31 janeiro 2011

Um pouco de sol

As vagas enrolam a esforço, preguiçosas, desfazendo-se lânguidas nos cabeços dourados.
As dunas, pejadas de cardos e chorões, descansam dos rigores do Inverno.
Recosto-me na areia, entre alecrim, rosmaninho e pinheiros retorcidos pelo vento e pela maresia.
Deixo que o sol me preencha a face, ocupando o pouco que esta barba de Adamastor ainda permite.
Ando descuidado. A vida anda descuidada. Mais não faço do que olhá-la bem nos olhos e devolver a cortesia.
Não há "como", se não se tem "porquê".
Se o tempo o permitir, amanhã venho iniciar a época de caminhadas de borda-de-água.
Com um pouco de coragem talvez entre na água regeneradora.
Esta praia é o meu deserto e esta água o elemento que me expurga todos os males, qual bode expiatório da tradição judaica.
Se Deus trabalha por caminhos misteriosos, a mente humana nada lhe fica a dever, sobretudo no que diz respeito às múltiplas aptências que exibe quando se empenha em se auto-flagelar.
A razão escarnece de si própria com o mesmo embaraço risonho com que nos mascaramos quando nos estatelamos no chão em público. E o final, resignado, é sempre o mesmo. Até um dia... que não o de hoje.
Por ora deixai-me sorver um pouco mais de sol, um pouco mais de mar, um pouco mais de mim.

1 comentário:

Anónimo disse...

Entre sol, areia e vagas, fazem-se caminhadas que marcam vidas, que exorcizam momentos, que despertam o gosto de ser, de ter e fazer-acontecer! Mesmo que desleixados numa aventura submersa pela vida, devemos deixar que o amor ganhe espaço, como ganha o sol por entre esses teus pêlos "desajeitados", de uma barba por fazer, mas que te ilustram tão bem!Inspira...expira!
Boas caminhadas Pirolito!!!

Alana

 

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