14 outubro 2010

Mulher com brinco de mar

Quando ela me sussura ao ouvido é como o fervilhar da água, absorvida pela areia húmida no rescaldo de uma vaga nocturna.
Quando me beija a nuca, ela é o rebojo de uma onda que rebentou sobre mim, envolvendo-me numa explosão de minúsculas bolhas de oxigénio, fazendo estremecer o meu mais profundo eu.
Quando se arranja para uma festa, ela é lago de plácidas águas cristalinas, espelhando as constelações da estação, ou tormenta desfeita no mais rigoroso dos invernos.
Quando dança para mim, espraia toda a volúpia de uma laminária acariciada pelo vai-vem da maré.
Quando dançamos juntos somos como partículas de maresia arrancadas à superfície pelo sopro do vento boreal.
Quando o mau tempo se deixa adivinhar no horizonte ela sabe e relembra, melhor do que ninguém, que o amor é feito de marés cheias e marés vazias, de tempestades e de bonanças.
Quando chora, as suas lágrimas desvanecem-se céleres, como salpicos de água sobre uma rocha quente. As marcas, essas, perduram, mas apenas de modo efémero, como singelas manchas de sal.
Quando faz amor comigo ela é a calmaria seguida da tempestade que investe imparável contra o cabo, sem quaisquer estratégias, receios ou hesitações, varrendo encostas e sorvendo tudo à sua passagem enquanto os seus olhos me dizem:
- Faz de mim terra, tal como eu faço de ti água. Possui-me neste instante, tal como eu te possuo a ti. Juntos seremos a soma de ambos, o universo fundido num só instante".

Deus pode ter criado o homem à sua imagem. Mas a mulher... a mulher - Deus foi ainda mais ambicioso - criou-a à imagem do mar.

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