A vida é como uma corda
De tristeza e alegria
Que saltamos a correr
Pé em baixo, pé em cima
Até morrer
Não convém esticá-la
Nem que fique muito solta
Bamba é a conta certa
Como dança de ida e volta
Que mantém a via aberta
Dançar na corda bamba
Não é techno, não é samba
É a dança do ter e não ter
É a dança da Corda Bamba
Salta agora pelo amor
Ele dá o paladar
Mesmo que a tua sorte
Seja a de um perdedor
Nunca deixes de saltar
Se saltares muito alto
Não tenhas medo de cair
De ficar infeliz
Feliz a cem por cento
Só mesmo um pateta feliz
Dançar na Corda Bamba
Não é techno, não é samba
É a dança do ter e não ter
É a dança da Corda Bamba
Termina hoje o prazo de candidatura para algo que poderá ser muito importante para os meus próximos anos de vida.
Depois de encerrar a questão, dei por mim à espera de que uma qualquer sensação me assaltasse. Nada! Que aridez, porra! Ao menos um pouco de alívio para compensar o empenho...
E lá me ensaiei outra vez, qual perdigueiro de focinho no ar, a tentar perceber, a tentar adivinhar qualquer coisa. Nada... esperem... não... nada mesmo.
Estou como o artista de trapézio: depois de tantos anos a fazer mortais encarpados, a rede é-lhe indiferente. Cada salto é isso mesmo: apenas mais um salto.
E de salto em salto, saltou-me à memória esta letra do Carlos Tê: Dançar na Corda Bamba. A memória é algo de híbrido. Estranhos os mecanismos através dos quais lhe acedemos.
E assim sigo, dançando na corda bamba.
Saltar na corda Bamba
Clã
27 junho 2011
23 junho 2011
Em cascata
As palavras precipitam-se em cascata.
Gotas dispersas em explosões de grafia, de semântica, confundindo a sintaxe deste feriado obtuso e estúpido.
Aborreço-me com o uivo das hienas, tão ao longe mas tão estrondosamente ensurdecedor. Aborreço-me e... aborreço quem me rodeia.
A esta hora do dia, tudo se me apressa, como que a querer fugir ao crepúsculo. O copo esvazia-se como se estivesse furado, as andorinhas voam em frenesim e, sobre elas, as gaivotas, sem saber o que fazer, sabendo apenas... ser.
Os gomos de lima mirram na ausência de álcool.
Bocejo. Tamanha a frustração deste final de tarde.
Mas não! Não me apetece deixar ir. Hoje sou eu quem manda.
Vou acabar este post, levantar-me do banco, erguer os olhos para um céu entrecortado pelo verde viçoso das árvores que balançam e ululam, e pensar em algo altamente sofisticado como, por exemplo, o que fazer para o jantar. É isso!
Até já!
Até sempre!
Gotas dispersas em explosões de grafia, de semântica, confundindo a sintaxe deste feriado obtuso e estúpido.
Aborreço-me com o uivo das hienas, tão ao longe mas tão estrondosamente ensurdecedor. Aborreço-me e... aborreço quem me rodeia.
A esta hora do dia, tudo se me apressa, como que a querer fugir ao crepúsculo. O copo esvazia-se como se estivesse furado, as andorinhas voam em frenesim e, sobre elas, as gaivotas, sem saber o que fazer, sabendo apenas... ser.
Os gomos de lima mirram na ausência de álcool.
Bocejo. Tamanha a frustração deste final de tarde.
Mas não! Não me apetece deixar ir. Hoje sou eu quem manda.
Vou acabar este post, levantar-me do banco, erguer os olhos para um céu entrecortado pelo verde viçoso das árvores que balançam e ululam, e pensar em algo altamente sofisticado como, por exemplo, o que fazer para o jantar. É isso!
Até já!
Até sempre!
... eu finjo que não existo.
![]() |
| Sibila de Delfos Miguel Angelo (Pormenor do tecto da Capela Sistina) |
somos de tanta água que te faço fonte para sempre. acolhe-me, escolhe-me. resguardo-te. sem a alquimia dos milagres. com a prata que é o meu sangue.
pode o excesso ser belo na cegueira da luz perguntava o pastor ao rio que não corria. e das sementes pascoalinas apenas um grito. que não. nada do que é infinito se fica pela esfera que sendo centro é variação em linha recta. também. parábola das assimetrias convergentes apenas por um golpe de ouro.
somos peregrinos de um refúgio. tatuamos a água no dorso.
e o pastor seguiu pela estrada do mar. divinamente cego.
(...) como um rumo impossível, comungo-te. em curva. que sou mais anel que vocação.
e que me importa a desorganização da semântica se lá fora o juízo é sátiro e o mês um vocábulo insuficiente e insano. não uso o vazio como sinistro nem os lábios como crepúsculo. esta é a minha terra. estes os meus dedos. geográficos e litigantes sobre a palavra. em que me devolvo à terra.
e à água. qual sibila entre os muros ascensionais vestida de rasgões a serem passos ou beijos radiantes. parto. mais perto da terra o assobio é brasa e o braço ponte. margem. nunca ácidos os dedos que legitimam esta água.
um dia os anjos serão tantos que adormecer será uma vaga narrativa de correspondências amplas e cruas. renasce o caminho por entre as urtigas e as rosas como vegetais estruturas de uma vida em suspenso. um dia a tua mão será epígrafe imperturbável. e eu apenas a memória de uma travessia. tão ao longe que todo o perto será abismo.
As Lágrimas Estão Todas na Garganta do Mar
Isabel Mendes Ferreira
Sem Cor
Dr1ve
02 junho 2011
Sons
To Build a Home
The Cinematic Orchestra ft. Patrick Watson
...Out in the garden where we planted the seeds
There is a tree as old as me.
By the cracks of the skin I climbed to the top
I climbed the tree to see the world
When a gust of wind came to blow me down
I held on as tightly as you held onto me
I held on as tightly as you held onto me......
27 maio 2011
25 maio 2011
Morena serrana
Olhos cor de avelã, jeito de menina.
Passo aveludado escondendo um andar decidido.
Toda ela é determinação e espírito de sacrifício. A genética tem destas coisas. O universo, esse supremo ferreiro, deu ar à fornalha e forjou um estupendo ser humano, misto de serra beirã e de planície alentejana, capaz de fazer frente a qualquer intempérie com que a vida a confronte.
Curiosa e desconcertante é a sua insegurança. É uma menina gigante ou, quiçá, um gigante feito menina.
Prefere o recato às luzes da ribalta.
Em segredo, liberta-se. Em segredo desabrocha num furacão implacável, devorando medos e hesitações, num rumo imparável que é só seu mas que, querendo, se permite partilhar.
Aprecio tamanhos braços, capazes de estreitar uma criança a ponto de a fazer transbordar de amor e, ao mesmo tempo, de abraçar a mais grandiosa das causas.
Pasmo perante o conforto do seu colo, capaz de dar sossego e aconchego tanto ao petiz como ao avô, em doses que não necessita repartir porque de si brotam inesgotáveis.
Não é só uma mulher, nem uma mulher só. Jamais o será (embora ainda não o tenha compreendido).
Esta morena de rabo empinado nunca perde a compostura.
Treme, vacila, morde o lábio inferior e enche os olhos de lágrimas por cair, deixando escapar apenas um "que chatice!".
Não é resignação, é perseverança. Talvez aquela com que a terra vermelha da mãe África lhe impregnou os pulmões quando inspirou ar pela primeira vez na sua vida.
Mulher, amiga, amante e companheira.
Um dia irá abrir o guarda-fatos com o mesmo à vontade com que se faz à faina do dia-a-dia, enxotar todos os fantasmas que mantém guardados e deixar-se, tão simplesmente, continuar a aprender.
É assim esta minha morena serrana.
Passo aveludado escondendo um andar decidido.
Toda ela é determinação e espírito de sacrifício. A genética tem destas coisas. O universo, esse supremo ferreiro, deu ar à fornalha e forjou um estupendo ser humano, misto de serra beirã e de planície alentejana, capaz de fazer frente a qualquer intempérie com que a vida a confronte.
Curiosa e desconcertante é a sua insegurança. É uma menina gigante ou, quiçá, um gigante feito menina.
Prefere o recato às luzes da ribalta.
Em segredo, liberta-se. Em segredo desabrocha num furacão implacável, devorando medos e hesitações, num rumo imparável que é só seu mas que, querendo, se permite partilhar.
Aprecio tamanhos braços, capazes de estreitar uma criança a ponto de a fazer transbordar de amor e, ao mesmo tempo, de abraçar a mais grandiosa das causas.
Pasmo perante o conforto do seu colo, capaz de dar sossego e aconchego tanto ao petiz como ao avô, em doses que não necessita repartir porque de si brotam inesgotáveis.
Não é só uma mulher, nem uma mulher só. Jamais o será (embora ainda não o tenha compreendido).
Esta morena de rabo empinado nunca perde a compostura.
Treme, vacila, morde o lábio inferior e enche os olhos de lágrimas por cair, deixando escapar apenas um "que chatice!".
Não é resignação, é perseverança. Talvez aquela com que a terra vermelha da mãe África lhe impregnou os pulmões quando inspirou ar pela primeira vez na sua vida.
Mulher, amiga, amante e companheira.
Um dia irá abrir o guarda-fatos com o mesmo à vontade com que se faz à faina do dia-a-dia, enxotar todos os fantasmas que mantém guardados e deixar-se, tão simplesmente, continuar a aprender.
É assim esta minha morena serrana.
24 maio 2011
23 maio 2011
Grelhada primaveril
Vim ver o mar, intrometer-me entre a falésia e a água, caminhar sobre as arestas da duna que a maresia castigou, descobrir para que lado suspira o vento e deixar-me acariciar.
Fecho os olhos e o vento é agora as tuas mãos no meu rosto. Mãos que só assim são as tuas. Fossem elas reais e ser-me-iam já estranhas.
O dia vira-me a cara e eu faço-lhe o mesmo, mas apenas para encontrar os teus olhos e neles estampado o sol.
Não te rias de mim, dos meus vazios, das coisas que não compreendo.
Um dia procurarás em vão por mim a teu lado, numa cama despida de amor, sem outro aconchego que não a memória de um beijo tardio. A recordação de uma almofada feita berço de suspiros, esgares de prazer e juras de amor.
Não há qualquer regozijo. Apenas um laivo de intuição. São coisas que não se explicam... apenas se sentem, desprovidas de sentimento, de emoção, de quaisquer juízos de valor.
Uma brisa costeira arranca odores a pés rasteiros de rosmaninho e o ar ganha laivos de primavera marítima.
Uma raposa assome-se de focinho no ar, farejando o pólen.
As andorinhas tecem teias de elegância em contra-luz.
Um pica-pau, distante, martela um pinheiro, como alguém batendo à porta do meu desconcerto.
Desço a duna e enraízo os pés na areia grossa. Deito-me de costas e fico de olhar perdido no último dos azuis. Mas o apelo do mar é sempre mais forte. Em menos de nada estou dentro de água, nadando, sem rumo, sem pressa.
O tempo passa lenta mas imparavelmente, entre cada par de braçadas. Sinto-me arrefecer. Saio de dentro de água, arrepiado.
A luz desvanece-se. Alargo o passo, fugindo à noite.
Caminho fazendo a revisão do dia, a revisão da matéria dada. O que foi que aprendi hoje? Aflige-me pensar que a resposta é "nada".
Mas o que sei eu?
Muito sou, precisamente porque pouco sei.
É isso!
Nada como um pensamento reconfortante para justificar a impossibilidade de racionalizar. Mas ainda bem: a razão é falaciosa.
Revisitarei este assunto... a seu tempo. Não hoje, não agora, não na presença de um copo vazio.
Fecho os olhos e o vento é agora as tuas mãos no meu rosto. Mãos que só assim são as tuas. Fossem elas reais e ser-me-iam já estranhas.
O dia vira-me a cara e eu faço-lhe o mesmo, mas apenas para encontrar os teus olhos e neles estampado o sol.
Não te rias de mim, dos meus vazios, das coisas que não compreendo.
Um dia procurarás em vão por mim a teu lado, numa cama despida de amor, sem outro aconchego que não a memória de um beijo tardio. A recordação de uma almofada feita berço de suspiros, esgares de prazer e juras de amor.
Não há qualquer regozijo. Apenas um laivo de intuição. São coisas que não se explicam... apenas se sentem, desprovidas de sentimento, de emoção, de quaisquer juízos de valor.
Uma brisa costeira arranca odores a pés rasteiros de rosmaninho e o ar ganha laivos de primavera marítima.
Uma raposa assome-se de focinho no ar, farejando o pólen.
As andorinhas tecem teias de elegância em contra-luz.
Um pica-pau, distante, martela um pinheiro, como alguém batendo à porta do meu desconcerto.
Desço a duna e enraízo os pés na areia grossa. Deito-me de costas e fico de olhar perdido no último dos azuis. Mas o apelo do mar é sempre mais forte. Em menos de nada estou dentro de água, nadando, sem rumo, sem pressa.
O tempo passa lenta mas imparavelmente, entre cada par de braçadas. Sinto-me arrefecer. Saio de dentro de água, arrepiado.
A luz desvanece-se. Alargo o passo, fugindo à noite.
Caminho fazendo a revisão do dia, a revisão da matéria dada. O que foi que aprendi hoje? Aflige-me pensar que a resposta é "nada".
Mas o que sei eu?
Muito sou, precisamente porque pouco sei.
É isso!
Nada como um pensamento reconfortante para justificar a impossibilidade de racionalizar. Mas ainda bem: a razão é falaciosa.
Revisitarei este assunto... a seu tempo. Não hoje, não agora, não na presença de um copo vazio.
21 maio 2011
Resposta à partícula M
Prateadas como a luz do luar
Aos cardumes, aos magotes.
Rodopiam em uníssono
Abrindo espirais de luz
Numa dança irrepetível,
Abraçam o azul do mar,
Odaliscas de azul riscadas.
Tentação de Verão,
Espalham um aroma próprio.
Fervilhando, ariscas,
Incandescentes,
Crepitantes.
Arrepio de sal no lombo,
Rolando na brasa,
Encharcando uma fatia de broa,
Saciam a fome aos pobres.
Aquecem-nos o coração,
Riem-se no prato,
Iluminam-nos a mesa.
Refiro-me a quê?
Aos cardumes, aos magotes.
Rodopiam em uníssono
Abrindo espirais de luz
Numa dança irrepetível,
Abraçam o azul do mar,
Odaliscas de azul riscadas.
Tentação de Verão,
Espalham um aroma próprio.
Fervilhando, ariscas,
Incandescentes,
Crepitantes.
Arrepio de sal no lombo,
Rolando na brasa,
Encharcando uma fatia de broa,
Saciam a fome aos pobres.
Aquecem-nos o coração,
Riem-se no prato,
Iluminam-nos a mesa.
Refiro-me a quê?
18 maio 2011
Como o vento que sussurra entre as folhas de uma árvore.
A vizinha do lado vocifera. O marido (ou lá o que seja) responde em surdina.
Não me apetece esta agonia do desentendimento entre pessoas.
Bebi um copo de vinho. Apetece-me um ar que não o doméstico. O ar de casa é sempre aquele que o nosso próprio estado de espírito constrói. Nem puro nem nefasto. Ele há momentos em que a paleta da vida não nos quer oferecer outra cor senão o cinzento.
E a gritaria continua...
Melody Gardot no leitor de cds. Pode ser que a vibração de Love me like a river does ajude a refrear o conflito.
Vou para a porta das traseiras e acendo um bidi. Gosto deste desafio de manter incandescentes os laivos de tabaco enrolados em folha de diospireiro.
Eu e a minha partícula M estivémos a trocar galhardetes no FB. Esta mulher, não tendo o condão da omnipresença, surge-me sempre disparada, sabe-se lá vinda de onde e através de que mistérios, nos momentos em que me faz falta uma laracha.
É bonita a sensação de cumplicidade que desenvolvemos com certas pessoas. Tenho para mim que um legítimo propósito na vida poderia muito bem ser o de conseguir semelhante estado de alma relativamente a todas as pessoas que cruzam a nossa existência terrena.
Hoje à tarde sentei-me numa cadeira com um pedaço de papel colado nas costas, com os seguintes dizeres: Universidade Nova de Lisboa - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Melhor Mestre em Museologia / 2010.
Celebrou-se o 33º aniversário da FCSH da UNL, assinaram-se protocolos, discursaram Secretário de Estado, Reitor, Director...
Perdi-me numa abstracção total. Na minha mente desfilaram em silêncio professores e colegas de mestrado. Não tenho a menor dúvida de que aquele diploma de Mestrado que recebi é deles também. Desprezo lugares-comuns. Nem faria qualquer sentido. Neste momento estou aqui a escrever de mim para mim.
Teria eu alcançado com tanto empenhamento e tamanho prazer a meta que tracei? De certeza que não! As pessoas passam por nós e nós por elas. O ser humano é duma permeabilidade extrema. E ainda bem que assim é. Bebemos dos outros enquanto, simultaneamente, nos damos a beber.
Escrevi algures que é no solo da partilha que melhor germinam as sementes do conhecimento.
É indelével a amizade, a troca de vivências sociais, culturais e académicas que experimentei, sobretudo durante o ano curricular do curso. Alguns ficaram, compagnons de route, outros seguiram os seus caminhos sem se terem demorado mais do que aquilo que cada um de nós achou necessário.
Por muito que um dia julgue tê-los esquecido, haverá sempre algo deles em mim, algo que transcende o nosso entendimento imediato das coisas. Uma carícia que não se vê mas que se sente, tal como o vento que sussurra entre as folhas de uma árvore.
Não me apetece esta agonia do desentendimento entre pessoas.
Bebi um copo de vinho. Apetece-me um ar que não o doméstico. O ar de casa é sempre aquele que o nosso próprio estado de espírito constrói. Nem puro nem nefasto. Ele há momentos em que a paleta da vida não nos quer oferecer outra cor senão o cinzento.
E a gritaria continua...
Melody Gardot no leitor de cds. Pode ser que a vibração de Love me like a river does ajude a refrear o conflito.
Vou para a porta das traseiras e acendo um bidi. Gosto deste desafio de manter incandescentes os laivos de tabaco enrolados em folha de diospireiro.
Eu e a minha partícula M estivémos a trocar galhardetes no FB. Esta mulher, não tendo o condão da omnipresença, surge-me sempre disparada, sabe-se lá vinda de onde e através de que mistérios, nos momentos em que me faz falta uma laracha.
É bonita a sensação de cumplicidade que desenvolvemos com certas pessoas. Tenho para mim que um legítimo propósito na vida poderia muito bem ser o de conseguir semelhante estado de alma relativamente a todas as pessoas que cruzam a nossa existência terrena.
Hoje à tarde sentei-me numa cadeira com um pedaço de papel colado nas costas, com os seguintes dizeres: Universidade Nova de Lisboa - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Melhor Mestre em Museologia / 2010.
Celebrou-se o 33º aniversário da FCSH da UNL, assinaram-se protocolos, discursaram Secretário de Estado, Reitor, Director...
Perdi-me numa abstracção total. Na minha mente desfilaram em silêncio professores e colegas de mestrado. Não tenho a menor dúvida de que aquele diploma de Mestrado que recebi é deles também. Desprezo lugares-comuns. Nem faria qualquer sentido. Neste momento estou aqui a escrever de mim para mim.
Teria eu alcançado com tanto empenhamento e tamanho prazer a meta que tracei? De certeza que não! As pessoas passam por nós e nós por elas. O ser humano é duma permeabilidade extrema. E ainda bem que assim é. Bebemos dos outros enquanto, simultaneamente, nos damos a beber.
Escrevi algures que é no solo da partilha que melhor germinam as sementes do conhecimento.
É indelével a amizade, a troca de vivências sociais, culturais e académicas que experimentei, sobretudo durante o ano curricular do curso. Alguns ficaram, compagnons de route, outros seguiram os seus caminhos sem se terem demorado mais do que aquilo que cada um de nós achou necessário.
Por muito que um dia julgue tê-los esquecido, haverá sempre algo deles em mim, algo que transcende o nosso entendimento imediato das coisas. Uma carícia que não se vê mas que se sente, tal como o vento que sussurra entre as folhas de uma árvore.
15 abril 2011
Beethoven ft. Perez Prado
E depois venham-me cá com histórias que existem gaps geracionais que impedem as crianças de gostar de música clássica e que as modas prevalecem sobre a qualidade. Dêm-me 3 minutos numa sala com miúdos e eu explicar-lhes-ei como o Rap ou o Hip-Hop são para a sociedade de hoje tão revolucionários como o foi a música de Wagner no seu tempo. Ou como o arroz de favas do nosso Eça era tão à frente como esta junk food que por aí grassa, mas muito mais saudável. Ou ainda, como o grafitti tem tanto de inovador, de artístico e de contestatário e rebelde como o movimento futurista do início do século XIX.
Dêem-me uma escola nova para os nossos filhos...
12 abril 2011
A HISTÓRIA DE UM DIA
A abóbada da tarde mais uma vez acaba
o sol de a fechar sobre a minha diária aventura
Viram-no partir pontualmente à mesma hora
quando num pouco de dia a um canto sempre a um canto
já eu tinha conseguido arredondar
uma íntima ampola de som para a palavra definitiva
Ia mesmo soltá-la eu que todo o dia fui para ela quando
ele me deixou e foi abrir outras portas
erguer verticalmente caídas esperanças
e passar novas mãos por tantas faces mortas
Só me resta recolher o meu rebanho de pensamentos
com um vago rumor de guizos
enquanto à beira-mar os camponeses deixam
palavras não aladas cair na água morta
Morro irremediavelmente nesses pensamentos
que ainda agora o sol iluminava
enquanto eu os estendia e os recolhia
e os orientava numa direcção que convinha
e os precipitava sobre o fumo de uma casa
sobre um buraco de luz ou uma coluna de fumo
mais volúveis que um bando de pássaros
Morro mais uma vez criticamente completo
Todos os gestos
carregados com vinte e quatro horas de história
de ventre ferido na aventura do restolho
petrificaram inevitavelmente
na face orientada de uma estátua
aqui ou noutro jardim
Todo o caminho é de regresso
Amanhã serei outro:
lavarei os dentes com toda a solenidade
como antigamente meu pai antes das grandes viagens
enquanto alguém no espelho
se encarregará de olhar pelos meus olhos
Assim sou passado de dia em dia
confiado pelo dia que parte ao dia que chega
não venha o sino que ao longe toca perturbar
as linhas de um rosto que recompus
e pus de pé na atmosfera doméstica
Fechar um postigo pode ser um gesto cheio de significado quando
na arrumada paisagem quotidiana
a expectativa marcada pela funda inspiração
nos revela duas ou três mãos
postas sobre a colina
Amanhã serei outro
Ruy Belo
Aquele Grande Rio Eufrates
o sol de a fechar sobre a minha diária aventura
Viram-no partir pontualmente à mesma hora
quando num pouco de dia a um canto sempre a um canto
já eu tinha conseguido arredondar
uma íntima ampola de som para a palavra definitiva
Ia mesmo soltá-la eu que todo o dia fui para ela quando
ele me deixou e foi abrir outras portas
erguer verticalmente caídas esperanças
e passar novas mãos por tantas faces mortas
Só me resta recolher o meu rebanho de pensamentos
com um vago rumor de guizos
enquanto à beira-mar os camponeses deixam
palavras não aladas cair na água morta
Morro irremediavelmente nesses pensamentos
que ainda agora o sol iluminava
enquanto eu os estendia e os recolhia
e os orientava numa direcção que convinha
e os precipitava sobre o fumo de uma casa
sobre um buraco de luz ou uma coluna de fumo
mais volúveis que um bando de pássaros
Morro mais uma vez criticamente completo
Todos os gestos
carregados com vinte e quatro horas de história
de ventre ferido na aventura do restolho
petrificaram inevitavelmente
na face orientada de uma estátua
aqui ou noutro jardim
Todo o caminho é de regresso
Amanhã serei outro:
lavarei os dentes com toda a solenidade
como antigamente meu pai antes das grandes viagens
enquanto alguém no espelho
se encarregará de olhar pelos meus olhos
Assim sou passado de dia em dia
confiado pelo dia que parte ao dia que chega
não venha o sino que ao longe toca perturbar
as linhas de um rosto que recompus
e pus de pé na atmosfera doméstica
Fechar um postigo pode ser um gesto cheio de significado quando
na arrumada paisagem quotidiana
a expectativa marcada pela funda inspiração
nos revela duas ou três mãos
postas sobre a colina
Amanhã serei outro
Ruy Belo
Aquele Grande Rio Eufrates
25 março 2011
24 março 2011
Destinos
Algum dia, em alguma parte, em qualquer lugar,
encontrar-te-ás a ti mesmo e essa, só essa,
pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas.
Pablo Neruda
Times Like These (Acoustic Version)
Foo Fighters
encontrar-te-ás a ti mesmo e essa, só essa,
pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas.
Pablo Neruda
Times Like These (Acoustic Version)
Foo Fighters
21 março 2011
Dia do Pai 2011 - Rabo de Peixe Margem Sul
A cabra cega das maçãs (com as costas feitas num ponto de interrogação e segurando um saco de gelo com a mão direita).
Quando as mães são de mão-cheia, ser pai é facílimo! ;-)
Quando as mães são de mão-cheia, ser pai é facílimo! ;-)
18 março 2011
17 março 2011
Uma noite
Depois de mais uma estirada trôpega e vacilante, ele sucumbiu ao peso da lua cheia que iluminava o céu da aldeia. Deixou-se ficar sentado na valeta, de braço-dado com a estrada poeirenta.
Ela passou em galope veloz, montada na garupa da sua soberba.
Ele sorriu.
Um dia – pensou – um dia a humildade estampar-se-á na tua vida como cinco dedos na cara.
Soergueu-se e procurou o rumo de casa. Pensou num banho quente, no velho cadeirão coçado e num livro de poesia. Sim… de poesia, esse pasto da alma, esse vento Siroco que sempre depositara nas suas mãos eternas sementes de inquietação. Nela mergulhava todas as noites, como se num mar verde esmeralda. Fundo, tão fundo até onde o verde fica mais turvo e se soltam os gritos há muito tempo calados.
Ao retornar de cada uma dessas viagens, a sua existência não era mais a mesma, a sua consciência não estava já onde a havia deixado.
Um cachorro escanzelado atravessou-se-lhe ao caminho. Meio a medo, afoitou-se à força de tanta fome, com a cauda entre as pernas. Ganhou os restos de um pedaço de pão duro. Tudo se partilha, até mesmo a miséria quando nada mais há para partilhar.
Tirou do bolso uma garrafa de esperança. Sorveu um trago… e ainda outro.
Cerrou os olhos, deixou que a sua cabeça pendesse para trás. Inspirou fundo engasgando-se com a resposta de dois pulmões cheios de fumo e de mágoa.
Suspirou...
Contemplou o céu...
Avançou...
Viveu!
Sem cor
Dr1ve
Ela passou em galope veloz, montada na garupa da sua soberba.
Ele sorriu.
Um dia – pensou – um dia a humildade estampar-se-á na tua vida como cinco dedos na cara.
Soergueu-se e procurou o rumo de casa. Pensou num banho quente, no velho cadeirão coçado e num livro de poesia. Sim… de poesia, esse pasto da alma, esse vento Siroco que sempre depositara nas suas mãos eternas sementes de inquietação. Nela mergulhava todas as noites, como se num mar verde esmeralda. Fundo, tão fundo até onde o verde fica mais turvo e se soltam os gritos há muito tempo calados.
Ao retornar de cada uma dessas viagens, a sua existência não era mais a mesma, a sua consciência não estava já onde a havia deixado.
Um cachorro escanzelado atravessou-se-lhe ao caminho. Meio a medo, afoitou-se à força de tanta fome, com a cauda entre as pernas. Ganhou os restos de um pedaço de pão duro. Tudo se partilha, até mesmo a miséria quando nada mais há para partilhar.
Tirou do bolso uma garrafa de esperança. Sorveu um trago… e ainda outro.
Cerrou os olhos, deixou que a sua cabeça pendesse para trás. Inspirou fundo engasgando-se com a resposta de dois pulmões cheios de fumo e de mágoa.
Suspirou...
Contemplou o céu...
Avançou...
Viveu!
Sem cor
Dr1ve
16 março 2011
Navegar
Saio do combóio. A estação fervilha de vida nesta manhã de Março.
Cruzam-se estados de espírito, alegrias e preocupações. Cruzam-se pessoas, cruzam-se sonhos, cruzam-se vidas.
A vibração é ininteligível. Dá vontade de nos elevarmos acima da mole humana, abrir as asas e sacudir os nossos tormentos.
Deviamos todos poder ser capazes de nos melhorar com a mesma facilidade com que um pequeno pardal se lava numa poça de água.
Sorvo o momento; sigo caminho.
Hoje tenho uma arguição de Mestrado na Faculdade. É a vez da Sónia... A Sónia e as incontornáveis angústias de quem está preparadíssima mas teima em achar que não. Vai fazer um brilharete. Eu sei que sim!...
É cedo. Sento-me ao sol.
Fecho os meus olhos. Surgem-me os teus, devolvendo a sensação de cada despertar outrora experimentada.
Faltas-me... mas não te quero!
A vaga foi fresca, cristalina, renovadora. Mas não passou disso mesmo: uma vaga que cresceu, nos envolveu e rebentou em todo o seu esplendor. Espraiou-se na praia da vida deixando nada mais do que uma memória sofrida.
A vida é assim mesmo. Mas as marés são muitas e as vagas muitas mais.
De uma coisa eu tenho a certeza: este batel mudou de rumo.
Não lhe diviso o destino.
Não quero, sequer, perder tempo com isso.
Por ora, basta-me o simples navegar...
Sailing
Christopher Cross
Cruzam-se estados de espírito, alegrias e preocupações. Cruzam-se pessoas, cruzam-se sonhos, cruzam-se vidas.
A vibração é ininteligível. Dá vontade de nos elevarmos acima da mole humana, abrir as asas e sacudir os nossos tormentos.
Deviamos todos poder ser capazes de nos melhorar com a mesma facilidade com que um pequeno pardal se lava numa poça de água.
Sorvo o momento; sigo caminho.
Hoje tenho uma arguição de Mestrado na Faculdade. É a vez da Sónia... A Sónia e as incontornáveis angústias de quem está preparadíssima mas teima em achar que não. Vai fazer um brilharete. Eu sei que sim!...
É cedo. Sento-me ao sol.
Fecho os meus olhos. Surgem-me os teus, devolvendo a sensação de cada despertar outrora experimentada.
Faltas-me... mas não te quero!
A vaga foi fresca, cristalina, renovadora. Mas não passou disso mesmo: uma vaga que cresceu, nos envolveu e rebentou em todo o seu esplendor. Espraiou-se na praia da vida deixando nada mais do que uma memória sofrida.
A vida é assim mesmo. Mas as marés são muitas e as vagas muitas mais.
De uma coisa eu tenho a certeza: este batel mudou de rumo.
Não lhe diviso o destino.
Não quero, sequer, perder tempo com isso.
Por ora, basta-me o simples navegar...
Sailing
Christopher Cross
07 março 2011
04 março 2011
Diálogos poéticos
Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos.
Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens.
Que viemos, amámos, pecámos e partimos
Como a água das chuvas.
Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
Do que dizem e pensam
E que a nossa aventura, é no vento que passa que a ouvimos,
É no nosso silêncio que perdura.
Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
E que enterrámos vivo o fogo que nos queima.
Tu lhes dirás, meu amor, se for preciso,
Que nos espreguiçaremos na fogueira.
José Carlos Ary dos Santos
SEMPRE
Como se os nossos corpos rebolassem num colchão de palavras,
nadei nos conceitos que me sussurraste ao ouvido,
nas frases soltas que tomaram forma afirmativa do meu e do teu ser!
Gemi as exclamativas frases que me arrancaste do fundo do peito...
Amei-te num futuro mais-que-perfeito!
Bani dos meus horizontes o modo condicional do verbo sentir e usei o gerundio do gosto de sorrir...
Num complemento circunstâncial de modo...
Amei-te!
No circunstâncial de lugar fiquei à espera
que o circunstâncial de tempo fosse um segundo...
do tamanho do mundo!
Antes do amo coloquei um pronome pessoal
e a seguir um reflexo
e vi que tinha nexo o que acabei de te dizer!
Muni-me então do campo lexical de tempo...
Sob a forma determinante da interrogativa
e surgiu o quando?
logo seguido da verbalização angustiada
do amanhã?
Apenas concluí no modo docemente circunstancial,
com a única temporal que eu senti:
Sempre!
Cristina Fidalgo
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