta fome, com a cauda entre as pernas. Ganhou os restos de um pedaço de pão duro. Tudo se partilha, até mesmo a miséria quando nada mais há para partilhar.
Tirou do bolso uma garrafa de esperança. Sorveu um trago… e ainda outro.
Cerrou os olhos, deixou que a sua cabeça pendesse para trás. Inspirou fundo engasgando-se com a resposta de dois pulmões cheios de fumo e de mágoa.
Suspirou...
Contemplou o céu...
Avançou...
Viveu!
Sem cor
Dr1ve
Ela passou em galope veloz, montada na garupa da sua soberba.
Ele sorriu.
Um dia – pensou – um dia a humildade estampar-se-á na tua vida como cinco dedos na cara.
Soergueu-se e procurou o rumo de casa. Pensou num banho quente, no velho cadeirão coçado e num livro de poesia. Sim… de poesia, esse pasto da alma, esse vento Siroco que sempre depositara nas suas mãos eternas sementes de inquietação. Nela mergulhava todas as noites, como se num mar verde esmeralda. Fundo, tão fundo até onde o verde fica mais turvo e se soltam os gritos há muito tempo calados.
Ao retornar de cada uma dessas viagens, a sua existência não era mais a mesma, a sua consciência não estava já onde a havia deixado.
Um cachorro escanzelado atravessou-se-lhe ao caminho. Meio a medo, afoitou-se à força de tanta fome, com a cauda entre as pernas. Ganhou os restos de um pedaço de pão duro. Tudo se partilha, até mesmo a miséria quando nada mais há para partilhar.
Tirou do bolso uma garrafa de esperança. Sorveu um trago… e ainda outro.
Cerrou os olhos, deixou que a sua cabeça pendesse para trás. Inspirou fundo engasgando-se com a resposta de dois pulmões cheios de fumo e de mágoa.
Suspirou...
Contemplou o céu...
Avançou...
Viveu!
Sem cor
Dr1ve
16 março 2011
Navegar
Saio do combóio. A estação fervilha de vida nesta manhã de Março.
Cruzam-se estados de espírito, alegrias e preocupações. Cruzam-se pessoas, cruzam-se sonhos, cruzam-se vidas.
A vibração é ininteligível. Dá vontade de nos elevarmos acima da mole humana, abrir as asas e sacudir os nossos tormentos.
Deviamos todos poder ser capazes de nos melhorar com a mesma facilidade com que um pequeno pardal se lava numa poça de água.
Sorvo o momento; sigo caminho.
Hoje tenho uma arguição de Mestrado na Faculdade. É a vez da Sónia... A Sónia e as incontornáveis angústias de quem está preparadíssima mas teima em achar que não. Vai fazer um brilharete. Eu sei que sim!...
É cedo. Sento-me ao sol.
Fecho os meus olhos. Surgem-me os teus, devolvendo a sensação de cada despertar outrora experimentada.
Faltas-me... mas não te quero!
A vaga foi fresca, cristalina, renovadora. Mas não passou disso mesmo: uma vaga que cresceu, nos envolveu e rebentou em todo o seu esplendor. Espraiou-se na praia da vida deixando nada mais do que uma memória sofrida.
A vida é assim mesmo. Mas as marés são muitas e as vagas muitas mais.
De uma coisa eu tenho a certeza: este batel mudou de rumo.
Não lhe diviso o destino.
Não quero, sequer, perder tempo com isso.
Por ora, basta-me o simples navegar...
Sailing
Christopher Cross
Cruzam-se estados de espírito, alegrias e preocupações. Cruzam-se pessoas, cruzam-se sonhos, cruzam-se vidas.
A vibração é ininteligível. Dá vontade de nos elevarmos acima da mole humana, abrir as asas e sacudir os nossos tormentos.
Deviamos todos poder ser capazes de nos melhorar com a mesma facilidade com que um pequeno pardal se lava numa poça de água.
Sorvo o momento; sigo caminho.
Hoje tenho uma arguição de Mestrado na Faculdade. É a vez da Sónia... A Sónia e as incontornáveis angústias de quem está preparadíssima mas teima em achar que não. Vai fazer um brilharete. Eu sei que sim!...
É cedo. Sento-me ao sol.
Fecho os meus olhos. Surgem-me os teus, devolvendo a sensação de cada despertar outrora experimentada.
Faltas-me... mas não te quero!
A vaga foi fresca, cristalina, renovadora. Mas não passou disso mesmo: uma vaga que cresceu, nos envolveu e rebentou em todo o seu esplendor. Espraiou-se na praia da vida deixando nada mais do que uma memória sofrida.
A vida é assim mesmo. Mas as marés são muitas e as vagas muitas mais.
De uma coisa eu tenho a certeza: este batel mudou de rumo.
Não lhe diviso o destino.
Não quero, sequer, perder tempo com isso.
Por ora, basta-me o simples navegar...
Sailing
Christopher Cross
07 março 2011
04 março 2011
Diálogos poéticos
Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos.
Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens.
Que viemos, amámos, pecámos e partimos
Como a água das chuvas.
Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
Do que dizem e pensam
E que a nossa aventura, é no vento que passa que a ouvimos,
É no nosso silêncio que perdura.
Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
E que enterrámos vivo o fogo que nos queima.
Tu lhes dirás, meu amor, se for preciso,
Que nos espreguiçaremos na fogueira.
José Carlos Ary dos Santos
SEMPRE
Como se os nossos corpos rebolassem num colchão de palavras,
nadei nos conceitos que me sussurraste ao ouvido,
nas frases soltas que tomaram forma afirmativa do meu e do teu ser!
Gemi as exclamativas frases que me arrancaste do fundo do peito...
Amei-te num futuro mais-que-perfeito!
Bani dos meus horizontes o modo condicional do verbo sentir e usei o gerundio do gosto de sorrir...
Num complemento circunstâncial de modo...
Amei-te!
No circunstâncial de lugar fiquei à espera
que o circunstâncial de tempo fosse um segundo...
do tamanho do mundo!
Antes do amo coloquei um pronome pessoal
e a seguir um reflexo
e vi que tinha nexo o que acabei de te dizer!
Muni-me então do campo lexical de tempo...
Sob a forma determinante da interrogativa
e surgiu o quando?
logo seguido da verbalização angustiada
do amanhã?
Apenas concluí no modo docemente circunstancial,
com a única temporal que eu senti:
Sempre!
Cristina Fidalgo
27 fevereiro 2011
Água na boca...
Antes
Depois
Polvo assado com pimenta da Jamaica, puré de legumes e alecrim.
Batatinha assada em azeite, alho descamisado e tomilho.
Migas à minha maneira.
Mousse de pera abacate com redução de melaço e aguardente de cana.
Depois
Polvo assado com pimenta da Jamaica, puré de legumes e alecrim.
Batatinha assada em azeite, alho descamisado e tomilho.
Migas à minha maneira.
Mousse de pera abacate com redução de melaço e aguardente de cana.
23 fevereiro 2011
Conversas à boca do forno.
Domingo passado; Vimeiro; fábrica do pão.
- Então Ti Henrique? Anda desasado?
O homem, aparentando sessentas e algo, alto, camisa de xadrez e boné na cabeça, aproximou-se exibindo o braço direito ao peito, pendurado numa tira de gaze, e uma generosa tala no dedo médio.
- Vim à bôla para a rapaziada picar - disse apontando para um pavilhão rústico onde se jogavam cartas e chinquilho.
- O que lhe aconteceu, homem?
- Olhe, não quer lá ver a p...ta da minha sorte? Apanho g'andes babadeiras todos os dias; caio da mota no caminho p'a casa... nunca m'aleijei, só uns arranhõezitos de vez em quando. Ontem de manhã alevantei-me cedo p'a ir aos ouriços. Estava sentado no sofá da sala a calçar as meias e à espera qu'a melher me fizesse o piquen'almoço. Tenho um cão e uma cadela pequ'nitos. Fod...-se! Não é qu'aqueles filhos duma granda p...ta se pegam à dentada? Com a pressa de m'alivantar do sofá, escorregou-se-me o tapete do chão debaixo dos pés e catrapumba, arrebati de costas em cima dos mosaicos, caindo com o cú em cima da mão direita. Parti o dedo do meio!... Já viu isto?... Por causa do car...lho dos cães? S'eu ad'vinhasse tinha deixado que se comessem à dentada. É qu'ainda por cima foi a mão direita. Não posso conduzir a mota; não consigo jogar às cartas nem ao chinquilho e até a garrafa da mine não me dá jeito nenhum segurar com a mão esquerda.
- Porra, homem! Isso é que foi azar hein?
- É verdade. Ainda na véspera tinha saido daqui à uma da manhã com uma cadela danada. Na subida das belas - não sei como arranjei a coisa - desinqu'librei-me e taruz... estatelado no chão e ainda por cima no meio da estrada. Fiquei debaixo da mota. Quis sair debaixo daquela m...rda mas não tinha forças. Pois c'a babadeira que levava nos cornos... Vai daí, pensei: Olha... f...da-se! Deixa-te estar! E foi o que fiz. Puxei do tabaco e deixei-me ficar. Passado p'aí uma meia hora vejo dois faróis a virem pela estrada acima. Parou uma pick-up cinzenta à minha beira. Era um primo meu... "atão Henrique? O que fazes aí caido no meio da estrada?". Eu respondi-lhe "Olha... tou aqui fumando um cigarrito!".
[gargalhada generalizada]
- Então vá Ti Henrique. Leve lá a Bôla aos homens ou eles ainda julgam que se perdeu p'lo caminho.
- Ok! Passem bem que eu vou beber mais copo. Até mais!
- Até logo!
(Conversa verídica)
- Então Ti Henrique? Anda desasado?
O homem, aparentando sessentas e algo, alto, camisa de xadrez e boné na cabeça, aproximou-se exibindo o braço direito ao peito, pendurado numa tira de gaze, e uma generosa tala no dedo médio.
- Vim à bôla para a rapaziada picar - disse apontando para um pavilhão rústico onde se jogavam cartas e chinquilho.
- O que lhe aconteceu, homem?
- Olhe, não quer lá ver a p...ta da minha sorte? Apanho g'andes babadeiras todos os dias; caio da mota no caminho p'a casa... nunca m'aleijei, só uns arranhõezitos de vez em quando. Ontem de manhã alevantei-me cedo p'a ir aos ouriços. Estava sentado no sofá da sala a calçar as meias e à espera qu'a melher me fizesse o piquen'almoço. Tenho um cão e uma cadela pequ'nitos. Fod...-se! Não é qu'aqueles filhos duma granda p...ta se pegam à dentada? Com a pressa de m'alivantar do sofá, escorregou-se-me o tapete do chão debaixo dos pés e catrapumba, arrebati de costas em cima dos mosaicos, caindo com o cú em cima da mão direita. Parti o dedo do meio!... Já viu isto?... Por causa do car...lho dos cães? S'eu ad'vinhasse tinha deixado que se comessem à dentada. É qu'ainda por cima foi a mão direita. Não posso conduzir a mota; não consigo jogar às cartas nem ao chinquilho e até a garrafa da mine não me dá jeito nenhum segurar com a mão esquerda.
- Porra, homem! Isso é que foi azar hein?
- É verdade. Ainda na véspera tinha saido daqui à uma da manhã com uma cadela danada. Na subida das belas - não sei como arranjei a coisa - desinqu'librei-me e taruz... estatelado no chão e ainda por cima no meio da estrada. Fiquei debaixo da mota. Quis sair debaixo daquela m...rda mas não tinha forças. Pois c'a babadeira que levava nos cornos... Vai daí, pensei: Olha... f...da-se! Deixa-te estar! E foi o que fiz. Puxei do tabaco e deixei-me ficar. Passado p'aí uma meia hora vejo dois faróis a virem pela estrada acima. Parou uma pick-up cinzenta à minha beira. Era um primo meu... "atão Henrique? O que fazes aí caido no meio da estrada?". Eu respondi-lhe "Olha... tou aqui fumando um cigarrito!".
[gargalhada generalizada]
- Então vá Ti Henrique. Leve lá a Bôla aos homens ou eles ainda julgam que se perdeu p'lo caminho.
- Ok! Passem bem que eu vou beber mais copo. Até mais!
- Até logo!
(Conversa verídica)
22 fevereiro 2011
20 fevereiro 2011
14 fevereiro 2011
Leituras
Talvez consiga adormecer
Talvez
consiga adormecer
se não pensar nos teus beijos
que ainda ardem
neste deserto
que é a minha pele sem ti.
Sinto-os
como formigas doidas
a correrem
por mim acima
desvairados, sem norte,
perdidos quem sabe
se na pressa
de voltarem a ser beijos
mais fundos que a pele,
sedenta
desse toque
que só tu consegues,
quando o calor
da tarde que começa
te incendeia
em labaredas por inteiro,
dentro
e fora, meu vesúvio
de Janeiro
onde me deito e adormeço.
Deixa-me voar
de novo colado a ti,
meu pássaro sonhador.
Anda, vamos
nessa brisa quente
à procura
de uma terra que não conheço
e deixa-me desbravá-la
como se o mundo acabasse
agora,
nesta tarde morna
de luz coada, perdida no poente
imaginado,
quando os teus olhos
me falavam sem palavras
e me diziam
que tudo era possível
na caminhada sem medo.
Deixa-me
partir no teu beijo
que tardo
em querer esquecer.
Como quem sussurra
um segredo,
abre-me o teu peito
em que me deito
e estremeço.
Deixa-me voar contigo.
Deixa-me tocar
a lua no teu umbigo.
In A lua no teu umbigo
Alberto Riogrande
12 fevereiro 2011
Na 1ª pessoa – o singular na sua dialéctica com o plural.
Hoje apetece-me escrever na primeira pessoa do singular.
De quando em vez paro para fazer um apanhado da minha vida ou, pelo menos, do meu passado recente. Há quem faça o exercício regular de uma retrospectiva diária. Não chego a tanto (mas apenas e só porque não tenho o empenho necessário para o fazer).
Pensei em tamanha façanha há já alguns dias mas só agora ganhei coragem para tanto. Cortei umas limas, pisei folhas de hortelã, umas pedras de gelo, rum e duas colheres de um açúcar tão amarelo quanto o meu sorriso deste final de tarde.
Estou sentado em frente ao portátil. Mais um trago… e outro. Arrepio-me. Estou pronto!
Ultimamente tive por tendência natural julgar a minha vida como algo de absolutamente improdutivo ou, no mínimo, inconsequente.
Formações e mais formações, cursos e mais cursos, simpósios, congressos, encontros… para acabar dando por mim a perguntar “para quê?”.
Esta semana algo de novo ganhou espaço no meu espírito. Comecei a interrogar-me mais sobre as pequenas coisas do dia-a-dia, as quais, habitualmente, adicionava ao rol das futilidades, percebendo agora que, uma vez ponderadas numa perspectiva mais abrangente, passam a fazer todo um novel sentido.
Lamento esta situação de desemprego prolongado, de instabilidade relacional no que ao às matérias do coração diz respeito. Continuarei a fazê-lo. Mas pergunto-me agora: ser-me-ia possível assumir em exclusivo as múltiplas deslocações do meu filho de e para a escola, idas quase diárias da mãe ao hospital, tratar diária e religiosamente dos meus cães, se estivesse a trabalhar ou numa relação emocional com cabeça, tronco e membros?
Mais: a partir da próxima terça-feira a minha filhota passará a ír duas vezes por semana ao Hip-Hop. Irei eu buscá-la à escola. Não sei como irei conseguir articular tudo mas tenho a certeza absoluta de que o vou fazer.
Na passada 2ª feira morreu-me o Chaka. De quatro amigos caninos resta-me apenas a Luka. A vida vai polvilhando o caminho com estas sacanices repletas de fel.
Num destes finais de tarde solarengos, desloquei-me ao miradouro dos Capuchos para ver o pôr-do-sol. Entre muita gente que afluíra ao local com o mesmo intuito, encontrava-se um casal com dois filhos. O mais velho deles, talvez com uns sete/oito anos, estava sentado na muralha do miradouro, pernas e braços traçados, aguardando o momento em que o horizonte engoliria o sol. Aproximando-se o ocaso, o pai desata num esbracejar histérico, bradando:
- Filho. Estão a roubar o sol! E agora? O que fazemos?
O filho, sem tirar os olhos de um horizonte mesclado de azuis e vermelhos, respondeu:
- Não, pai. O sol vai até ao fim do mundo e depois desaparece na terra do nunca. Amanhã nasce um novo.
Tenho recordado muitas vezes tal momento. A poesia tudo vence. Quem me dera ser capaz de fazer como o sol daquele menino. Mas poesia é apenas isso: poesia. A vida é a vida e, como experiência de aprendizagem que é, apresenta-se-nos muitas vezes cruel, dura, implacável.
Se é (também mas não só) por isso que tenho que passar… seja!
Ajudo os outros em tudo o que posso, de múltiplas formas. Quem me conhece sabe desta atitude voluntariosa. Se ando por cá com essa missão… óptimo.
Se são estes o meu karma e o meu dharma… perfeito!
Em última instância tenho por saldo que o universo me tem retribuído generosamente. Graças ao apoio incondicional da família e dos amigos não me tem faltado nada de verdadeiramente essencial nem, diga-se de passagem, muitas outras coisas supérfluas.
Sinto-me amado, gostado, apreciado, admirado, valorizado.
Exigir mais da vida, embora legítimo, não será exagero ou devaneio? Receio pensar na resposta.
No que a 1ª pessoa do singular puder ajudar a 1ª pessoa do plural, cá estarei, sempre e incondicionalmente, para todos.
Obrigado!
De quando em vez paro para fazer um apanhado da minha vida ou, pelo menos, do meu passado recente. Há quem faça o exercício regular de uma retrospectiva diária. Não chego a tanto (mas apenas e só porque não tenho o empenho necessário para o fazer).
Pensei em tamanha façanha há já alguns dias mas só agora ganhei coragem para tanto. Cortei umas limas, pisei folhas de hortelã, umas pedras de gelo, rum e duas colheres de um açúcar tão amarelo quanto o meu sorriso deste final de tarde.
Estou sentado em frente ao portátil. Mais um trago… e outro. Arrepio-me. Estou pronto!
Ultimamente tive por tendência natural julgar a minha vida como algo de absolutamente improdutivo ou, no mínimo, inconsequente.
Formações e mais formações, cursos e mais cursos, simpósios, congressos, encontros… para acabar dando por mim a perguntar “para quê?”.
Esta semana algo de novo ganhou espaço no meu espírito. Comecei a interrogar-me mais sobre as pequenas coisas do dia-a-dia, as quais, habitualmente, adicionava ao rol das futilidades, percebendo agora que, uma vez ponderadas numa perspectiva mais abrangente, passam a fazer todo um novel sentido.
Lamento esta situação de desemprego prolongado, de instabilidade relacional no que ao às matérias do coração diz respeito. Continuarei a fazê-lo. Mas pergunto-me agora: ser-me-ia possível assumir em exclusivo as múltiplas deslocações do meu filho de e para a escola, idas quase diárias da mãe ao hospital, tratar diária e religiosamente dos meus cães, se estivesse a trabalhar ou numa relação emocional com cabeça, tronco e membros?
Mais: a partir da próxima terça-feira a minha filhota passará a ír duas vezes por semana ao Hip-Hop. Irei eu buscá-la à escola. Não sei como irei conseguir articular tudo mas tenho a certeza absoluta de que o vou fazer.
Na passada 2ª feira morreu-me o Chaka. De quatro amigos caninos resta-me apenas a Luka. A vida vai polvilhando o caminho com estas sacanices repletas de fel.
Num destes finais de tarde solarengos, desloquei-me ao miradouro dos Capuchos para ver o pôr-do-sol. Entre muita gente que afluíra ao local com o mesmo intuito, encontrava-se um casal com dois filhos. O mais velho deles, talvez com uns sete/oito anos, estava sentado na muralha do miradouro, pernas e braços traçados, aguardando o momento em que o horizonte engoliria o sol. Aproximando-se o ocaso, o pai desata num esbracejar histérico, bradando:
- Filho. Estão a roubar o sol! E agora? O que fazemos?
O filho, sem tirar os olhos de um horizonte mesclado de azuis e vermelhos, respondeu:
- Não, pai. O sol vai até ao fim do mundo e depois desaparece na terra do nunca. Amanhã nasce um novo.
Tenho recordado muitas vezes tal momento. A poesia tudo vence. Quem me dera ser capaz de fazer como o sol daquele menino. Mas poesia é apenas isso: poesia. A vida é a vida e, como experiência de aprendizagem que é, apresenta-se-nos muitas vezes cruel, dura, implacável.
Se é (também mas não só) por isso que tenho que passar… seja!
Ajudo os outros em tudo o que posso, de múltiplas formas. Quem me conhece sabe desta atitude voluntariosa. Se ando por cá com essa missão… óptimo.
Se são estes o meu karma e o meu dharma… perfeito!
Em última instância tenho por saldo que o universo me tem retribuído generosamente. Graças ao apoio incondicional da família e dos amigos não me tem faltado nada de verdadeiramente essencial nem, diga-se de passagem, muitas outras coisas supérfluas.
Sinto-me amado, gostado, apreciado, admirado, valorizado.
Exigir mais da vida, embora legítimo, não será exagero ou devaneio? Receio pensar na resposta.
No que a 1ª pessoa do singular puder ajudar a 1ª pessoa do plural, cá estarei, sempre e incondicionalmente, para todos.
Obrigado!
31 janeiro 2011
Um pouco de sol
As vagas enrolam a esforço, preguiçosas, desfazendo-se lânguidas nos cabeços dourados.
As dunas, pejadas de cardos e chorões, descansam dos rigores do Inverno.
Recosto-me na areia, entre alecrim, rosmaninho e pinheiros retorcidos pelo vento e pela maresia.
Deixo que o sol me preencha a face, ocupando o pouco que esta barba de Adamastor ainda permite.
Ando descuidado. A vida anda descuidada. Mais não faço do que olhá-la bem nos olhos e devolver a cortesia.
Não há "como", se não se tem "porquê".
Se o tempo o permitir, amanhã venho iniciar a época de caminhadas de borda-de-água.
Com um pouco de coragem talvez entre na água regeneradora.
Esta praia é o meu deserto e esta água o elemento que me expurga todos os males, qual bode expiatório da tradição judaica.
Se Deus trabalha por caminhos misteriosos, a mente humana nada lhe fica a dever, sobretudo no que diz respeito às múltiplas aptências que exibe quando se empenha em se auto-flagelar.
A razão escarnece de si própria com o mesmo embaraço risonho com que nos mascaramos quando nos estatelamos no chão em público. E o final, resignado, é sempre o mesmo. Até um dia... que não o de hoje.
Por ora deixai-me sorver um pouco mais de sol, um pouco mais de mar, um pouco mais de mim.
As dunas, pejadas de cardos e chorões, descansam dos rigores do Inverno.
Recosto-me na areia, entre alecrim, rosmaninho e pinheiros retorcidos pelo vento e pela maresia.
Deixo que o sol me preencha a face, ocupando o pouco que esta barba de Adamastor ainda permite.
Ando descuidado. A vida anda descuidada. Mais não faço do que olhá-la bem nos olhos e devolver a cortesia.
Não há "como", se não se tem "porquê".
Se o tempo o permitir, amanhã venho iniciar a época de caminhadas de borda-de-água.
Com um pouco de coragem talvez entre na água regeneradora.
Esta praia é o meu deserto e esta água o elemento que me expurga todos os males, qual bode expiatório da tradição judaica.
Se Deus trabalha por caminhos misteriosos, a mente humana nada lhe fica a dever, sobretudo no que diz respeito às múltiplas aptências que exibe quando se empenha em se auto-flagelar.
A razão escarnece de si própria com o mesmo embaraço risonho com que nos mascaramos quando nos estatelamos no chão em público. E o final, resignado, é sempre o mesmo. Até um dia... que não o de hoje.
Por ora deixai-me sorver um pouco mais de sol, um pouco mais de mar, um pouco mais de mim.
16 janeiro 2011
10 janeiro 2011
08 janeiro 2011
05 janeiro 2011
04 janeiro 2011
Barcelona - Apontamentos de viagem XVII
23.12.2010
Vôo previsto para as 17.55 horas.
Verá esta odisseia o seu fim?
Quero ir para "casa"!
Quero pegar na cana de pesca e ver-me dentro de água no Meco, a tentar os robalos natalícios.
Estou aqui a martirizar-me com algumas resoluções de ano novo.
Tenho muito que parar para pensar.
Olho para o lado e não consigo evitar o riso.
Até os guardanapos falam comigo.
Sou mesmo, mesmo cepo.
Estou tão saturado desta espera.
A mochila está tão cheia de roupa suja que nem chego aos livros que comprei. Não sei com o que me entreter. O ipod está a ficar sem bateria; a máquina fotográfica tem também a segunda carga nas lonas...
Pensei em aproveitar o tempo para enviar um sms de Natal aos amigos mas, fazê-lo a partir de Barcelona, não é boa ideia.
Acresce a tudo isto o facto de, apesar, de serem apenas 15,30 horas, o sol estar já tão baixo que entra pelas vidraças fumadas como um centurião em Roma depois de uma grande vitória.
É um convite à siesta ao qual custa dizer "não".
Quando o ócio se instala a imaginação ganha asas. É o grito de revolta da mente contra o imobilismo do corpo.
Resolvi contar o número de páginas que materializam estes meus apontamentos de viagem. São já vinte e oito. Ou direi "só vinte e oito?"
Uma núvem misericordiosa vem aplacar a força do astro-rei. Que alívio!
Maior alívio, neste momento, só consigo imaginar o regresso a "casa".
Vôo previsto para as 17.55 horas.
Verá esta odisseia o seu fim?
Quero ir para "casa"!
Quero pegar na cana de pesca e ver-me dentro de água no Meco, a tentar os robalos natalícios.
Estou aqui a martirizar-me com algumas resoluções de ano novo.
Tenho muito que parar para pensar.
Olho para o lado e não consigo evitar o riso.
Até os guardanapos falam comigo.
Sou mesmo, mesmo cepo.
Estou tão saturado desta espera.
A mochila está tão cheia de roupa suja que nem chego aos livros que comprei. Não sei com o que me entreter. O ipod está a ficar sem bateria; a máquina fotográfica tem também a segunda carga nas lonas...
Pensei em aproveitar o tempo para enviar um sms de Natal aos amigos mas, fazê-lo a partir de Barcelona, não é boa ideia.
Acresce a tudo isto o facto de, apesar, de serem apenas 15,30 horas, o sol estar já tão baixo que entra pelas vidraças fumadas como um centurião em Roma depois de uma grande vitória.
É um convite à siesta ao qual custa dizer "não".
Quando o ócio se instala a imaginação ganha asas. É o grito de revolta da mente contra o imobilismo do corpo.
Resolvi contar o número de páginas que materializam estes meus apontamentos de viagem. São já vinte e oito. Ou direi "só vinte e oito?"
Uma núvem misericordiosa vem aplacar a força do astro-rei. Que alívio!
Maior alívio, neste momento, só consigo imaginar o regresso a "casa".
03 janeiro 2011
Barcelona - Apontamentos de viagem XV
22.12.2010
Convido-vos a sentarem-se comigo neste banco da sala de check-in.
Quando há dois ou três vôos que se juntam em matéria de horários, a easyJet é a loucura total.
Quem viaja mais já deve ter chegado à conclusão que esta companhia deu uma outra dimensão à expressão "o que é barato sai caro".
Claro que há sempre os casmurros - como eu - que insistem em dar o benefício da dúvida. Tenho a impressão que esta experiência me trará o necessário bom-senso. Quando planear viajar novamente é bom que me lembre de tudo isto, sob pena de ser promovido de casmurro a "casburro"...
Este terminal é uma torre de Babel. Gente de todas as raças padecendo de um mal que não escolhe caras: a bicha. Sim... a bicha e não a fila!!!
Um casal entra apressado. Atrás vem o puto, minúsculo, louro, rebocando uma mala maior do que ele.
Os pais estancaram no final da bicha mas ele, que vinha olhando para os pombos que haviam permanecido do lado de fora das vidraças, acabou estampado no rabo da mãe. Vá lá!... Podia ter sido pior.
Chamam para o autocarro. Chiça! Já não era sem tempo! Quatro horas e meia depois...
Convido-vos a sentarem-se comigo neste banco da sala de check-in.
Quando há dois ou três vôos que se juntam em matéria de horários, a easyJet é a loucura total.
Quem viaja mais já deve ter chegado à conclusão que esta companhia deu uma outra dimensão à expressão "o que é barato sai caro".
Claro que há sempre os casmurros - como eu - que insistem em dar o benefício da dúvida. Tenho a impressão que esta experiência me trará o necessário bom-senso. Quando planear viajar novamente é bom que me lembre de tudo isto, sob pena de ser promovido de casmurro a "casburro"...
Este terminal é uma torre de Babel. Gente de todas as raças padecendo de um mal que não escolhe caras: a bicha. Sim... a bicha e não a fila!!!
Um casal entra apressado. Atrás vem o puto, minúsculo, louro, rebocando uma mala maior do que ele.
Os pais estancaram no final da bicha mas ele, que vinha olhando para os pombos que haviam permanecido do lado de fora das vidraças, acabou estampado no rabo da mãe. Vá lá!... Podia ter sido pior.
Chamam para o autocarro. Chiça! Já não era sem tempo! Quatro horas e meia depois...
02 janeiro 2011
Barcelona - Apontamentos de viagem XIV
22.12.10
Vinte e duas palavras soltas
Vinte e duas palavras soltas
Porquê?
Lágrima
Almofada
Sorriso
Boca
Olhos
Silêncio
Areia
Mãos-dadas
Descalços
Momento
Eternidade
Fugaz
Inpotência
Incapaz
Infeliz
Ninguém
Dúvida
Cristalizado
Medo
Esperança
01 janeiro 2011
Eu e a Lua Feiticeira: James - Sit Down (2001 final live performance )
Eu e a Lua Feiticeira: James - Sit Down (2001 final live performance )
Luar anda especialmente produtiva. Surripio-lhe os James à laia de homenagem.
May the force be with you!
Luar anda especialmente produtiva. Surripio-lhe os James à laia de homenagem.
May the force be with you!
Barcelona - Apontamentos de viagem XII
22.12.2010
(+) Exposições e passeios.
Anteontem visitei uma exposição temporária no Arquivo da Coroa de Aragão: Francisco de Bórgia - Vice-Rei da Catalunha. 1539-1543.
Exposição muito bem montada, considerando a relativa exiguidade do espaço. Tirei uma fotos sem flash - assim como quem não quer a coisa.
Personagem muito interessante, que não conhecia, com ramificações a Portugal por via do matrimónio.
Ontem fui directo ao MUHBA - Museu de História de Barcelona.
O núcleo permanente baseia-se na intervenção e musealização do conjunto monumental Plaça del Rei, com particular incidência nos vestígios arqueológicos que datam da Pré-História à Idade-Média.
O museu está presentemente com uma exposição temporária extraordinária: Ja tenim 600! - La represa sense democràcia. Barcelona, 1947-1973.
Trata-se de um exemplo paradigmático de como, a propósito da aquisição de uma peça para o seu acervo - no caso, um automóvel Seat 600 - um museu pode efectuar um magnífico trabalho de investigação.
A exposição debruça-se sobre o movimento operário, o associativismo de bairro e outros modos de luta, visando sacudir a opressão dictatorial de Franco e atingir uma cada vez maior autonomia da Catalunha face ao governo central espanhol. Aborda-se igualmente o modo como algumas intervenções urbanísticas, a construção da fábrica da SEAT (cuja sigla, já agora, significa Sociedad Española de Automóviles de Turismo), e a realização de um Concílio Ecuménico Universal [?] em Barcelona durante o período cronológico em análise, pretenderam minorar a oposição social ao regime.
Uma vez mais: Muito bom!!!
De saída visitei a a exposição virtual montada no pátio do Museu Frederic Marès.
Uma boa solução a seguir quando se tem o edifício em remodelação e, portanto, encerrado ao público.
Após uma pequena pausa enchi-me de coragem e fiz-me ao Museu Picasso. Caminhei cheio de hesitações. Acontece-me quando sei antecipadamente que me dirigo para algo que me vai esmagar.
Eu e o Museu Picasso de Barcelona tinhamos uma relação idêntica à que tenho com os Açores: fica para amanhã!...
Chegando à entrada desvaneceram-se as hesitações. O museu apresentava como exposição temporária Picasso davant Degas. Deus me livre de perder as bailarinas e as prostitutas de Degas.
A exposição não se consegue descrever em poucas linhas, pelo que me vou abster de o fazer. Destaco apenas que, se dúvidas existissem sobre o facto de Picasso ter seguido ostensivamente a obra de Degas como inspiração e modelo para uma grande parte dos seus trabalhos, elas ficam completamente desfeitas pelo tête-à-tête entre obras de arte que esta exposição nos dá a fruir. Aliás, as palavras de Picasso com que os comissários abrem a exposição são claras: Si hay algo que se pueda robar, lo robo!
Pena ser tão teso. O catálogo da exposição, obra em grande formato e com uma impressão de luxo, custava apenas €35. Face à incógnita de não saber quando regressarei a casa, preferi guardar o dinheiro.
A exposição permanente apresenta uma disposição cronológica da obra de Picasso, dando igualmente muita informação biográfica.
Para quem goste deste mestre, este é mesmo um museu a não perder.
(+) Exposições e passeios.
Anteontem visitei uma exposição temporária no Arquivo da Coroa de Aragão: Francisco de Bórgia - Vice-Rei da Catalunha. 1539-1543.
Exposição muito bem montada, considerando a relativa exiguidade do espaço. Tirei uma fotos sem flash - assim como quem não quer a coisa.
Personagem muito interessante, que não conhecia, com ramificações a Portugal por via do matrimónio.
Ontem fui directo ao MUHBA - Museu de História de Barcelona.
O núcleo permanente baseia-se na intervenção e musealização do conjunto monumental Plaça del Rei, com particular incidência nos vestígios arqueológicos que datam da Pré-História à Idade-Média.
O museu está presentemente com uma exposição temporária extraordinária: Ja tenim 600! - La represa sense democràcia. Barcelona, 1947-1973.
Trata-se de um exemplo paradigmático de como, a propósito da aquisição de uma peça para o seu acervo - no caso, um automóvel Seat 600 - um museu pode efectuar um magnífico trabalho de investigação.
A exposição debruça-se sobre o movimento operário, o associativismo de bairro e outros modos de luta, visando sacudir a opressão dictatorial de Franco e atingir uma cada vez maior autonomia da Catalunha face ao governo central espanhol. Aborda-se igualmente o modo como algumas intervenções urbanísticas, a construção da fábrica da SEAT (cuja sigla, já agora, significa Sociedad Española de Automóviles de Turismo), e a realização de um Concílio Ecuménico Universal [?] em Barcelona durante o período cronológico em análise, pretenderam minorar a oposição social ao regime.
Uma vez mais: Muito bom!!!
De saída visitei a a exposição virtual montada no pátio do Museu Frederic Marès.
Uma boa solução a seguir quando se tem o edifício em remodelação e, portanto, encerrado ao público.
Após uma pequena pausa enchi-me de coragem e fiz-me ao Museu Picasso. Caminhei cheio de hesitações. Acontece-me quando sei antecipadamente que me dirigo para algo que me vai esmagar.
Eu e o Museu Picasso de Barcelona tinhamos uma relação idêntica à que tenho com os Açores: fica para amanhã!...
Chegando à entrada desvaneceram-se as hesitações. O museu apresentava como exposição temporária Picasso davant Degas. Deus me livre de perder as bailarinas e as prostitutas de Degas.
A exposição não se consegue descrever em poucas linhas, pelo que me vou abster de o fazer. Destaco apenas que, se dúvidas existissem sobre o facto de Picasso ter seguido ostensivamente a obra de Degas como inspiração e modelo para uma grande parte dos seus trabalhos, elas ficam completamente desfeitas pelo tête-à-tête entre obras de arte que esta exposição nos dá a fruir. Aliás, as palavras de Picasso com que os comissários abrem a exposição são claras: Si hay algo que se pueda robar, lo robo!
Pena ser tão teso. O catálogo da exposição, obra em grande formato e com uma impressão de luxo, custava apenas €35. Face à incógnita de não saber quando regressarei a casa, preferi guardar o dinheiro.
A exposição permanente apresenta uma disposição cronológica da obra de Picasso, dando igualmente muita informação biográfica.
Para quem goste deste mestre, este é mesmo um museu a não perder.
31 dezembro 2010
Barcelona - Apontamentos de viagem X
22.12.10
Mas que aventura!
Regresso adiado de Domingo 19 para Quarta-Feira 22.
Agora adiado novamente para amanhã...
Ainda passo o Natal aqui.
Já não é a primeira vez que me acontece disto.
Mas que magna chatice andar com a mochila às costas, para trás e para a frente.
Hoje a coisa tornou-se ainda mais aborrecida em virtude de estar aqui pregado no aeroporto à espera que haja um número mínimo de "adiados" para encher o autocarro que nos levará ao hotel. Mas pensando melhor, talvez não venha a ser grande espera. O monitor mostra dezassete vôos cancelados pela EasyJet. Bem podem mandar vir autocarros...
À margem da brincadeira: espero muito, muito, muito conseguir passar o Natal em Portugal. Gostava de dar uma grande beija nos meus filhos.
É aguardar...
Mas que aventura!
Regresso adiado de Domingo 19 para Quarta-Feira 22.
Agora adiado novamente para amanhã...
Ainda passo o Natal aqui.
Já não é a primeira vez que me acontece disto.
Mas que magna chatice andar com a mochila às costas, para trás e para a frente.
Hoje a coisa tornou-se ainda mais aborrecida em virtude de estar aqui pregado no aeroporto à espera que haja um número mínimo de "adiados" para encher o autocarro que nos levará ao hotel. Mas pensando melhor, talvez não venha a ser grande espera. O monitor mostra dezassete vôos cancelados pela EasyJet. Bem podem mandar vir autocarros...
À margem da brincadeira: espero muito, muito, muito conseguir passar o Natal em Portugal. Gostava de dar uma grande beija nos meus filhos.
É aguardar...
30 dezembro 2010
Barcelona - Apontamentos de viagem VIII
20.12.2010
Museu Picasso também encerrado.
Resolvi percorrer o Bairro Gótico pelos meandros que ainda não conhecia. De seguida, e para poupar os pés, decidi voltar em direcção às Ramblas por zonas mais familiares. O local onde fiquei hospedado durante a primeira vez que cá estive mantém-se inalterado. Zona do porto, de marujada... les bas-fonds.
Escala obrigatória Bosc de les Fades (espécie de bar do Museu de Cera).
O ambiente recria isso mesmo: um bosque de fadas.
É uma coisa surreal, um misto de A Irmandade do Anel com As Crónicas de Nárnia. Vale sempre a pena revisitar.
A aventura, desta feita, consistiu em ter conseguido escrever estas linhas quase às escuras sem que o caderno tenha ficado qual baixo-relevo do Alto-Egipto.
Uma caña para retemperar energias e arrefecer as botas e os seus inquilinos.
Museu Picasso também encerrado.
Resolvi percorrer o Bairro Gótico pelos meandros que ainda não conhecia. De seguida, e para poupar os pés, decidi voltar em direcção às Ramblas por zonas mais familiares. O local onde fiquei hospedado durante a primeira vez que cá estive mantém-se inalterado. Zona do porto, de marujada... les bas-fonds.
Escala obrigatória Bosc de les Fades (espécie de bar do Museu de Cera).
O ambiente recria isso mesmo: um bosque de fadas.
É uma coisa surreal, um misto de A Irmandade do Anel com As Crónicas de Nárnia. Vale sempre a pena revisitar.
A aventura, desta feita, consistiu em ter conseguido escrever estas linhas quase às escuras sem que o caderno tenha ficado qual baixo-relevo do Alto-Egipto.
Uma caña para retemperar energias e arrefecer as botas e os seus inquilinos.
29 dezembro 2010
Barcelona - Apontamentos de viagem VI
20.12.2010
Bairro Gótico e Catedral.
Exposições e passeios pelas ruas.
O Museu da Cidade está fechado por ser Segunda-Feira. Parece não querer ser visto. Volto amanhã!?
Duas da tarde. Já?
Supermercado: uma embalagem de presunto, uma lata de cerveja e uma garrafa de água.
Padaria: Una barra (cacete).
Sim... porque a Easyjet não paga verdadeiramente tudo. ;-)
Esta zona não tem um banco que seja onde nos possamos sentar. Também assim se mede a acessibilidade de uma cidade.
Decidi vir comer para a escadaria da Catedral. Não dá muito bom aspecto, mesmo para um espiritualista profano como eu, estar a bebericar cerveja nos degraus de uma igreja. Mas prontos! Um Português enrascado é coisa que ainda está para ser inventada. E prova de que assim é, atente-se no que se passou de seguida.
Toca o telefone. A minha rica mãe. Queria saber o que era feito de mim, se tinha regressado a Portugal sem dar notícias. Enquanto lhe explicava o sucedido - que me tinham cancelado o vôo no Domingo, remarcado para Quarta-Feira, etc., etc. - não pude deixar de pensar: "Qualquer dia morro algures por esse mundo e só quando a minha mãe se lembrar é que os restantes darão também pela minha falta."
Terminei o telefonema e surgiu-me pela frente um jovem:
- "Desculpe. Percebi que é Português. Tira-me uma foto para recordação?"
Era Madeirense; Português; desenrascado.
A caminho de onde estou, ao percorrer lateralmente a Catedral, entrei na Capela de Santa Lúcia (padroeira da feira de artesanato natalício que tem lugar em frente ao templo durante esta quadra). Dá-me sempre muita paz.
É um local onde o turista apenas mete a cabeça para espreitar.
Capela modesta, atrás de grades, três ou quatro filas de bancos.
Aborrecem-me as velas eléctricas. Coisas que não entendo: vela é vela; fogo é fogo; luz é luz. Lâmpada não é vela; electricidade não é fogo; a luz é artificial.
Enfim!...
É hora de arrumar o caderno. Vou ver se me presenteio com um café (coisa que, por aqui, é quase sempre horrível).
Bairro Gótico e Catedral.
Exposições e passeios pelas ruas.
O Museu da Cidade está fechado por ser Segunda-Feira. Parece não querer ser visto. Volto amanhã!?
Duas da tarde. Já?
Supermercado: uma embalagem de presunto, uma lata de cerveja e uma garrafa de água.
Padaria: Una barra (cacete).
Sim... porque a Easyjet não paga verdadeiramente tudo. ;-)
Esta zona não tem um banco que seja onde nos possamos sentar. Também assim se mede a acessibilidade de uma cidade.
Decidi vir comer para a escadaria da Catedral. Não dá muito bom aspecto, mesmo para um espiritualista profano como eu, estar a bebericar cerveja nos degraus de uma igreja. Mas prontos! Um Português enrascado é coisa que ainda está para ser inventada. E prova de que assim é, atente-se no que se passou de seguida.
Toca o telefone. A minha rica mãe. Queria saber o que era feito de mim, se tinha regressado a Portugal sem dar notícias. Enquanto lhe explicava o sucedido - que me tinham cancelado o vôo no Domingo, remarcado para Quarta-Feira, etc., etc. - não pude deixar de pensar: "Qualquer dia morro algures por esse mundo e só quando a minha mãe se lembrar é que os restantes darão também pela minha falta."
Terminei o telefonema e surgiu-me pela frente um jovem:
- "Desculpe. Percebi que é Português. Tira-me uma foto para recordação?"
Era Madeirense; Português; desenrascado.
A caminho de onde estou, ao percorrer lateralmente a Catedral, entrei na Capela de Santa Lúcia (padroeira da feira de artesanato natalício que tem lugar em frente ao templo durante esta quadra). Dá-me sempre muita paz.
É um local onde o turista apenas mete a cabeça para espreitar.
Capela modesta, atrás de grades, três ou quatro filas de bancos.
Aborrecem-me as velas eléctricas. Coisas que não entendo: vela é vela; fogo é fogo; luz é luz. Lâmpada não é vela; electricidade não é fogo; a luz é artificial.
Enfim!...
É hora de arrumar o caderno. Vou ver se me presenteio com um café (coisa que, por aqui, é quase sempre horrível).
28 dezembro 2010
Barcelona - Apontamentos de viagem V
20.12.10
Saio do quarto, ensonado.
Phones nos ouvidos, aperto o blusão e percorro o corredor que me conduz ao ascensor. A carpete azul, pontilhada de pequenos quadrados brancos, e a sucessão de surrealismo encartonado que pende das paredes, dão à mancha uma sensação de vertigem que não apetece.
As portas do hotel abrem-se para um sol que me faz vacilar. Sorvo a luz e o calor, agradeço, rumo à estação de combóios.
Três paragens apenas até à Plaça de Catalunya, bem no coração da cidade.
A hora de ponta ficou para trás e as carruagens vão vazias. Sorrio ao lembrar a tradição segundo a qual, para nuestros hermanos, entre a Segunda-Feira e o Domingo há pouca diferença.
Pensei para comigo: "tenho que registar estes momentos."
Há muito tempo me apercebi não existir melhor forma de recordar um momento, uma imagem, um sentimento, o que for, do que fazê-lo através da escrita.
Como escreveu Gabriel García Márquez "Escrever é melhor do que viver!".
Como sou avesso a escrever em movimento, abandonei, no momento, a ideia.
Olhei para o exterior e vi a cidade aproximar-se rapidamente. Fachadas suburbanas; linhas de alta-tensão; barreiras de betão; graffitis, muitos, coloridos, quentes, frios; tudo entrecortando o céu azul, manchado por uma difusa névoa branca, como restos de um sonho.
Subitamente fez-se escuro. O combóio penetrou as entranhas da urbe e tudo ganhou um novo espectro.
Surge a estação. O tempo e o espaço abrandam.
No exterior uma jovem está de cócoras sorvendo as últimas páginas de um livro.
É difícil esperar pelo fim de um livro! Esperamos pelo combóio, esperamos por muitas coisas na vida. Os combóios chegam sempre, ainda que, por vezes, atrasados. O que esperamos da vida nem sempre chega. Talvez porque seja isso o que há a fazer: dela nada esperar.
Abrem-se as portas. Levanto-me. Mochila às costas...
Barcelona, aqui vou eu!...
Saio do quarto, ensonado.
Phones nos ouvidos, aperto o blusão e percorro o corredor que me conduz ao ascensor. A carpete azul, pontilhada de pequenos quadrados brancos, e a sucessão de surrealismo encartonado que pende das paredes, dão à mancha uma sensação de vertigem que não apetece.
As portas do hotel abrem-se para um sol que me faz vacilar. Sorvo a luz e o calor, agradeço, rumo à estação de combóios.
Três paragens apenas até à Plaça de Catalunya, bem no coração da cidade.
A hora de ponta ficou para trás e as carruagens vão vazias. Sorrio ao lembrar a tradição segundo a qual, para nuestros hermanos, entre a Segunda-Feira e o Domingo há pouca diferença.
Pensei para comigo: "tenho que registar estes momentos."
Há muito tempo me apercebi não existir melhor forma de recordar um momento, uma imagem, um sentimento, o que for, do que fazê-lo através da escrita.
Como escreveu Gabriel García Márquez "Escrever é melhor do que viver!".
Como sou avesso a escrever em movimento, abandonei, no momento, a ideia.
Olhei para o exterior e vi a cidade aproximar-se rapidamente. Fachadas suburbanas; linhas de alta-tensão; barreiras de betão; graffitis, muitos, coloridos, quentes, frios; tudo entrecortando o céu azul, manchado por uma difusa névoa branca, como restos de um sonho.
Subitamente fez-se escuro. O combóio penetrou as entranhas da urbe e tudo ganhou um novo espectro.
Surge a estação. O tempo e o espaço abrandam.
No exterior uma jovem está de cócoras sorvendo as últimas páginas de um livro.
É difícil esperar pelo fim de um livro! Esperamos pelo combóio, esperamos por muitas coisas na vida. Os combóios chegam sempre, ainda que, por vezes, atrasados. O que esperamos da vida nem sempre chega. Talvez porque seja isso o que há a fazer: dela nada esperar.
Abrem-se as portas. Levanto-me. Mochila às costas...
Barcelona, aqui vou eu!...
26 dezembro 2010
Barcelona - Apontamentos de viagem III
19.12.2010
Despedidas
Um último olhar por sobre o ombro para a Rambla.
"Adeus Barcelona!" exclamei mentalmente enquanto me encaminhava para a paragem do autocarro que me conduziria ao aeroporto.
No local, dois casais. Cedo deu para perceber que se estavam a despedir. Relembrei um episódio recente na estação da Fertagus no Pragal.
Se eu mandasse alguma coisa acabava com as despedidas.
Saí da bicha e dirigi-me para o mercado de antiguidades que se faz nos passeios da Plaça de Catalunya.
Renovei uma busca que me acompanha há quase dois anos. Procuro um terço que me chame e me diga: "Leva-me! Estou aqui por insondáveis mistérios. Cheguei cá não importa por que caminhos. O que necessitas saber é apenas que aqui estou por ti e para ti, para te aconchegar, para te afagar o peito, para suster o bater descompassado desse teu coração sem paz, para te ancorar na luz que a tantos ofereces mas à qual não te permites."
Já enverguei um terço com uma história própria, uma história de Veneza, uma história linda mas que não era a minha. Talvez por essa razão nunca o tenha sentido como "meu". Dele me despedi com o coração destroçado, mas não por ele.
Ainda não foi hoje que a demanda conheceu o seu final.
Lembrei as palavras do poeta Senegalês Amadou Sall, apostas numa foto da exposição que visitei hoje pela manhã:
- Tant qu'il y a le ciel, il y a toujours l'espoir qu'un oiseau y passe.
Virei costas. Acelerei um passo que mais não pretendeu senão fugir às lágrimas dos que se continuavam a despedir.
Disse novamente adeus a Barcelona.
O autocarro arrancou. Sentei-me abraçado à mochila. Enquanto a Melody Gardot me sussurava ao ouvido Deep within the corners of my heart, a cidade de Gaudi foi ficando para trás, sob um céu acobreado pelos últimos estertores do sol que, também ele, fazia as despedidas de mais um dia, um dos últimos deste Outono Catalão.
Deep within the corners of my heart
Melody Gardot
Despedidas
Um último olhar por sobre o ombro para a Rambla.
"Adeus Barcelona!" exclamei mentalmente enquanto me encaminhava para a paragem do autocarro que me conduziria ao aeroporto.
No local, dois casais. Cedo deu para perceber que se estavam a despedir. Relembrei um episódio recente na estação da Fertagus no Pragal.
Se eu mandasse alguma coisa acabava com as despedidas.
Saí da bicha e dirigi-me para o mercado de antiguidades que se faz nos passeios da Plaça de Catalunya.
Renovei uma busca que me acompanha há quase dois anos. Procuro um terço que me chame e me diga: "Leva-me! Estou aqui por insondáveis mistérios. Cheguei cá não importa por que caminhos. O que necessitas saber é apenas que aqui estou por ti e para ti, para te aconchegar, para te afagar o peito, para suster o bater descompassado desse teu coração sem paz, para te ancorar na luz que a tantos ofereces mas à qual não te permites."
Já enverguei um terço com uma história própria, uma história de Veneza, uma história linda mas que não era a minha. Talvez por essa razão nunca o tenha sentido como "meu". Dele me despedi com o coração destroçado, mas não por ele.
Ainda não foi hoje que a demanda conheceu o seu final.
Lembrei as palavras do poeta Senegalês Amadou Sall, apostas numa foto da exposição que visitei hoje pela manhã:
- Tant qu'il y a le ciel, il y a toujours l'espoir qu'un oiseau y passe.
Virei costas. Acelerei um passo que mais não pretendeu senão fugir às lágrimas dos que se continuavam a despedir.
Disse novamente adeus a Barcelona.
O autocarro arrancou. Sentei-me abraçado à mochila. Enquanto a Melody Gardot me sussurava ao ouvido Deep within the corners of my heart, a cidade de Gaudi foi ficando para trás, sob um céu acobreado pelos últimos estertores do sol que, também ele, fazia as despedidas de mais um dia, um dos últimos deste Outono Catalão.
Deep within the corners of my heart
Melody Gardot
25 dezembro 2010
Barcelona - Apontamentos de viagem I
19.12.2010
A Rambla continua imparável. Uma catadupa de gente pelo passeio central, subindo ou descendo, tornando quase impossível ao mais afoito dos mortais tentar atravessá-la lateralmente.
Esqueci-me de reservar mesa para o almoço no Can Culleretes. Fiquei para a mesa das 15,30 horas. Entretanto, na esquina da mesma rua (Carrer Quintana) fica a Mikel-Etxea, uma taberna basca que apresenta uns pinchos fora-de-série e que preencheram a espera.
Ontem à noite andei por Montjuïc. Vale muito a pena visitar. Os jardins, os equipamentos... tudo, tudo muito bonito. E a vida que por ali se leva... Aqueles arbustos devem ter muito que contar. É uma vertente de Barcelona a não menosprezar e a revisitar quando possível.
Não deixa de ser curioso como Barcelona parece ter sempre um pedaço mais para ver.
Não consigo evitar ser assolado por uma estranha sensação: a de que esta cidade - como provavelmente qualquer outra no mundo - não é algo de que se disfrute sózinho.
Tempos houve em que me dava um particular prazer palmilhar tudo no meu próprio passo. Já não é assim!
Estarei a ficar velho?
Estarei a ficar só?
A Rambla continua imparável. Uma catadupa de gente pelo passeio central, subindo ou descendo, tornando quase impossível ao mais afoito dos mortais tentar atravessá-la lateralmente.
Esqueci-me de reservar mesa para o almoço no Can Culleretes. Fiquei para a mesa das 15,30 horas. Entretanto, na esquina da mesma rua (Carrer Quintana) fica a Mikel-Etxea, uma taberna basca que apresenta uns pinchos fora-de-série e que preencheram a espera.
| Torre das Comunicações (Arq. Santiago Calatrava) Montjuïc |
Não deixa de ser curioso como Barcelona parece ter sempre um pedaço mais para ver.
Não consigo evitar ser assolado por uma estranha sensação: a de que esta cidade - como provavelmente qualquer outra no mundo - não é algo de que se disfrute sózinho.
Tempos houve em que me dava um particular prazer palmilhar tudo no meu próprio passo. Já não é assim!
Estarei a ficar velho?
Estarei a ficar só?
| Estádio Olímpico Montjuïc |
Entretém
Como o Natal é (por opção) sózinho, pelo segundo ano consecutivo, achei boa ideia vir aqui partilhar convosco os apontamentos de viagem feitos durante esta semana em Barcelona.
É um entretém como outro qualquer.
Vou dividir os textos em posts separados para não se tornarem maçadores. Ou publico-os durante vários dias. Ainda não sei.
Para já vou tratar dos meus cães.
Beijos e abraços.
Já agora (que sou um desprendido nestas coisas) Boas-Festas e Feliz Natal para todos.
Have yourself a merry little Christmas
Celtic Woman
É um entretém como outro qualquer.
Vou dividir os textos em posts separados para não se tornarem maçadores. Ou publico-os durante vários dias. Ainda não sei.
Para já vou tratar dos meus cães.
Beijos e abraços.
Já agora (que sou um desprendido nestas coisas) Boas-Festas e Feliz Natal para todos.
Have yourself a merry little Christmas
Celtic Woman
14 dezembro 2010
Pausa para uma lufada de ar
Não!...
Não me aconteceu nada de mau. Estou atrapalhado com o meu tempo, com a minha vontade, com a minha inspiração, enfim... com a minha vidoca.
Tenho saudades do blog.
Tenho saudades de muitos de vós que não vejo há demasiado tempo.
Voltarei!...
Não me aconteceu nada de mau. Estou atrapalhado com o meu tempo, com a minha vontade, com a minha inspiração, enfim... com a minha vidoca.
Tenho saudades do blog.
Tenho saudades de muitos de vós que não vejo há demasiado tempo.
Voltarei!...
09 dezembro 2010
04 dezembro 2010
BSO XIII

Set the fire to the third bar
Snow Patrol ft Martha Wainwright
Juntos ao Luar / Dear John (2010)
02 dezembro 2010
E para não parecer que estou demasiado cáustico...
Who's gonna save my soul
Gnarls Barkley
O que eu gosto desta canção...
Fáxavor de não mecher...
Com que então pensavam que só os construtores patos-bravos é que davam calinadas no belo Português?
Enganam-se!
Esta foto foi tirada num dos vários quartos da enfermaria do Serviço de Neurocirurgia de um hospital público da nossa praça.
(Não digo qual com receio que façam uma lobotomia a uma pessoa de família que lá tenho internada)
Como dizia o outro: E andou esta gente na universidade...
Sim... porque mecher no comando não é proeza ao alcance de qualquer um...
E assim se minimizam os números do desemprego em Portugal.
Considero-me um indivíduo particularmente atento às coisas que me dizem respeito, sobretudo se, ainda que muito remotamente, essas coisas envolverem o nosso Estado.
Inscrito que estava no Centro de Emprego do Seixal desde que fiquei desempregado há cerca de dois anos, fiz sempre questão de devolver todos os postais, postalinhos e postalões que me enviavam periodicamente a perguntar se continuava interessado na inscrição. Fui até, pasme-se, convocado para algumas acções de informação onde, sem qualquer vergonha pelo inequívoco desprezo manifestado pelos curriculos individuais, me quiseram ensinar a elaborar um Curriculum Vitae. Fui a todas... apesar da agonia.
Tendo mudado de domicílio (do Concelho do Seixal para o Concelho de Almada), desloquei-me hoje ao Centro de Emprego de Almada onde solicitei a alteração de morada. Responderam-me que o processo passaria por uma inscrição completamente nova uma vez que, por não ter devolvido um postal (O QUE É MENTIRA - MENTIRA - MENTIRA) em Dezembro de 2009, eu não me encontrava inscrito em qualquer centro de emprego. E tudo isto sem sequer ter ganho um Euro que fosse em subsídios de desemprego pois, por ter sido trabalhador liberal a emitir recibos verdes, nunca a tal mimo tive direito.
Fica um conselho a todos vós, extensível a todas as pessoas que conheçam na mesma situação:
- Confirmem periodicamente se a vossa inscrição continua em vigor. Estes marmanjos são capazes de tudo e mais alguma coisa, ainda que, para benefício das estatísticas, não hesitem em retirar das bases de dados o nome de uma pessoa perfeitamente qualificada e desesperadamente à procura de emprego.
Este ESTADO é uma vergonha e, infelizmente, alguns funcionários públicos, feitos lacaios, afinam pelo mesmo diapasão.
Inscrito que estava no Centro de Emprego do Seixal desde que fiquei desempregado há cerca de dois anos, fiz sempre questão de devolver todos os postais, postalinhos e postalões que me enviavam periodicamente a perguntar se continuava interessado na inscrição. Fui até, pasme-se, convocado para algumas acções de informação onde, sem qualquer vergonha pelo inequívoco desprezo manifestado pelos curriculos individuais, me quiseram ensinar a elaborar um Curriculum Vitae. Fui a todas... apesar da agonia.
Tendo mudado de domicílio (do Concelho do Seixal para o Concelho de Almada), desloquei-me hoje ao Centro de Emprego de Almada onde solicitei a alteração de morada. Responderam-me que o processo passaria por uma inscrição completamente nova uma vez que, por não ter devolvido um postal (O QUE É MENTIRA - MENTIRA - MENTIRA) em Dezembro de 2009, eu não me encontrava inscrito em qualquer centro de emprego. E tudo isto sem sequer ter ganho um Euro que fosse em subsídios de desemprego pois, por ter sido trabalhador liberal a emitir recibos verdes, nunca a tal mimo tive direito.
Fica um conselho a todos vós, extensível a todas as pessoas que conheçam na mesma situação:
- Confirmem periodicamente se a vossa inscrição continua em vigor. Estes marmanjos são capazes de tudo e mais alguma coisa, ainda que, para benefício das estatísticas, não hesitem em retirar das bases de dados o nome de uma pessoa perfeitamente qualificada e desesperadamente à procura de emprego.
Este ESTADO é uma vergonha e, infelizmente, alguns funcionários públicos, feitos lacaios, afinam pelo mesmo diapasão.
30 novembro 2010
Velha em paragem de autocarro
Sentada, de olhar perdido no vazio, aconchega no colo a carteira e o chapéu de chuva castanhos.
Leva uma mão à boca e corre todos os dedos em demanda de uma unha para roer. Desiste, exalando um suspiro de frustração que sai enrolado ao pescoço de uma baforada de ar quente.
Consulta o relógio.
Franzindo a tez, apura dois olhos míopes e procura, no fundo da rua, o autocarro que não chega.
Levanta a cabeça. Sorri...
Diverte-se com as nuvens que trabalham o azul do céu como uma renda de bilros. A lua, em quarto minguante, espreita lá de longe como que a dizer "gosto muito de ti!".
Pousando o queixo na palma de uma mão, cotovelo apoiado no joelho, pensa nos filhos que não lhe telefonam nem a visitam senão em ocasiões festivas. Procura um raciocínio que a console... Não estar perto de determinadas pessoas não significa que não as amemos. Por vezes, essa distância, esse estar apartado, faz com que as amemos ainda mais.
É isso!... Só pode ser isso!... O contrário seria impensável.
Interrompida pelo som familiar do transporte que chega, levanta-se do banco da paragem esboçando um esgar de dor. É só mais um pouco. Daqui a nada estará sentada no banco do autocarro, à janela, de olhar uma vez mais perdido no vazio.
Leva uma mão à boca e corre todos os dedos em demanda de uma unha para roer. Desiste, exalando um suspiro de frustração que sai enrolado ao pescoço de uma baforada de ar quente.
Consulta o relógio.
Franzindo a tez, apura dois olhos míopes e procura, no fundo da rua, o autocarro que não chega.
Levanta a cabeça. Sorri...
Diverte-se com as nuvens que trabalham o azul do céu como uma renda de bilros. A lua, em quarto minguante, espreita lá de longe como que a dizer "gosto muito de ti!".
Pousando o queixo na palma de uma mão, cotovelo apoiado no joelho, pensa nos filhos que não lhe telefonam nem a visitam senão em ocasiões festivas. Procura um raciocínio que a console... Não estar perto de determinadas pessoas não significa que não as amemos. Por vezes, essa distância, esse estar apartado, faz com que as amemos ainda mais.
É isso!... Só pode ser isso!... O contrário seria impensável.
Interrompida pelo som familiar do transporte que chega, levanta-se do banco da paragem esboçando um esgar de dor. É só mais um pouco. Daqui a nada estará sentada no banco do autocarro, à janela, de olhar uma vez mais perdido no vazio.
Tenho saudades deste homem

Fernando Assis Pacheco
01.02.1937/30.11.1995
Variações sobre um fado
Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis tua ausência.
Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.
Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
"Que me importa que batam à porta...
"Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.
Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
se lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.
Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?
in Cuidar dos Vivos
29 novembro 2010
Sons (de segunda-feira)
Speaking of Happiness
Gloria Lynne
[hoje apeteceu-me um oldie mais dengoso... Quero ir p'á (minha) ilha!!!!!!!!!!!!!!]
26 novembro 2010
Os "ers" e os "res" do nosso (des)contentamento.
Hoje fui deixar o meu xotas à escola e depois fui até ao Meco para matar o vício da pesca. Foi daquelas coisas que se faz em desespero de causa: o mar não estava minimamente em condições e a água era lusa, de um verde esmeralda cristalino.
Depois de um "para trás e para a frente" de cerca de três horas, achei por bem dar a campanha por terminada, até porque já contava com dois braços molhados e enregelados até aos cotovelos.
De regresso a casa e a um duche de água a escaldar, fiz-me à estrada.
Parei num stop no cruzamento da Aldeia do Meco para o Cabo Espichel e Alfarim. Como manda o código, abri bem a pestana em todas as direcções. Acto contínuo, dou de trombas com este magnífico cartaz que achei merecedor de uma foto.
Não foi bem o "assoalhdas" que me ficou na retina. O que me traumatizou verdadeiramente foi o "premuta-se".
Ora "pre"+"muta-se", seria um "antes" de "mutar"?
Se "mutar" significa mudar, será que o construtor pertendeu afirmar que está perparado e disponível para alterar a moradia de modo a encaixar prefeitamente nas perferências do cliente?
Estas mensagens subliminares não são preceptíveis assim a modos que logo à primeira. Para dizer a verdade, só me aprecebi da coisa enquanto esperava pelo almoço de entercosto guerlhado, entertido que estava na persença duma carzberg e duns termoços.
Esta ideia martelou-me o encéfalo de modo presistente até que precebi:
- Tenho que me matricular e ferquentar as novas oportunidades de modo a aprefeiçoar-me.
Se assim não for, estarei percocemente condenado.
Depois de um "para trás e para a frente" de cerca de três horas, achei por bem dar a campanha por terminada, até porque já contava com dois braços molhados e enregelados até aos cotovelos.
De regresso a casa e a um duche de água a escaldar, fiz-me à estrada.
Parei num stop no cruzamento da Aldeia do Meco para o Cabo Espichel e Alfarim. Como manda o código, abri bem a pestana em todas as direcções. Acto contínuo, dou de trombas com este magnífico cartaz que achei merecedor de uma foto.
Não foi bem o "assoalhdas" que me ficou na retina. O que me traumatizou verdadeiramente foi o "premuta-se".
Ora "pre"+"muta-se", seria um "antes" de "mutar"?
Se "mutar" significa mudar, será que o construtor pertendeu afirmar que está perparado e disponível para alterar a moradia de modo a encaixar prefeitamente nas perferências do cliente?
Estas mensagens subliminares não são preceptíveis assim a modos que logo à primeira. Para dizer a verdade, só me aprecebi da coisa enquanto esperava pelo almoço de entercosto guerlhado, entertido que estava na persença duma carzberg e duns termoços.
Esta ideia martelou-me o encéfalo de modo presistente até que precebi:
- Tenho que me matricular e ferquentar as novas oportunidades de modo a aprefeiçoar-me.
Se assim não for, estarei percocemente condenado.
25 novembro 2010
O jardim das emoções suspensas
Manhã.
A neblina envolve o ápice dos castanheiros.
Tudo é difuso e misterioso.
A natureza tem sempre o seu quê de indecifrável. Uma linguagem própria, inacessível, admiravelmente impenetrável.
Um salgueiro dispara em múltiplas direcções, como um jorro de lágrimas fotografado a baixa velocidade.
Bunganvílias pendem indiscretas, contorcendo-se no ar. O que não terão já presenciado?
As heras trepam os troncos, envolvendo-os como amantes enlaçados.
Bancos de jardim; canteiros de amores-perfeitos e imperfeitos. Afinal de contas, o que são estes? O que são aqueles? Ambos selvagens como as aroeiras que espreitam.
Um raio de sol desponta por entre o cinzento carregado das nuvens e, de repente, do chão germina uma imensa e labiríntica sombra. Sombra de encontros e desencontros, de caminhos e descaminhos.
O azul e o rosa das hortênsias ganham outra profundidade, um novo fôlego.
Somos muito pouco - se é que somos alguma coisa - aqui, esta manhã, neste jardim.
A neblina envolve o ápice dos castanheiros.
Tudo é difuso e misterioso.
A natureza tem sempre o seu quê de indecifrável. Uma linguagem própria, inacessível, admiravelmente impenetrável.
Um salgueiro dispara em múltiplas direcções, como um jorro de lágrimas fotografado a baixa velocidade.
Bunganvílias pendem indiscretas, contorcendo-se no ar. O que não terão já presenciado?
As heras trepam os troncos, envolvendo-os como amantes enlaçados.
Bancos de jardim; canteiros de amores-perfeitos e imperfeitos. Afinal de contas, o que são estes? O que são aqueles? Ambos selvagens como as aroeiras que espreitam.
Um raio de sol desponta por entre o cinzento carregado das nuvens e, de repente, do chão germina uma imensa e labiríntica sombra. Sombra de encontros e desencontros, de caminhos e descaminhos.
O azul e o rosa das hortênsias ganham outra profundidade, um novo fôlego.
Somos muito pouco - se é que somos alguma coisa - aqui, esta manhã, neste jardim.
20 novembro 2010
19 novembro 2010
Uma conversa banal
- Ó estafermóide... o que tás a fazer assentado na cadeira?
- Então não me mandastes assentar?
- Ráis'partam a nha vida! Era assentar no papel a lista das compras que dssestes qu'ias fazer...
- Atão vê lá se tesplicas p'kassim num pssebo.
- Alevanta-te mediatamente e faz-t'à vidoca.
- Fónix!
- Que foi agora?
- Entropecei no gaspacho?
- No quê?
- No gaspacho aqui da porta.
- No é gaspacho meu bronco. É capacho.
- É assim: já me tou quaise a passar cuntigo. Baixa lá a bola qu'o garda-redes é anão. P'qué que não vais tu ao spemercado? Tomá lá cem êros e destroca.
- Mas tu falastes qu'ias tu... há-des cá vir dzer paír lá abaixo à Ti Gracinda cumprar mines qu'eu conto-te uma estória...
- Ó môr!... Tu é qu'és uma vdadeira persunal pessas coisas: és mais grande qu'eu e chegas às parteleiras mais altas onde tão os pitaxios e os mindoins. Inclusiver tás sempe mais à coca com a fractura, pa ver s'as gajas num s'inganam...
- Tu num podes cmer pitaxios. É uma faca de dois legumes. Tanto pode cair bem como mal. Depois é só dores de estôgamo e toca a mamar aspergics. Olha qu'eu mando-te mediatamente p'hospital e ficas lá cum a sanha numaro treuze mil, no meio dos toxicoindependentes e daquela gente cheia de orticárias, patites B, rabeulas, tromboclubites e outras doenças avenéreas.
- Ó pá. Num sejas inxorbitante. E outa coisa: cando chegares c'as compras, num poises o saco das mines em cima do capom do mcedes p'qu'aquece as garrafas e mancha a pintura. Depois lá tem aqui o moiro qu'ir outa vez c'o carro po stander.
- Vai-te catar!
- Só se te sentares nos artelhos e pdires cum munto amor.
- Então não me mandastes assentar?
- Ráis'partam a nha vida! Era assentar no papel a lista das compras que dssestes qu'ias fazer...
- Atão vê lá se tesplicas p'kassim num pssebo.
- Alevanta-te mediatamente e faz-t'à vidoca.
- Fónix!
- Que foi agora?
- Entropecei no gaspacho?
- No quê?
- No gaspacho aqui da porta.
- No é gaspacho meu bronco. É capacho.
- É assim: já me tou quaise a passar cuntigo. Baixa lá a bola qu'o garda-redes é anão. P'qué que não vais tu ao spemercado? Tomá lá cem êros e destroca.
- Mas tu falastes qu'ias tu... há-des cá vir dzer paír lá abaixo à Ti Gracinda cumprar mines qu'eu conto-te uma estória...
- Ó môr!... Tu é qu'és uma vdadeira persunal pessas coisas: és mais grande qu'eu e chegas às parteleiras mais altas onde tão os pitaxios e os mindoins. Inclusiver tás sempe mais à coca com a fractura, pa ver s'as gajas num s'inganam...
- Tu num podes cmer pitaxios. É uma faca de dois legumes. Tanto pode cair bem como mal. Depois é só dores de estôgamo e toca a mamar aspergics. Olha qu'eu mando-te mediatamente p'hospital e ficas lá cum a sanha numaro treuze mil, no meio dos toxicoindependentes e daquela gente cheia de orticárias, patites B, rabeulas, tromboclubites e outras doenças avenéreas.
- Ó pá. Num sejas inxorbitante. E outa coisa: cando chegares c'as compras, num poises o saco das mines em cima do capom do mcedes p'qu'aquece as garrafas e mancha a pintura. Depois lá tem aqui o moiro qu'ir outa vez c'o carro po stander.
- Vai-te catar!
- Só se te sentares nos artelhos e pdires cum munto amor.
Auto-censura
Não me apeteceu guardar o "Valha-nos Jesus" e, vai daí, apaguei-o.
O lápis azul atacou pela primeira vez neste blogue. Hmmmm... curioso precedente. Espero que seja uma vez sem exemplo.
O lápis azul atacou pela primeira vez neste blogue. Hmmmm... curioso precedente. Espero que seja uma vez sem exemplo.
16 novembro 2010
Eu e a Cidade: AO MAIS ALTO NÍVEL
Eu e a Cidade: AO MAIS ALTO NÍVEL: "Hoje a minha amiga Paula, que está sempre muito atenta, mandou-me um email acerca da “febre do mestrado” que tem assolado o nosso país nos ..."
15 novembro 2010
O que será que será?...
Não se passa nada de extraordinário a não ser o facto de me encontrar muito cansado. Mas nem por isso tenho descurado o meu caderno de notas.
Voltarei!
Voltarei!
10 novembro 2010
Desafio-vos a não rir.
Peço desculpa por algumas calinadas mas a legendagem não é da minha responsabilidade.
Heil Hitler!
09 novembro 2010
Enganou-se no comprimido.
Será que o miúdo se enganou no comprimido e foi ao frasco do amobarbital sódico? De repente deu-lhe para este chorrilho de verdades...
Só pode!...
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