09 junho 2013

A maçã tem bicho - Crónicas de Nova Iorque II


New York Metropolitan Museum

E perguntam vocês: Mas por que raio está o Metropolitan Museum deserto numa manhã de domingo? É simples! Porque acordei com um jet lag de cinco horas e cheguei à porta do museu às 8 horas da manhã, isto é, uma hora e meia antes da abertura.
Não faz mal. Central Park com ele. Muito softball, muita passeata de canídeos e seus donos, muito jogging, muita bicicleta... uma hora ainda desprovida de turistas, algo que os nova-iorquinos deverão apreciar bastante.


Softball em Central Park
Belvedere Castle fotografado a partir de Turtle Pond

Finalmente no Met! Entrada gratuita (cartão do ICOM = poupança de $25).
Estivemos por lá, desde as 9,30 até às 15 horas. Conseguimos ver três salas e duas exposições temporárias...
 
Marfins Indo Portugueses
 
Sala da Oceania


Sala da Oceania
 
"Carta Náutica" utilizada pelos pescadores das Ilhas Marshall


Sala da Mesoamérica
Estilos...
Depois da maratona recolhi aos meus aposentos e... voltei a desmaiar.

Nova Iorque
09.06.2013

08 junho 2013

A maçã tem bicho - Crónicas de Nova Iorque I

Espartano... mas em Manhattan, esquina com a Broadway, junto a Union Square.
Depois de uma maratona de onze horas, eis-me no local de destino.
A "outra" chegou a Paris com a sua "valise de carton" na mão. Mas o pirolito não lhe ficou atrás e chegou a Nova Iorque de saco de plástico às costas (12kgs de excesso de peso para o porão, transpostos, ainda em Lisboa, para um saco de plástico inicialmente destinado a embalar carrinhos de bebé...).
- "Mas não há alternativa?" perguntei, armado em tanso, no balcão do check in.
- "Se quiser levar a mala com este peso, terá que pagar USD400. Tem duas alternativas: ou compra uma mais uma mala e paga USD100 pelo suplemento de volumes ou, se quiser, posso arranjar-lhe um saco de plástico e leva o excesso de peso na cabina."
- "USD400 ou USD100 mais o preço de uma mala estupidamente cara, comprada aqui no aeroporto? Deixe lá isso! Venha de lá esse saco de plástico."
E assim comecei a viagem a poupar uma pipa de massa e o avião carregou tudo na mesma.
Mas vamos ao que interessa porque estas crónicas são de Nova Iorque e não da Portela.
Pensei duas coisas: que iria ficar de queixo caído e que iria desmaiar na cama, assim que chegasse. Nem uma coisa nem outra.
Chegado a Newark e em trânsito para a Big Apple, os famosos arranha céus pareceram-me, afinal, coisa modesta para tamanhas expectativas. Assim a modos como o Benfica no final do campeonato. E a cama... bem, essa, como certamente já repararam, estava por fazer.
Mas lá se fez a cama e se pôde desmaiar em conformidade, embalado pela consciência tranquila de ter obedecido respeitosamente ao senhor Passos - que não Senhor dos Passos - e de me ter posto a andar de Portugal (ainda que apenas temporariamente).
Como dizia o Engº Sousa Veloso no seu memorável TV Rural: "Por hoje é tudo!"
PS: Afinal não é tudo... Estão a ver as duas "listas telefónicas" em cima da secretária? São apenas os dois volumes de artigos que temos para ler durante este curso. Ok... eu sei que não sou digno de comiseração.


Nova Iorque
08.06.2013

A maçã tem bicho - Crónicas de Nova Iorque

Todos os pretextos são bons para se voltar a escrever. Esta é, afinal, apenas mais uma razão para vir limpar o pó a este blogue quase tão enferrujado quanto o seu escriba de plantão.
Eis-me em terras de Tio Sam (ou nem por isso, porque até já este foi engolido pela inexorável marcha da globalização).
Quanto ao título escolhido... bem... parece-me ser óbvio o que é a maçã e quem é o bicho.
;-)

Nova Iorque
08.06.2013

04 setembro 2012

Um vento que sopra de Leste

Dia de mariscar nos rochedos a sul da Praia da Foz.
Duas palhaças logo na descida da escarpa, a fazer recordar que transpor pedras roliças e apreciar o nascer do sol sobre o azul cintilante do mar oceano são opções incompatíveis.
O mar, agreste na véspera, claudicara perante o vento Leste, mostrando-se agora dócil e submisso.
Na borda d'água, em demanda do apetecível percebe, acompanhei a descida da maré a caminho de mais um baixa-mar, perscrutando fendas e buracos, no convívio de lapas, mexilhões, caranguejos-mouros e anémonas azuis, verdes e lilases.
Fui escolhendo e arrecadando os exemplares adultos, poupando os juvenis. Lá mais para o Inverno, na captura dos sargos, lembrar-me-ei com satisfação de que contribuí para a sua dieta alimentar.
Virando a água para a enchente, sentei-me numa lage, com as pernas dentro de uma pequena furna, lavando cortes e esfoladelas, cicatrizes que o mar reclama como dote de uma porção de marisco.
Sem preocupações. O sal é panaceia suficiente para estas pequenas mazelas.
Hora de desligar. Os ouvidos são dispensados da permanente procura pelo inconfundível sussurro que anuncia a chegada das alterosas vagas oferecidas pelo mar de enchios, capaz de arrancar às pedras o incauto intruso.
Os sentidos aliviam, a cabeça ergue-se devolvendo à cervical a sua postura costumeira. Os olhos varrem uma primeira linha de laminárias e deliciam-se com as partículas de sedimentos que pairam voluptuosamente, como centelhas de luz, no ir e vir da corrente ascendente. Ao longe, os sulcos brancos das embarcações de pesca que regressam ao seu porto de abrigo depois de mais uma noite de faina.
É inevitável pensar em múltiplas dimensões da nossa existência: a nossa pequenez, a beleza desconcertante das coisas simples, o privilégio da pertença a este Universo.
São momentos em que tendemos a relativizar as coisas - passadas, presentes e futuras -, refrescamos o nosso conceito de "importância", em que, no limite, nos tornamos melhores seres humanos.
O mar, como nos lembra Michel Mollat du Jourdin, é fronteira do medo ou margem de esperança. Por mim, vejo nele uma contínua e inesgotável fonte de inspiração e coragem. E é por isso que à despedida lhe digo: Até sempre, meu irmão.

11 maio 2012

In illo tempore

Apreciar os que são dignos de apreço entre tanta mediocridade balôfa, sabe o povo muita vez; os governos quase nunca. As provas seriam de sobejo para encher volumes neste Portugal, onde Camões morreu numa enxerga, mas onde qualquer agiota tem a comenda de Cristo.

João da Câmara, in Revista O Occidente, nº 707, 20.08.1898, p. 186.

Naquele tempo o povo não votava todo. E hoje, qual é a desculpa?

10 maio 2012

Escolhas

Sentado à mesa do Simão.
Uma mesa com tampo de azulejos de parede. Os bancos, corridos, forrados ao mesmo estilo, com estofos em pavimento cerâmico.
Uma travessa de petingas, ainda meio secas... Salvou-se a salada de tomate com pimentos.
Estreei a época de esplanada, debaixo de uma rede verde por onde tentam, ingloriamente, progredir videiras bravas.
A aragem fresca, que persiste, faz percurso inverso à localização de um vaso repleto de magnifica hortelã, que tenho mesmo à minha frente. Não saio sem levar uma folha.
São poucos mas inusitados os sítios ou as circunstâncias que nos levam a viajar interiormente. Comigo acontece, por exemplo, enquanto espero a comida que encomendei.
E foi assim, na expectativa de uma dúzia de sardinhas juvenis, que aflorou um recado recebido ainda não há muitos dias: "escolhe!" - disseram-me.
A vida é um rio que percorremos aos saltos de uma margem para outra. A escolha acontece quando paramos a meio do caudal de água e ficamos, qual rosa-dos-ventos numa carta de marear, sem saber qual o rumo a seguir. Esse é o ponto que marca o nosso livre arbítrio. Sabemos que o rio corre sem apelo nem agravo numa única direcção mas não nos livramos da responsabilidade de traçar direcções, destinos parciais.
Dei por mim a pensar que as escolhas se fazem não apenas no que concerne ao sentido de marcha mas também em relação ao tempo de decisão. Vou por aqui ou por ali? Para a frente? Para trás?... Vou já? Vou mais logo?
"Escolhe!"
Claro que sim. Mas escolho mais logo! Agora não me apetece. Apetece-me, isso sim, esperar um pouco.


Esperare
Presuntos Implicados

19 abril 2012

Como por magia

Ela, querendo encostá-lo à parede, procurava um beijo.
Ele, mais por pudor do que por falta de vontade, olhava em volta, atrapalhado, comprometido, sabe-se lá com o quê, sabe-se lá porquê.
Um jovem de manga curta empurrava compenetrado um carrinho de bébé carregando um petiz. O miúdo envergava um garrido barrete andino e, gozando a feliz circunstância da infância, sorvia visualmente tudo o que se lhe oferecia em redor.
Mudei a mala de ombro.
Segui caminho.
Na praça de táxis entremeavam-se mágoas carpidas e prognósticos para o jogo do Sporting.
Um pouco mais à frente, um desses novos nichos passíveis de análise antropológica e sociológica: os grupos de pessoas que se agregam para fumar um cigarro à porta dos prédios onde trabalham.
Uma senhora, de blusão de pele, saia curta e meias de renda, auto-contemplava-se. Quando reparou que eu olhava, sorriu. Um daqueles sorrisos que diz: "sou muito gira!". Mandei-lhe, na volta do correio, outro sorriso. Um daqueles que diz: "claro que és!".
Ao dobrar da esquina, uma velhinha de andarilho expressava facialmente aquele misto de cansaço e de desespero de quem não se vê chegar ao destino. Pensei: "Força, irmã!"
A vida pode não ser um mar de rosas. Ainda assim, e avaliando tudo o que nos é oferecido aproveitar ou desaproveitar, consciente ou inconscientemente, cada vez mais me convenço de que o pior inimigo que podemos ter reside dentro de nós próprios.
Sejamos bons. Sejamos cada vez melhores e até tudo em nosso redor adquirirá um brilho de renovado fulgor.
Hoje estou feliz! Vou rever um grande amigo.
É seguir a canção: "(...) vive, como por magia, a vida num só dia."


A vida num só dia
Rádio Macau

22 março 2012

Sons



Aurora
Dani Black e Maria Gadú

Retalhos de um dia improvável

Um almoço:
Restaurante XXX (não interessa o nome), gerido por um senhor de provecta idade e suas duas filhas, moçoilas na casa dos trintas.
Repto lançado por um cliente:
- Ó Daniela (nome fictício)... está na berra um restaurante onde as empregadas andam a servir à mesa de lingerie e em topless.
Resposta pronta:
- Olha que boa ideia, eu e a minha irmã nesses propósitos. Até lhe arranjava uma mesinha mesmo ao pé do meu pai que, entretanto, estaria ao grelhador, de tanga padrão leopardo, a virar frangos no carvão.

Um café depois de almoço:
Bar da Biblioteca Nacional (não... não é fictício).
Eu ao balcão, duas empregadas a atender. Cavaqueira séria. O tema: celulite.
- Xiii, nem te digo. Sou uma desgraçada. É bués, aqui nas nalgas.
- Eu, nem por isso. Só uma beca aqui nas gambas (disse, batendo com as mãos nas coxas).
E o edifício, esse santuário da língua de Camões, sofreu um convulsivo estertor. Era, certamente, o reflexo telúrico do poeta às voltas na cova.

11 janeiro 2012

Dizem-me

As tuas mãos são humildade.
Os teus lábios, gozo e sabedoria.
Os teus olhos são mistério.
As tuas mãos gostam de mim.
Os teus lábios tratam-me bem.
Mas os teus olhos, os teus olhos estão longe.
Lá, tão longe, onde o teu corpo não chega mas onde só tu sabes onde, se é que o sabes.


Alio (Mazurka)
Naragonia

21 dezembro 2011

Sacrilégio


É ou não um sacrilégio estar fechado em casa a trabalhar, abrir a janela, deixar entrar uma brisa de mar e sentirmo-nos obrigados a ficar entre quatro paredes, porque o tempo é curto e os compromissos académicos não se compadecem com estes apelos da água?
Estava melhor na ponta de um esporão da Costa.
São estas pequenas coisas que trazem à liça a cegueira de uma vida passada inconscientemente às voltas. Como um dia disse o "nosso" Variações, "só estou bem, aonde não estou"...
Triste esta (pelo menos minha) condição de permanente insatisfação. Não se explica. Ou, melhor dizendo (ou escrevendo): não consigo explicar.
A vida será assim mesmo. Nada de percursos lineares. O nosso percurso é esta espiral que transmite a sensação errónea de avanços e recuos quando, de facto, se trata apenas de um progresso feito de aprendizagem e forçosa revisão da matéria dada.
- Mas olha que o tempo voa...
- Também o meu espírito. Muito mais rápido e muito mais alto do que a própria vida.
- Mas como ele anda! E para onde voa o teu espírito?
- Nem eu próprio lhe adivinho o destino. Não lhe conheço sequer o propósito.
-Deixa-o ir livre e sem destino que ele saberá onde pousar.
Eu sei que sim!
Não sei o "como" e só muito vagamente percebo os mistérios que me assistem.
A vida é uma puta!
Há putas que se vendem por vender, pelo aparente benefício do acto.
Outras há que se vendem para poder satisfazer necessidades outras: subsistência, providência, vícios...
E assim somos nós, transigindo por vezes as nossas mais profundas convicções em função de um "assim tem que ser" que se nos atravessa no caminho.
Avançamos no caminho. Retrocedemos na condição.
Muito invejo essas fortalezas de carácter, baluartes de existência, seres humanos extraordinários que não vacilam, independentemente das expectáveis consequências.
O privilégio de conhecer três homens assim é incomensurável. O meu tio João Henrique e o Comandante Martins e Silva (Marinha de Guerra), ainda vivos, e outro tio meu, Carlos Pereira dos Santos, infelizmente já falecido.
O seu conhecimento não me fez como eles. Não chego a tanto. Não o consigo.
Mas quando chega a hora de ter pontos de referência, quando se trata de tentar fazer justiça a referências que tenhamos na vida, eles estão sempre lá, para me orientar ou para para me confrontarem com a vergonha de uma qualquer decisão que lhes não faça justiça.
É! Esta vida é assim mesmo: uma carpete de veludo carmim que percorremos como estrelas de cinema mal vestidas.
Era bom que pudéssemos tratar a nossa consciência como apenas um sonho mau. Acordar e fazer "reset"...
Que bom que seria...
Que merda, este passado que nos atormenta. É aprendizado. Certo! Mas que me importa a mim, consciente que estou de que nem precisava de saber mais para ter aprendido de outra forma?
Resignação? Não me é fácil!
Destino? É como reza o fado: o destino só destina quem já nasce conformado.
Por vezes apetece-me partir em direcção ao pôr-do-sol e com ele desaparecer.
Depois lembro-me dos meus dois preciosos filhos.
Não é apenas em mim que devo pensar...
Isso sim: seria um sacrilégio.

À laia de recordação







19 dezembro 2011

Dias de Berlim

Final de tarde num dos terraços do ISCTE.
A luz que se esvai  quase sem disso darmos conta; a brisa invernal que surge repentinamente; os aviões a voar baixo em aproximação ao seu destino; o frio, que sem contemplações nos sobe pelas pernas... tudo a lembrar os dias de uma certa "pandilha da museologia" em Berlim.
Berlim, a ilha dos museus, metrópole indescritível.
Não é falta de vontade. É o reconhecimento da minha incapacidade para o fazer. Já no decurso da nossa estadia, ao consultar alguns dos diferentes guias que entre nós levávamos, achei que, na esmagadora maioria dos casos, não havia texto que, por mais eloquente, colorido e desenhado para turista, fizesse jus à cidade.
Berlim é uma deliciosa salada arquitectónica, uma colmeia de gente diversa que nos transmite diferentes sensações, um misto de ambientes que nos traz, aqui e ali, em diferentes tempos da história.
Berlim é esse paradoxo: o dos museus que pretendem juntar diferentes tempos num só lugar, e o de uma cidade que encerra diferentes identidades espaciais num único momento temporal.
Os dias foram preenchidos por museus até à exaustão das nossas pernas que, a princípio, haviam jurado ser capazes de suportar tamanha maratona. Mentirosas!
Impelidos por aquela voracidade de conhecimento própria de quem gosta verdadeiramente de uma determinada coisa, pulverizámo-nos por Berlim em função das preferências temáticas de cada um, juntando-nos para visitar conjuntamente aquilo de que gostávamos em comum.
Se os dias foram maravilhosos, as noites não lhes ficaram a dever rigorosamente nada.
Incursões à gastronomia tradicional alemã, antecedidas pela abertura das hostilidades na primeira cervejaria onde nos cheirasse a Weißbier (cerveja de trigo). Notem que o "tuga" é capaz de desenvolver um faro de perdigueiro num muito curto espaço de tempo.
Os finais de dia com incursões ao bas-fond berlinense, foram experiências a raiar a alucinação.
Jornada de imensa aprendizagem (tirei cerca de mil e setecentas fotos), de exercício de uma amizade sentida que, felizmente, perdura ainda entre alguns de nós.
Como lembranças maiores ficam:
- Uma noitada passada na rua com -13 graus, na companhia da Estela, porque, descobrimos tarde demais, o bloco de apartamentos onde estávamos alojados não tinha painel de campainhas e os colegas tinham os telemóveis desligados;
- Uma visita ao Reichstag, (parlamento alemão), depois de nos termos abastecido no supermercado. Foi um festival de gargalhada geral ao passar na segurança, com os enlatados e as litradas de cerveja a desfilar nos monitores da polícia como top models em Paris.
Assim foram os dias de Berlim.
Hoje, levanto os olhos do caderno e é já noite em Lisboa.

17 dezembro 2011

Sopro-te um beijo de sobre a palma da minha mão
aquela linha quente de um horizonte de Verão



Dig
Incubus

15 novembro 2011

Mais alto.

Carruagens quase desertas. Não é de espantar. É hora de almoço.
Desci para o andar de baixo, procurei uma cadeira virada de frente para o sentido de marcha. De costas para o que está pela frente, só aos remos de um barco.
Sentei-me.
Os phones em riste nas orelhas.
Lá tentei acomodar as duas malas que levava comigo. Computador numa; caderno, agenda e livros, noutra. Aquilo a que a minha avó chamava uma "mula de carga".
Alheado que ia, só um pouco depois da composição arrancar reparei numa senhora, sentada do outro lado do corredor, que, ao telefone, suplicava qualquer coisa que não consegui perceber, chorando desalmadamente.
Que pena! - pensei.
Decidi não olhar para o lado fazendo de conta que nada se passava.
Não há coincidências!
Se aquela mulher e eu estávamos ali, no mesmo sítio, à mesma hora (e lembrando a máxima: Só está quem tem que estar; onde tem que estar; e quando tem que estar), decidi dirigir-me à sua egrégora espiritual pedindo autorização para o que a seguir fiz: rosa e branco de um cardíaco para outro, violeta envolvendo todos os seus corpos.
E pedi-lhe:
- Minha irmã: deixa fluir em ti e através de ti a energia do universo, o sopro de Deus, pois que ambos mais não são do que expressões diversas de uma única e mesma coisa.
E assim foi, da ponte 25 de Abril até Sete Rios.
Parou de chorar? Parou!
Saiu mais calma? Saiu!
Foi consequência da projecção de energia? Não sei!
Sei que o propósito foi bom. Sei que me fez/faz muito sentido o acto de fazer bem, sem olhar a quem.
Diz-se que a modéstia manda guardar para nós as nossas boas acções. Discordo em absoluto. E por várias razões. As nossas ditas "boas acções" deviam ser entendidas, não como tal, mas como obrigações. Compete-nos a todos, cientes que possamos estar da nossa condição, tentar, sempre que possível, auxiliar a evolução de todos aqueles com quem nos cruzamos. Se estão, ou não, em condições de ser ajudados ou de, sequer, o merecer, já é algo que nos transcende.
Teremos feito o que pudermos.
E quanto ao guardar para nós o que de bom fazemos... Há que apregoá-lo aos quatro ventos. Levemos connosco tantos quantos pudermos neste caminho do bem fazer, do bem gostar.
É este o caminho que nos permitirá subir, um dia de cada vez, um degrau de cada vez, até onde onde os cegos vêem e as ruas são douradas...

Can you take me higher?
To a place where blind men see.
Can you take me higher?
To a place with golden streets.


Higher
Creed
 

is where my documents live!