15 abril 2011
Beethoven ft. Perez Prado
E depois venham-me cá com histórias que existem gaps geracionais que impedem as crianças de gostar de música clássica e que as modas prevalecem sobre a qualidade. Dêm-me 3 minutos numa sala com miúdos e eu explicar-lhes-ei como o Rap ou o Hip-Hop são para a sociedade de hoje tão revolucionários como o foi a música de Wagner no seu tempo. Ou como o arroz de favas do nosso Eça era tão à frente como esta junk food que por aí grassa, mas muito mais saudável. Ou ainda, como o grafitti tem tanto de inovador, de artístico e de contestatário e rebelde como o movimento futurista do início do século XIX.
Dêem-me uma escola nova para os nossos filhos...
12 abril 2011
A HISTÓRIA DE UM DIA
A abóbada da tarde mais uma vez acaba
o sol de a fechar sobre a minha diária aventura
Viram-no partir pontualmente à mesma hora
quando num pouco de dia a um canto sempre a um canto
já eu tinha conseguido arredondar
uma íntima ampola de som para a palavra definitiva
Ia mesmo soltá-la eu que todo o dia fui para ela quando
ele me deixou e foi abrir outras portas
erguer verticalmente caídas esperanças
e passar novas mãos por tantas faces mortas
Só me resta recolher o meu rebanho de pensamentos
com um vago rumor de guizos
enquanto à beira-mar os camponeses deixam
palavras não aladas cair na água morta
Morro irremediavelmente nesses pensamentos
que ainda agora o sol iluminava
enquanto eu os estendia e os recolhia
e os orientava numa direcção que convinha
e os precipitava sobre o fumo de uma casa
sobre um buraco de luz ou uma coluna de fumo
mais volúveis que um bando de pássaros
Morro mais uma vez criticamente completo
Todos os gestos
carregados com vinte e quatro horas de história
de ventre ferido na aventura do restolho
petrificaram inevitavelmente
na face orientada de uma estátua
aqui ou noutro jardim
Todo o caminho é de regresso
Amanhã serei outro:
lavarei os dentes com toda a solenidade
como antigamente meu pai antes das grandes viagens
enquanto alguém no espelho
se encarregará de olhar pelos meus olhos
Assim sou passado de dia em dia
confiado pelo dia que parte ao dia que chega
não venha o sino que ao longe toca perturbar
as linhas de um rosto que recompus
e pus de pé na atmosfera doméstica
Fechar um postigo pode ser um gesto cheio de significado quando
na arrumada paisagem quotidiana
a expectativa marcada pela funda inspiração
nos revela duas ou três mãos
postas sobre a colina
Amanhã serei outro
Ruy Belo
Aquele Grande Rio Eufrates
o sol de a fechar sobre a minha diária aventura
Viram-no partir pontualmente à mesma hora
quando num pouco de dia a um canto sempre a um canto
já eu tinha conseguido arredondar
uma íntima ampola de som para a palavra definitiva
Ia mesmo soltá-la eu que todo o dia fui para ela quando
ele me deixou e foi abrir outras portas
erguer verticalmente caídas esperanças
e passar novas mãos por tantas faces mortas
Só me resta recolher o meu rebanho de pensamentos
com um vago rumor de guizos
enquanto à beira-mar os camponeses deixam
palavras não aladas cair na água morta
Morro irremediavelmente nesses pensamentos
que ainda agora o sol iluminava
enquanto eu os estendia e os recolhia
e os orientava numa direcção que convinha
e os precipitava sobre o fumo de uma casa
sobre um buraco de luz ou uma coluna de fumo
mais volúveis que um bando de pássaros
Morro mais uma vez criticamente completo
Todos os gestos
carregados com vinte e quatro horas de história
de ventre ferido na aventura do restolho
petrificaram inevitavelmente
na face orientada de uma estátua
aqui ou noutro jardim
Todo o caminho é de regresso
Amanhã serei outro:
lavarei os dentes com toda a solenidade
como antigamente meu pai antes das grandes viagens
enquanto alguém no espelho
se encarregará de olhar pelos meus olhos
Assim sou passado de dia em dia
confiado pelo dia que parte ao dia que chega
não venha o sino que ao longe toca perturbar
as linhas de um rosto que recompus
e pus de pé na atmosfera doméstica
Fechar um postigo pode ser um gesto cheio de significado quando
na arrumada paisagem quotidiana
a expectativa marcada pela funda inspiração
nos revela duas ou três mãos
postas sobre a colina
Amanhã serei outro
Ruy Belo
Aquele Grande Rio Eufrates
25 março 2011
24 março 2011
Destinos
Algum dia, em alguma parte, em qualquer lugar,
encontrar-te-ás a ti mesmo e essa, só essa,
pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas.
Pablo Neruda
Times Like These (Acoustic Version)
Foo Fighters
encontrar-te-ás a ti mesmo e essa, só essa,
pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas.
Pablo Neruda
Times Like These (Acoustic Version)
Foo Fighters
21 março 2011
Dia do Pai 2011 - Rabo de Peixe Margem Sul
A cabra cega das maçãs (com as costas feitas num ponto de interrogação e segurando um saco de gelo com a mão direita).
Quando as mães são de mão-cheia, ser pai é facílimo! ;-)
Quando as mães são de mão-cheia, ser pai é facílimo! ;-)
18 março 2011
17 março 2011
Uma noite
Depois de mais uma estirada trôpega e vacilante, ele sucumbiu ao peso da lua cheia que iluminava o céu da aldeia. Deixou-se ficar sentado na valeta, de braço-dado com a estrada poeirenta.
Ela passou em galope veloz, montada na garupa da sua soberba.
Ele sorriu.
Um dia – pensou – um dia a humildade estampar-se-á na tua vida como cinco dedos na cara.
Soergueu-se e procurou o rumo de casa. Pensou num banho quente, no velho cadeirão coçado e num livro de poesia. Sim… de poesia, esse pasto da alma, esse vento Siroco que sempre depositara nas suas mãos eternas sementes de inquietação. Nela mergulhava todas as noites, como se num mar verde esmeralda. Fundo, tão fundo até onde o verde fica mais turvo e se soltam os gritos há muito tempo calados.
Ao retornar de cada uma dessas viagens, a sua existência não era mais a mesma, a sua consciência não estava já onde a havia deixado.
Um cachorro escanzelado atravessou-se-lhe ao caminho. Meio a medo, afoitou-se à força de tanta fome, com a cauda entre as pernas. Ganhou os restos de um pedaço de pão duro. Tudo se partilha, até mesmo a miséria quando nada mais há para partilhar.
Tirou do bolso uma garrafa de esperança. Sorveu um trago… e ainda outro.
Cerrou os olhos, deixou que a sua cabeça pendesse para trás. Inspirou fundo engasgando-se com a resposta de dois pulmões cheios de fumo e de mágoa.
Suspirou...
Contemplou o céu...
Avançou...
Viveu!
Sem cor
Dr1ve
Ela passou em galope veloz, montada na garupa da sua soberba.
Ele sorriu.
Um dia – pensou – um dia a humildade estampar-se-á na tua vida como cinco dedos na cara.
Soergueu-se e procurou o rumo de casa. Pensou num banho quente, no velho cadeirão coçado e num livro de poesia. Sim… de poesia, esse pasto da alma, esse vento Siroco que sempre depositara nas suas mãos eternas sementes de inquietação. Nela mergulhava todas as noites, como se num mar verde esmeralda. Fundo, tão fundo até onde o verde fica mais turvo e se soltam os gritos há muito tempo calados.
Ao retornar de cada uma dessas viagens, a sua existência não era mais a mesma, a sua consciência não estava já onde a havia deixado.
Um cachorro escanzelado atravessou-se-lhe ao caminho. Meio a medo, afoitou-se à força de tanta fome, com a cauda entre as pernas. Ganhou os restos de um pedaço de pão duro. Tudo se partilha, até mesmo a miséria quando nada mais há para partilhar.
Tirou do bolso uma garrafa de esperança. Sorveu um trago… e ainda outro.
Cerrou os olhos, deixou que a sua cabeça pendesse para trás. Inspirou fundo engasgando-se com a resposta de dois pulmões cheios de fumo e de mágoa.
Suspirou...
Contemplou o céu...
Avançou...
Viveu!
Sem cor
Dr1ve
16 março 2011
Navegar
Saio do combóio. A estação fervilha de vida nesta manhã de Março.
Cruzam-se estados de espírito, alegrias e preocupações. Cruzam-se pessoas, cruzam-se sonhos, cruzam-se vidas.
A vibração é ininteligível. Dá vontade de nos elevarmos acima da mole humana, abrir as asas e sacudir os nossos tormentos.
Deviamos todos poder ser capazes de nos melhorar com a mesma facilidade com que um pequeno pardal se lava numa poça de água.
Sorvo o momento; sigo caminho.
Hoje tenho uma arguição de Mestrado na Faculdade. É a vez da Sónia... A Sónia e as incontornáveis angústias de quem está preparadíssima mas teima em achar que não. Vai fazer um brilharete. Eu sei que sim!...
É cedo. Sento-me ao sol.
Fecho os meus olhos. Surgem-me os teus, devolvendo a sensação de cada despertar outrora experimentada.
Faltas-me... mas não te quero!
A vaga foi fresca, cristalina, renovadora. Mas não passou disso mesmo: uma vaga que cresceu, nos envolveu e rebentou em todo o seu esplendor. Espraiou-se na praia da vida deixando nada mais do que uma memória sofrida.
A vida é assim mesmo. Mas as marés são muitas e as vagas muitas mais.
De uma coisa eu tenho a certeza: este batel mudou de rumo.
Não lhe diviso o destino.
Não quero, sequer, perder tempo com isso.
Por ora, basta-me o simples navegar...
Sailing
Christopher Cross
Cruzam-se estados de espírito, alegrias e preocupações. Cruzam-se pessoas, cruzam-se sonhos, cruzam-se vidas.
A vibração é ininteligível. Dá vontade de nos elevarmos acima da mole humana, abrir as asas e sacudir os nossos tormentos.
Deviamos todos poder ser capazes de nos melhorar com a mesma facilidade com que um pequeno pardal se lava numa poça de água.
Sorvo o momento; sigo caminho.
Hoje tenho uma arguição de Mestrado na Faculdade. É a vez da Sónia... A Sónia e as incontornáveis angústias de quem está preparadíssima mas teima em achar que não. Vai fazer um brilharete. Eu sei que sim!...
É cedo. Sento-me ao sol.
Fecho os meus olhos. Surgem-me os teus, devolvendo a sensação de cada despertar outrora experimentada.
Faltas-me... mas não te quero!
A vaga foi fresca, cristalina, renovadora. Mas não passou disso mesmo: uma vaga que cresceu, nos envolveu e rebentou em todo o seu esplendor. Espraiou-se na praia da vida deixando nada mais do que uma memória sofrida.
A vida é assim mesmo. Mas as marés são muitas e as vagas muitas mais.
De uma coisa eu tenho a certeza: este batel mudou de rumo.
Não lhe diviso o destino.
Não quero, sequer, perder tempo com isso.
Por ora, basta-me o simples navegar...
Sailing
Christopher Cross
07 março 2011
04 março 2011
Diálogos poéticos
Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos.
Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens.
Que viemos, amámos, pecámos e partimos
Como a água das chuvas.
Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
Do que dizem e pensam
E que a nossa aventura, é no vento que passa que a ouvimos,
É no nosso silêncio que perdura.
Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
E que enterrámos vivo o fogo que nos queima.
Tu lhes dirás, meu amor, se for preciso,
Que nos espreguiçaremos na fogueira.
José Carlos Ary dos Santos
SEMPRE
Como se os nossos corpos rebolassem num colchão de palavras,
nadei nos conceitos que me sussurraste ao ouvido,
nas frases soltas que tomaram forma afirmativa do meu e do teu ser!
Gemi as exclamativas frases que me arrancaste do fundo do peito...
Amei-te num futuro mais-que-perfeito!
Bani dos meus horizontes o modo condicional do verbo sentir e usei o gerundio do gosto de sorrir...
Num complemento circunstâncial de modo...
Amei-te!
No circunstâncial de lugar fiquei à espera
que o circunstâncial de tempo fosse um segundo...
do tamanho do mundo!
Antes do amo coloquei um pronome pessoal
e a seguir um reflexo
e vi que tinha nexo o que acabei de te dizer!
Muni-me então do campo lexical de tempo...
Sob a forma determinante da interrogativa
e surgiu o quando?
logo seguido da verbalização angustiada
do amanhã?
Apenas concluí no modo docemente circunstancial,
com a única temporal que eu senti:
Sempre!
Cristina Fidalgo
27 fevereiro 2011
Água na boca...
Antes
Depois
Polvo assado com pimenta da Jamaica, puré de legumes e alecrim.
Batatinha assada em azeite, alho descamisado e tomilho.
Migas à minha maneira.
Mousse de pera abacate com redução de melaço e aguardente de cana.
Depois
Polvo assado com pimenta da Jamaica, puré de legumes e alecrim.
Batatinha assada em azeite, alho descamisado e tomilho.
Migas à minha maneira.
Mousse de pera abacate com redução de melaço e aguardente de cana.
23 fevereiro 2011
Conversas à boca do forno.
Domingo passado; Vimeiro; fábrica do pão.
- Então Ti Henrique? Anda desasado?
O homem, aparentando sessentas e algo, alto, camisa de xadrez e boné na cabeça, aproximou-se exibindo o braço direito ao peito, pendurado numa tira de gaze, e uma generosa tala no dedo médio.
- Vim à bôla para a rapaziada picar - disse apontando para um pavilhão rústico onde se jogavam cartas e chinquilho.
- O que lhe aconteceu, homem?
- Olhe, não quer lá ver a p...ta da minha sorte? Apanho g'andes babadeiras todos os dias; caio da mota no caminho p'a casa... nunca m'aleijei, só uns arranhõezitos de vez em quando. Ontem de manhã alevantei-me cedo p'a ir aos ouriços. Estava sentado no sofá da sala a calçar as meias e à espera qu'a melher me fizesse o piquen'almoço. Tenho um cão e uma cadela pequ'nitos. Fod...-se! Não é qu'aqueles filhos duma granda p...ta se pegam à dentada? Com a pressa de m'alivantar do sofá, escorregou-se-me o tapete do chão debaixo dos pés e catrapumba, arrebati de costas em cima dos mosaicos, caindo com o cú em cima da mão direita. Parti o dedo do meio!... Já viu isto?... Por causa do car...lho dos cães? S'eu ad'vinhasse tinha deixado que se comessem à dentada. É qu'ainda por cima foi a mão direita. Não posso conduzir a mota; não consigo jogar às cartas nem ao chinquilho e até a garrafa da mine não me dá jeito nenhum segurar com a mão esquerda.
- Porra, homem! Isso é que foi azar hein?
- É verdade. Ainda na véspera tinha saido daqui à uma da manhã com uma cadela danada. Na subida das belas - não sei como arranjei a coisa - desinqu'librei-me e taruz... estatelado no chão e ainda por cima no meio da estrada. Fiquei debaixo da mota. Quis sair debaixo daquela m...rda mas não tinha forças. Pois c'a babadeira que levava nos cornos... Vai daí, pensei: Olha... f...da-se! Deixa-te estar! E foi o que fiz. Puxei do tabaco e deixei-me ficar. Passado p'aí uma meia hora vejo dois faróis a virem pela estrada acima. Parou uma pick-up cinzenta à minha beira. Era um primo meu... "atão Henrique? O que fazes aí caido no meio da estrada?". Eu respondi-lhe "Olha... tou aqui fumando um cigarrito!".
[gargalhada generalizada]
- Então vá Ti Henrique. Leve lá a Bôla aos homens ou eles ainda julgam que se perdeu p'lo caminho.
- Ok! Passem bem que eu vou beber mais copo. Até mais!
- Até logo!
(Conversa verídica)
- Então Ti Henrique? Anda desasado?
O homem, aparentando sessentas e algo, alto, camisa de xadrez e boné na cabeça, aproximou-se exibindo o braço direito ao peito, pendurado numa tira de gaze, e uma generosa tala no dedo médio.
- Vim à bôla para a rapaziada picar - disse apontando para um pavilhão rústico onde se jogavam cartas e chinquilho.
- O que lhe aconteceu, homem?
- Olhe, não quer lá ver a p...ta da minha sorte? Apanho g'andes babadeiras todos os dias; caio da mota no caminho p'a casa... nunca m'aleijei, só uns arranhõezitos de vez em quando. Ontem de manhã alevantei-me cedo p'a ir aos ouriços. Estava sentado no sofá da sala a calçar as meias e à espera qu'a melher me fizesse o piquen'almoço. Tenho um cão e uma cadela pequ'nitos. Fod...-se! Não é qu'aqueles filhos duma granda p...ta se pegam à dentada? Com a pressa de m'alivantar do sofá, escorregou-se-me o tapete do chão debaixo dos pés e catrapumba, arrebati de costas em cima dos mosaicos, caindo com o cú em cima da mão direita. Parti o dedo do meio!... Já viu isto?... Por causa do car...lho dos cães? S'eu ad'vinhasse tinha deixado que se comessem à dentada. É qu'ainda por cima foi a mão direita. Não posso conduzir a mota; não consigo jogar às cartas nem ao chinquilho e até a garrafa da mine não me dá jeito nenhum segurar com a mão esquerda.
- Porra, homem! Isso é que foi azar hein?
- É verdade. Ainda na véspera tinha saido daqui à uma da manhã com uma cadela danada. Na subida das belas - não sei como arranjei a coisa - desinqu'librei-me e taruz... estatelado no chão e ainda por cima no meio da estrada. Fiquei debaixo da mota. Quis sair debaixo daquela m...rda mas não tinha forças. Pois c'a babadeira que levava nos cornos... Vai daí, pensei: Olha... f...da-se! Deixa-te estar! E foi o que fiz. Puxei do tabaco e deixei-me ficar. Passado p'aí uma meia hora vejo dois faróis a virem pela estrada acima. Parou uma pick-up cinzenta à minha beira. Era um primo meu... "atão Henrique? O que fazes aí caido no meio da estrada?". Eu respondi-lhe "Olha... tou aqui fumando um cigarrito!".
[gargalhada generalizada]
- Então vá Ti Henrique. Leve lá a Bôla aos homens ou eles ainda julgam que se perdeu p'lo caminho.
- Ok! Passem bem que eu vou beber mais copo. Até mais!
- Até logo!
(Conversa verídica)
22 fevereiro 2011
20 fevereiro 2011
14 fevereiro 2011
Leituras
Talvez consiga adormecer
Talvez
consiga adormecer
se não pensar nos teus beijos
que ainda ardem
neste deserto
que é a minha pele sem ti.
Sinto-os
como formigas doidas
a correrem
por mim acima
desvairados, sem norte,
perdidos quem sabe
se na pressa
de voltarem a ser beijos
mais fundos que a pele,
sedenta
desse toque
que só tu consegues,
quando o calor
da tarde que começa
te incendeia
em labaredas por inteiro,
dentro
e fora, meu vesúvio
de Janeiro
onde me deito e adormeço.
Deixa-me voar
de novo colado a ti,
meu pássaro sonhador.
Anda, vamos
nessa brisa quente
à procura
de uma terra que não conheço
e deixa-me desbravá-la
como se o mundo acabasse
agora,
nesta tarde morna
de luz coada, perdida no poente
imaginado,
quando os teus olhos
me falavam sem palavras
e me diziam
que tudo era possível
na caminhada sem medo.
Deixa-me
partir no teu beijo
que tardo
em querer esquecer.
Como quem sussurra
um segredo,
abre-me o teu peito
em que me deito
e estremeço.
Deixa-me voar contigo.
Deixa-me tocar
a lua no teu umbigo.
In A lua no teu umbigo
Alberto Riogrande
12 fevereiro 2011
Na 1ª pessoa – o singular na sua dialéctica com o plural.
Hoje apetece-me escrever na primeira pessoa do singular.
De quando em vez paro para fazer um apanhado da minha vida ou, pelo menos, do meu passado recente. Há quem faça o exercício regular de uma retrospectiva diária. Não chego a tanto (mas apenas e só porque não tenho o empenho necessário para o fazer).
Pensei em tamanha façanha há já alguns dias mas só agora ganhei coragem para tanto. Cortei umas limas, pisei folhas de hortelã, umas pedras de gelo, rum e duas colheres de um açúcar tão amarelo quanto o meu sorriso deste final de tarde.
Estou sentado em frente ao portátil. Mais um trago… e outro. Arrepio-me. Estou pronto!
Ultimamente tive por tendência natural julgar a minha vida como algo de absolutamente improdutivo ou, no mínimo, inconsequente.
Formações e mais formações, cursos e mais cursos, simpósios, congressos, encontros… para acabar dando por mim a perguntar “para quê?”.
Esta semana algo de novo ganhou espaço no meu espírito. Comecei a interrogar-me mais sobre as pequenas coisas do dia-a-dia, as quais, habitualmente, adicionava ao rol das futilidades, percebendo agora que, uma vez ponderadas numa perspectiva mais abrangente, passam a fazer todo um novel sentido.
Lamento esta situação de desemprego prolongado, de instabilidade relacional no que ao às matérias do coração diz respeito. Continuarei a fazê-lo. Mas pergunto-me agora: ser-me-ia possível assumir em exclusivo as múltiplas deslocações do meu filho de e para a escola, idas quase diárias da mãe ao hospital, tratar diária e religiosamente dos meus cães, se estivesse a trabalhar ou numa relação emocional com cabeça, tronco e membros?
Mais: a partir da próxima terça-feira a minha filhota passará a ír duas vezes por semana ao Hip-Hop. Irei eu buscá-la à escola. Não sei como irei conseguir articular tudo mas tenho a certeza absoluta de que o vou fazer.
Na passada 2ª feira morreu-me o Chaka. De quatro amigos caninos resta-me apenas a Luka. A vida vai polvilhando o caminho com estas sacanices repletas de fel.
Num destes finais de tarde solarengos, desloquei-me ao miradouro dos Capuchos para ver o pôr-do-sol. Entre muita gente que afluíra ao local com o mesmo intuito, encontrava-se um casal com dois filhos. O mais velho deles, talvez com uns sete/oito anos, estava sentado na muralha do miradouro, pernas e braços traçados, aguardando o momento em que o horizonte engoliria o sol. Aproximando-se o ocaso, o pai desata num esbracejar histérico, bradando:
- Filho. Estão a roubar o sol! E agora? O que fazemos?
O filho, sem tirar os olhos de um horizonte mesclado de azuis e vermelhos, respondeu:
- Não, pai. O sol vai até ao fim do mundo e depois desaparece na terra do nunca. Amanhã nasce um novo.
Tenho recordado muitas vezes tal momento. A poesia tudo vence. Quem me dera ser capaz de fazer como o sol daquele menino. Mas poesia é apenas isso: poesia. A vida é a vida e, como experiência de aprendizagem que é, apresenta-se-nos muitas vezes cruel, dura, implacável.
Se é (também mas não só) por isso que tenho que passar… seja!
Ajudo os outros em tudo o que posso, de múltiplas formas. Quem me conhece sabe desta atitude voluntariosa. Se ando por cá com essa missão… óptimo.
Se são estes o meu karma e o meu dharma… perfeito!
Em última instância tenho por saldo que o universo me tem retribuído generosamente. Graças ao apoio incondicional da família e dos amigos não me tem faltado nada de verdadeiramente essencial nem, diga-se de passagem, muitas outras coisas supérfluas.
Sinto-me amado, gostado, apreciado, admirado, valorizado.
Exigir mais da vida, embora legítimo, não será exagero ou devaneio? Receio pensar na resposta.
No que a 1ª pessoa do singular puder ajudar a 1ª pessoa do plural, cá estarei, sempre e incondicionalmente, para todos.
Obrigado!
De quando em vez paro para fazer um apanhado da minha vida ou, pelo menos, do meu passado recente. Há quem faça o exercício regular de uma retrospectiva diária. Não chego a tanto (mas apenas e só porque não tenho o empenho necessário para o fazer).
Pensei em tamanha façanha há já alguns dias mas só agora ganhei coragem para tanto. Cortei umas limas, pisei folhas de hortelã, umas pedras de gelo, rum e duas colheres de um açúcar tão amarelo quanto o meu sorriso deste final de tarde.
Estou sentado em frente ao portátil. Mais um trago… e outro. Arrepio-me. Estou pronto!
Ultimamente tive por tendência natural julgar a minha vida como algo de absolutamente improdutivo ou, no mínimo, inconsequente.
Formações e mais formações, cursos e mais cursos, simpósios, congressos, encontros… para acabar dando por mim a perguntar “para quê?”.
Esta semana algo de novo ganhou espaço no meu espírito. Comecei a interrogar-me mais sobre as pequenas coisas do dia-a-dia, as quais, habitualmente, adicionava ao rol das futilidades, percebendo agora que, uma vez ponderadas numa perspectiva mais abrangente, passam a fazer todo um novel sentido.
Lamento esta situação de desemprego prolongado, de instabilidade relacional no que ao às matérias do coração diz respeito. Continuarei a fazê-lo. Mas pergunto-me agora: ser-me-ia possível assumir em exclusivo as múltiplas deslocações do meu filho de e para a escola, idas quase diárias da mãe ao hospital, tratar diária e religiosamente dos meus cães, se estivesse a trabalhar ou numa relação emocional com cabeça, tronco e membros?
Mais: a partir da próxima terça-feira a minha filhota passará a ír duas vezes por semana ao Hip-Hop. Irei eu buscá-la à escola. Não sei como irei conseguir articular tudo mas tenho a certeza absoluta de que o vou fazer.
Na passada 2ª feira morreu-me o Chaka. De quatro amigos caninos resta-me apenas a Luka. A vida vai polvilhando o caminho com estas sacanices repletas de fel.
Num destes finais de tarde solarengos, desloquei-me ao miradouro dos Capuchos para ver o pôr-do-sol. Entre muita gente que afluíra ao local com o mesmo intuito, encontrava-se um casal com dois filhos. O mais velho deles, talvez com uns sete/oito anos, estava sentado na muralha do miradouro, pernas e braços traçados, aguardando o momento em que o horizonte engoliria o sol. Aproximando-se o ocaso, o pai desata num esbracejar histérico, bradando:
- Filho. Estão a roubar o sol! E agora? O que fazemos?
O filho, sem tirar os olhos de um horizonte mesclado de azuis e vermelhos, respondeu:
- Não, pai. O sol vai até ao fim do mundo e depois desaparece na terra do nunca. Amanhã nasce um novo.
Tenho recordado muitas vezes tal momento. A poesia tudo vence. Quem me dera ser capaz de fazer como o sol daquele menino. Mas poesia é apenas isso: poesia. A vida é a vida e, como experiência de aprendizagem que é, apresenta-se-nos muitas vezes cruel, dura, implacável.
Se é (também mas não só) por isso que tenho que passar… seja!
Ajudo os outros em tudo o que posso, de múltiplas formas. Quem me conhece sabe desta atitude voluntariosa. Se ando por cá com essa missão… óptimo.
Se são estes o meu karma e o meu dharma… perfeito!
Em última instância tenho por saldo que o universo me tem retribuído generosamente. Graças ao apoio incondicional da família e dos amigos não me tem faltado nada de verdadeiramente essencial nem, diga-se de passagem, muitas outras coisas supérfluas.
Sinto-me amado, gostado, apreciado, admirado, valorizado.
Exigir mais da vida, embora legítimo, não será exagero ou devaneio? Receio pensar na resposta.
No que a 1ª pessoa do singular puder ajudar a 1ª pessoa do plural, cá estarei, sempre e incondicionalmente, para todos.
Obrigado!
31 janeiro 2011
Um pouco de sol
As vagas enrolam a esforço, preguiçosas, desfazendo-se lânguidas nos cabeços dourados.
As dunas, pejadas de cardos e chorões, descansam dos rigores do Inverno.
Recosto-me na areia, entre alecrim, rosmaninho e pinheiros retorcidos pelo vento e pela maresia.
Deixo que o sol me preencha a face, ocupando o pouco que esta barba de Adamastor ainda permite.
Ando descuidado. A vida anda descuidada. Mais não faço do que olhá-la bem nos olhos e devolver a cortesia.
Não há "como", se não se tem "porquê".
Se o tempo o permitir, amanhã venho iniciar a época de caminhadas de borda-de-água.
Com um pouco de coragem talvez entre na água regeneradora.
Esta praia é o meu deserto e esta água o elemento que me expurga todos os males, qual bode expiatório da tradição judaica.
Se Deus trabalha por caminhos misteriosos, a mente humana nada lhe fica a dever, sobretudo no que diz respeito às múltiplas aptências que exibe quando se empenha em se auto-flagelar.
A razão escarnece de si própria com o mesmo embaraço risonho com que nos mascaramos quando nos estatelamos no chão em público. E o final, resignado, é sempre o mesmo. Até um dia... que não o de hoje.
Por ora deixai-me sorver um pouco mais de sol, um pouco mais de mar, um pouco mais de mim.
As dunas, pejadas de cardos e chorões, descansam dos rigores do Inverno.
Recosto-me na areia, entre alecrim, rosmaninho e pinheiros retorcidos pelo vento e pela maresia.
Deixo que o sol me preencha a face, ocupando o pouco que esta barba de Adamastor ainda permite.
Ando descuidado. A vida anda descuidada. Mais não faço do que olhá-la bem nos olhos e devolver a cortesia.
Não há "como", se não se tem "porquê".
Se o tempo o permitir, amanhã venho iniciar a época de caminhadas de borda-de-água.
Com um pouco de coragem talvez entre na água regeneradora.
Esta praia é o meu deserto e esta água o elemento que me expurga todos os males, qual bode expiatório da tradição judaica.
Se Deus trabalha por caminhos misteriosos, a mente humana nada lhe fica a dever, sobretudo no que diz respeito às múltiplas aptências que exibe quando se empenha em se auto-flagelar.
A razão escarnece de si própria com o mesmo embaraço risonho com que nos mascaramos quando nos estatelamos no chão em público. E o final, resignado, é sempre o mesmo. Até um dia... que não o de hoje.
Por ora deixai-me sorver um pouco mais de sol, um pouco mais de mar, um pouco mais de mim.
16 janeiro 2011
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