27 outubro 2006

Lindo!...



Ora digam lá se não é bonito.

Que bom que seria se todos conseguíssemos viver sem qualquer constrangimento ou preocupação. Que o simples acto de uma demonstração de afecto, dada ou recebida, estivesse ao alcance de qualquer um de forma tão acessível quanto o ar que respiramos.
Honestamente vos confesso que fiquei emocionado com este vídeo.

Visto pela 1ª vez aqui.

Homenagem

José Rodrigues Miguéis
Escritor
09/12/01 - 27/10/80

Ponho-me a olhar a Avenida cá de cima, da minha água-furtada e meu refúgio, e digo-lhe, seu Apolinário: tudo isto levou uma grande volta. Antigamente vivia-se aqui como num céu aberto. Nem faz idéia. Onde isto vai, parece que não, os dias passam devagar, mas os anos vão-se depressa. A gente só dá por isso quando já não há remédio.
Foi nos começos da República, e eu, de calção, com os sapatos nas poças da chuva, travava os primeiros corpo a corpo com a gramática latina e o verbo Amar. A Avenida era então novinha em folha, como o regime. Começava lá em baixo, num boqueirão sinistro, um rio de lama onde às vezes havia inundações e gritos, entre ribanceiras e prédios esguios, e ia-se perder ao alto, nas quintas e azinhagas. As casas, modestas e limpinhas, tinham fachadas de azulejo de mau gosto, outras eram pintadas a cor. Havia as "terras", lotes vagos de barro viscoso onde a gente ia "reinar", e as carroças se atolavam até aos eixos, com muitas pragas dos carroceiros. As árvores eram frágeis e verdes, de mocidade e esperança. Que sossego o desses dias agitados! Isso não era Avenida, era a Rua do Lá-Vai-Um. O mundo acabava-se ali no redondel da praça: um muro decrépito e, para além dele, era a poesia, o silêncio, o bucolismo e a Perna-de-Pau. As noites uma paz. A brisa trazia lá de cima um cheiro fresco de húmus, de estrumes, de águas e verduras. As meninas pensativas, cheias de Júlio Dinis e pescadinha frita, dedidavam pianos langues, aguitarrados, com as janelas escancaradas, ou então escutavam pelas sacadas, em roupas leves, flutuantes, a voz dos Tenórios empregados em escritórios, gemendo o fado nas ruas: "Ó pálida madrugada, já tenho saudades tuas..."
O luar encharcava a noite, entrava em cascata pelas janelas, vinha ter connosco à cama. As luzes eram raras e mortiças, de gás incandescente. Pairava no ar um resto de Cesário, e muito José Duro e amargo. Noite morta, pelas dez, passava o varino dos jornais, descalço, anelante da maratona em que vinha desde a Baixa, apregoando "A Capital" - e a voz dele tinha tal desgarramento de mundo perdido, que eu, na minha cama fria de impúbere, a seguir-lhe em mente os passos, sentia um aperto na garganta, e uma irresistível vontade de chorar. Pela meia-noite podia-se ouvir um alfinete nas pedrinhas da calçada - às vezes era um morto que tombava, a tiro... Altas horas, trambolhavam rua abaixo as carroças de bois carregadas de hortaliça, a caminho dos mercados. Os carroceiros, de gabão, dormiam sentados nos varais. Passavam tipóias derreadas de boémios e fêmeas que iam madrugar para as hortas. A Júlia Mendes morrera havia pouco...
De dia passavam funerais na lama, ou à torreira do sol, enterrando Chopin juntamente com o falecido-cujo: vinha tudo às janelas ver a carreta da Voz do Operário puxada a braço, aos trancos-barrancos nas covas do futuro pavimento, sacudindo no ar os penachos das flores da Praça da Figueira em cartuchos de papel. "Leva tantas flores!", dizia alguém, com esta nossa secreta admiração pelo luxo na morte; ou, se a carreta era branca: "É um anjinho, aquele vai pró Céu!" A Avenida era uma grande artéria por onde corriam a vida e a morte.


Léah e Outras Histórias, 1959

26 outubro 2006

O mistério da vida

Hoje proponho-vos uma viagem pelo site do fotógrafo Frans Lanting. Prestem especial atenção ao slideshow intitulado "LIFE - A journey through time" (VIDA - Uma viagem através do tempo). Para além da beleza das fotografias, o visitante pode optar por aceder a uma barra cronológica que o situa no tempo, relativamente ao estágio da evolução que determinada foto pretende ilustrar. De igual modo, se quisermos saber mais sobre alguma fotografia em especial, basta que façamos click sobre ela. A apresentação pára momentâneamente para dar lugar a um conjunto detalhado de informações.
Depois digam o que acharam.

Homenagem




José Malhoa
Pintor e escultor
28.04.1854 / 26.10.1933

Homenagem

José Cardoso Pires
Escritor
02.10.25 / 26.10.98

"Há novidade?", bradavam os guardas quando chegavam ao termo do rasto levantado - à herdade iluminada, ao abrigo do pastor ou ao portão defendido pelos cães.
Nem sempre encontravam resposta pronta. Num caso ou noutro abriam-se janelas de mansinho e os cavaleiros varriam, palmo a palmo, com o foco das suas lanternas, os muros, as sombras e os portões.
"Fala a Guarda! O da casa!"
No monte dos Mais recebia-os o feitor, com um grande lobo-de-alsácia pela trela. Oferecia-lhes café e descrevia alcateias de camponeses que assaltavam as redondezas. Os guardas acenavam com a cabeça mas não adiantavam muito. Sabiam que se tratava de ganhões sem trabalho que infelizmente corriam os restolhais, procurando sustento na caça.
"Se não têm política é o menos", diziam.
"Como é o menos? Então a Venatória permite que andem a caçar no defeso? Isso não é crime, senhores guardas? Não é contra o alheio, digam-me?"
Os cavaleiros do sargento Leandro habituaram-se a estas queixas contra os malteses com fome. Ao romper da manhã iriam levantá-los aos montados, suspreendendo-os à cajadada nas moitas.
Achavam-nos em pequenos bandos, ou isolados como vultos solitários, vultos breves, esfiapados na frescura e na primeira claridade do dia.
Láparos, pássaros velhos, tudo o que viesse ao alcance desses ganhões morria. Depois saltavam à estrada e sacudiam os despojos à passagem de turistas e de viajantes:
"Amigo, compre-me esta caça".
Não esmolavam, apresentavam a sua necessidade:
"Amigo, compre-me esta caça".
Os guardas espantavam-nos só com as suas figuras, perfilados no alto dos cavalos. Compreendiam que, na cega perseguição em que se meteram, iam igualmente arrastados no mesmo vento que varre a planície e que leva por diante malteses e caça pobre. Mas, soldados da lei, viam-se diante dos lavradores inquietos, os tais que lhes serviam café e que não dormiam com o pavor das alcateias, e, acenando que sim, continuavam a cavalgada de Setembro, dia e noite através dos campos, até à pausa da ordem naquele largo de Cimadas.

O Hóspede de Job (1963)

25 outubro 2006

Mais um atentado à Cultura portuguesa.

Adeus Museu de Arte Popular!
O Museu de Arte Popular, em Belém, Lisboa, vai fechar e ser substituído pelo Museu Mar da Língua, alusivo aos Descobrimentos (...).
Aplaude-se o encerramento e a escolha da nova temática. Com o importantíssimo núcleo museológico sobre a Expansão portuguesa apresentado pela exposição permanente do Museu de Marinha, que se situa a apenas algumas centenas de metros, a escolha do tema Descobrimentos vem tão a propósito quanto ír vender areia para o deserto ou gelo para o Ártico. A menos que o objectivo seja, paralelamente, o de esvaziar de conteúdos e de razão de existir os organismos culturais tutelados pelas Forças Armadas. Não seria a primeira vez que tal acontece, nem haveria de ser a última. Trata-se de um património da máxima importância que suscita a gula de alguns iluminados. Foi assim no tempo de Santana Lopes - enquanto Secretário de Estado da Cultura - e de Simoneta Luz Afonso. Será que é caso para dizer Eu ainda sou do tempo em que...?
Uma coisa é certa. Este Governo é constituído por tanto génio iluminado que, um destes dias, bem o poderemos acusar de ser o responsável pela crise energética que, inevitavelmente, advirá de tanta iluminação.

23 outubro 2006

Caminhada na "Serra da Lua"

Aquilo que era para ter sido (mais) uma bela oportunidade para disfrutar da miríade de espécies de flora e fauna da Serra de Sintra, das paisagens a perder de vista até às Berlengas e da limpeza de filtros através da inspiração de puro oxigénio foi, afinal de contas, uma marcha forçada de cerca de 16 kms (e porque se atalhou caminho).
Debaixo de uma imensa chuvada por vezes tocada a rajadas de vento a raiar o temporal, a caminhada teve pelo menos a virtude de testar o material até ao limite. Ficámos ontem a saber que a bota esquerda mete água e que o impermeável, ao fim de seis anos de uso intensivo sob água doce e água salgada, entregou, finalmente, a alma ao criador.
O nevoeiro bailava selvagem pelos ares e a visibilidade máxima seria de cerca de 50 metros, (no Convento da Peninha não excederia os 10 metros).
À chegada aos carros no final da caminhada, a única coisa que trazia seca era o céu da boca. Foi despir tudo e ficar de tronco nú, qual Bô Franceneide, transando o corpo numa nice (para quem ainda se lembra de Jô Soares), sob chuva copiosa.
A coisa foi de tal maneira que, enquanto nos preparávamos para zarpar, caiu um galho de Acácia em cima de um Fiat Uno, provocando-lhe uma amolgadela considerável no tejadilho.
Apesar de nos considerarmos caminheiros bem equipados, o capacete não faz parte da nossa palamenta, pelo que achámos que era chegada a hora da partida.
Todos ouviram já falar dos misticismos de Sintra. Para quê desafiar as energias negativas?
Para, pelo menos, terem uma ideia do que se poderia ter visto, deixo-vos um link que, embora comercial (e ninguém me pagou para isso), apresenta uma série de fotos lindíssimas. Vão certamente perceber do que estou a falar.

Juro que não fui eu!

No Iraque nem tudo é sofrimento. Como é que se consegue? Paradoxalmente é à custa do aumento exponencial do sofrimento dos outros.

22 outubro 2006

A secretária do Sócrates

A secretária do Sócrates estava apaixonada por ele mas o nhurro não percebia ou, decididamente, não era de febra mas sim de enchidos que gastava.
Um dia, depois do expediente, ela entrou na sala dele, com um vestido provocante, super decotado, fechou a porta atrás de si e caminhou languidamente até à secretária. Com ares de Mónica Lewinski perguntou-lhe:
- Sr. Primeiro Ministro, vamos fazer uma sacanagem?
- É p'ra já! Onde é que assino?

Conversas em família LII

21 outubro 2006

Travestis políticos

Nunca se viu tão fantástica unanimidade mediática sobre um projecto de Orçamento de Estado. Os economistas continuam a fingir não entender que alimentam um monstro, autofágico, que já começou a engolir a própria cauda. Sabemos que somos vítimas do PEC, da Europa, da globalização, e do fantástico poder do dinheiro. Mas é lastimável que os nossos maiores carrascos sejam sempre os nossos governantes. Sócrates e as suas pequenas marionetas não têm imaginação, nem capacidade técnica, nem doutrinal ou humana para mais. Já mostraram tudo quanto têm para dar.
Incapaz de gerir as receitas do Estado ou de promover o crescimento económico, Sócrates, para recolher aplausos, refugia-se na política do corte. Sem anestesia, nem transfusões. Por isso se não entende tão grande unanimidade opinativa face às graves agressões deste orçamento. Porque este Governo não avança a direito. Faz umas curvas apertadas. Escolhe as suas vítimas e protege, sem vergonha, as suas melhores clientelas. O alarme de Jorge Coelho é sintomático. As almas de Sócrates, Campos, Pinho e outros ditos ‘governantes’ têm direito a inscrição a ouro no livro de honra da mais detestável das direitas. A que suga a vaca até a matar. Desapiedada. Que se não comove com os mais desfavorecidos e está sempre pronta para os atirar ainda mais para baixo na escala social. Quem se não incomoda em diminuir salários reais, quem agrava a carga fiscal dos reformados e deficientes, quem aumenta descontos para a CGA, quem todas as semanas corta nos medicamentos e na assistência médica e aumenta taxas moderadoras, quem ameaça diminuir 27% nos encargos do Estado com a ADSE, quem (no meio desta tempestade) cria excepções para a Banca oferecendo-lhe, como brinde, um regime de favor no apuramento dos seus impostos, não tem sequer direito a andar na rua de cara descoberta. E provoca náuseas quando insiste em dizer-se socialista. Deus livre os socialistas destes atabalhoados travestis políticos.
No limite, todos os socialistas que se empenhem em devolver alguma dignidade à vida política ver-se-ão obrigados a varrer os impostores e a votar na Direita (única alternativa conjuntural) para salvar as tradições e o bom-nome da Esquerda socialista, a sua cultura e os seus valores. Que são uma realidade histórica a respeitar. E que Sócrates aposta em esfrangalhar. Não é uma política restritiva e de rigor que está em causa. É o facto de essa política ser vesga. Maltratar (e beneficiar) sempre os mesmos. Sócrates massacra os portugueses mais desprotegidos com brutais restrições. Que são imediatas. Efectivas. Actuais. Indignas. E empobrecedoras. E nada oferece em troca senão mentirosas miragens. No que diz respeito à sua política social, este Governo espera que os mais velhos morram depressa e fia-se na adaptação e resignação dos mais novos, que não têm a memória de melhores dias. É este o seu programa.

João Marques dos Santos, Advogado
in "Opinião", Correio da Manhã, 20.10.2006

20 outubro 2006

19 outubro 2006

Circula por aí.

Diz o americano: na América, temos um porta-aviões que transporta 1000 aviões!!!!!
Diz o francês: na França, temos um hotel que acomoda 20000 pessoas!!!
Diz o português: eu tenho uma piça onde cabem 200 passarinhos empoleirados!

Passado um bocado:

Diz o Americano: eu exagerei!.. o porta aviões só leva 150 aviões!
Diz o Francês: eu também exagerei, o hotel só dá para 1000 pessoas!!
Diz o Português: eu confesso que também exagerei um bocadinho. O último pássaro já fica com uma patita de fora!!!...

Só para fazer pirraça.

Domingo há caminhada em Sintra. Mais 20 kms nas perninhas do menino.

Ora toma!

Haja alguém (que não apenas eu, que não mando nada) que chame os bois pelos nomes.

Não há direito!

Não há direito que se façam coisas destas ou destas.
É um verdadeiro atentado a dois dos mais depauperados sectores da vida económica nacional.
No entanto, não deixa de ser interessante vê-los olhar um para o outro e exclamar recíprocamente: 'Tadinho do crocodilo!
Já agora, outra coisa ainda mais reprovável é o Estado vir acenar com a baixa do preço de alguns medicamentos como se fosse algo que compensasse as medidas de "aperta-tu-o-cinto-que-a-mim-não-me-apetece", esquecendo-se de referir que, com a descida dos preços, descem igualmente os montantes das comparticipações, pois estes são aplicados percentualmente. No mínimo, a isto chama-se desonestidade intelectual.
 

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